A revista Sábado decidiu fazer um pouco de chacota com o pessoal, utilizando a velha técnica das perguntas aleatórias atiradas para o ar, seleccionando as respostas erradas, e concluir com o diagnóstico de ignorância crónica dos entrevistados, neste caso, são universitários incautos.
A ignorância dos outros tem muita piada, também me ri, mas o restante burburinho é saloiice.
Uma das perguntas, era quem escreveu o “Envangelho Segundo Jesus Cristo”. Houve quem não sabia. O Sousa Lara censurou esta obra (é esta a palavra) com base em princípios dogmáticos e políticos, e era ministro. Ou não o leu, ou não o compreendeu. Portanto a “ignorância” dos universitários é condizente, o país não aceitou o mais genial escritor da língua portuguesa, porque era comunista e não usava pontuação (esse argumento brilhante de pseudo-intelectuais que não leram Saramago).
Um exemplo desta histeria, é um artigo do Manuel Serrão(MS) no JN. Também ele constata este apocalipse intelectual. Imagine-se até, que havia pessoas que não sabiam o nome do actor que interpretou o Padrinho, impressionante, como não superam este benchmark de cultura geral, seja lá o que isso for…
Um homem que nunca tenha lido um livro, visto um filme, que nunca tenha sequer escrito o próprio nome, é esse homem um ignorante, se tudo o que saiba seja o suficiente para ser feliz?
Há um complexo em relação à ignorância, na geração do MS. Não é uma crítica, é uma constatação, viveram em tempos onde estudar, não era uma escolha, era um previlégio. Por isso empurram-nos para as universidades, convencendo-nos que sem diploma não seríamos ninguém na vida. O Fernando Pessoa e o Saramago estariam condenados, pois eles nunca lá puseram os pés. Boas notas para mostrar aos pais, boas estatísticas para mostrar aos mercados, tanta exigência, e é apenas de imagem que continuamos a tratar. Uma casa com um jardim bonito, e a lixeira no quintal.
O MS tem razão na conclusão do artigo. Não é a democratização do acesso à informação que nos faz informados, é a curiosidade, e mais importante, o prazer em aprender por iniciativa própria. A verdadeira cultura está nessa busca, e não em conhecimentos aleatórios.
Fomos “desmemoriados” pelo google, a partir de certo ponto. Constato este fenómeno pessoalmente, e é algo que ultimamente tenho procurado contariar através da leitura, o último refúgio do conhecimento. Tudo o que precisamos de saber está ao alcance da ponta dos dedos, é essa a diferença, ainda se está a perceber o impacto desta nova realidade, confundem-se as coisas.
Não se entenda este desabafo como uma espécie de corporativismo, apesar de já não ser aluno, sinto-me mais motivado para aprender do que na altura em que frequentava a universidade.





Curiosamente, a do Saramago foi a única que não sabia.
Contudo, sabia que não tinha sido Moisés.
“Um homem que nunca tenha lido um livro, visto um filme, que nunca tenha sequer escrito o próprio nome, é esse homem um ignorante, se tudo o que saiba seja o suficiente para ser feliz?”
É, dependendo do assunto. Se eu estou a ser julgado/avaliado, numa determinada área, que interessa se sou feliz ou não? É como estares a apresentar um trabalho ao JBB ele perguntar-te porque o que significa aquele trecho de código e tu responderes, “é pá não sei, mas sou feliz”.
Podia ter sido o moisés, havia uma terceira tábua com o envangelho, fomos todos enganados…
Os homens felizes não conhecem o JBB…
Uma pessoa que seja verdadeiramente feliz, já sabe tudo o que precisa de saber. Só me interessa saber, na medida em que essa sabedoria responde a necessidades da minha vida, ou que me ajude a alcançar um objectivo pessoal, que não passa por saber de cor o elenco do Padrinho…
Este sketch é apenas gozo, nada indica sobre o nível cultural dos portugueses. Agora, um debate na assembleia, esse preocupa mais, é a mesma ignorância, camuflada de vaidade intelectual