Os pais tiranos

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A Mãe do Todas as Bombas.

A escolha do nome não foi um lapso freudiano, o macho-alfa não tem sentido estético; o mais largo que alcança na sua imagética, é a representação fálica do aço erecto ejectado da traseira de um avião e a sua precipitação vertical, inevitável e estrondosa no impacto.

Alarves, excitam-se com a exorbitância dos números: 10 toneladas de peso, dezenas de milhões de dólares de preço, mais de um kilómetro de explosão, o equivalente a onze toneladas de TNT, a maior a seguir à nuclear.

São homens simples e brutos.

Imagem daqui.

Afinal, há limites para o humor: a realidade

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coelho

José Manuel Coelho, refugiado político que deu à costa do Principado da Pontinha  foi acolhido por Renato I, o benemérito monarca desse ilhéu situado a escassos setenta metros da cidade do Funchal, que anuiu ao pedido de asilo do deputado madeirense perseguido pela República Portuguesa, e condenado a uma pena de prisão efectiva num processo interposto pelo advogado António Garcia Pereira, também ele vergado pela humilhação da expulsão do PCTP/MRPP acusado de “mancomuno com a direita neonazi e as novas polícias secretas fascistas” por Arnaldo Matos. Um bizarro cruzar de destinos de personalidades que não se conformam com a Lei dos homens comuns.

O toque da corneta assinalou a solenidade do evento; o ofendido foi conduzido às instalações reais por sua Alteza, onde poderá refugiar-se aos fins-de-semana, período de encarceramento – até na periodicidade de pena se manifesta a crueldade dos seus carrascos do continente. Mas não temam, em boa hora este injusto acossado procedeu à burocracia necessária para atrapalhar a sanha persecutória: adquiriu o bilhete de identidade deste principado do Atlântico.

Infelizmente, preocupados com os reclames espalhafatosos em intervalos de eventos desportivos com menos acolhimento no velho continente do que a maratona de triciclos, os media não dão cobertura ao drama pessoal deste asilado; certamente que esta negligência não passará despercebida aos radares competentes.

Libertem o Coelho!

Pós-verdade ou “pré-rede”?

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Em 1938,  Orson Welles, baseado no romance “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, protagonizou um célebre programa de rádio onde simulava uma invasão de marcianos, causando o pânico num público que entendeu ser realidade o que era ficção.

O susto não foi propositado e ficou para a História da rádio apenas como um episódio pitoresco. O mesmo não se pode dizer acerca da proliferação de notícias falsas, e mais cabalístico ainda, provenientes de órgãos noticiosos falsos. Este artigo do The Guardian (ainda vou confiando em alguns) dá conta de casos, nomeadamente a de um grupo de adolescentes na Macedónia que fazia lucro com visualizações de notícias favoráveis a Donald Trump; sabe-se lá quantos votos terá rendido ao agora presidente eleito a difamação de Hillary.

As controversas eleições, EUA e Brexit, agudizaram esta discussão ao ponto da palavra post-truth ser eleita a palavra do ano para definir as “circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”, mas parece-me que se está a incorrer num equívoco.

Tenho a convicção de que a nossa relação com a verdade não se alterou: a tendência por procurar sustentação para preconceitos pessoais, quer em estudos e notícias aparentemente credíveis, ou na adesão em massa à mesma ideia partindo do duvidoso pressuposto que a maioria tem razão, mantém-se; a grande diferença é o poder divulgador da internet, das redes sociais.

Utilizo o fictício termo “pré-rede” para expressar o que julgo ser a era contemporânea onde ainda nos estamos a adaptar à rede, à possibilidade de nos tornarmos indesejavelmente visíveis,  e à nossa necessidade de aprendizagem na filtragem de informação. A tentação de assumir notícias que satisfaçam aquilo que desejamos ser verdade é diabólica, por isso não será um tempo fácil para discussões fundamentadas.

À falta de ética, remete-se o julgamento para a História

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a História avaliará os méritos e os deméritos do papel de Fidel Castro e da natureza do regime

Esta citação de uma declaração de Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, sumariza um conjunto de reacções que, por uma ou outra razão, perante uma ditadura mostram uma condescendência pouco saudável, e em muitos casos, uma admiração candente quer pelo líder histórico, quer pelo regime uni-partidário. A liberdade é um princípio muito frágil, tendo em conta a quantidade de pessoas que estão dispostas a abdicar dela para satisfazer a sua libido ideológica.

“Houve fuzilamentos, mas está bem, quando é que houve fuzilamentos? Nos EUA ainda há pena de morte, mas em Cuba já não há fuzilamentos.”, dizia alguém esta manhã na sicn, com uma comoção que não se desfez em lágrimas talvez pelo pudor que as câmaras impõe.

“Pátria ou Morte, Venceremos! Socialismo ou Morte!”, esta frase rematava os discursos de Fidel Castro e significa muito mais do que aquele romantismo revolucionário que tanto atrai sensibilidades apaixonadas; significa uma imposição sem concessões, é uma questão de vida ou morte: a não adesão a esta ideia significou o exílio ou a morte de muita gente. O regime de Fidel foi uma ditadura, e não é preciso que esperar pelo tribunal da História para fazer esse julgamento.

O castrismo não foi um bom filme, foi má realidade.

Eu também não gostava de ver o Macdonald’s espalhado por Havana e a música cubana substituída pela batida panasca de Justin Bieber; mas não conheço cubanos, a sua opinião tem pouco eco, devem ser eles a decidir; deve prevalecer a rua caribe sobre a instrumentalização de um povo pelos privilegiados urbanos com os seus cartazes.

 

Lojas de roupa: antecâmaras de discoteca

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Lojas de roupa, locais onde entro com uma ansiedade nervosa, açoitado pela necessidade imperiosa de renovar alguma secção caduca do meu guarda roupa.

Não bastasse essa angústia inexplicável – que talvez justificasse uma regressão que pudesse desvendar um qualquer episódio traumático na minha infância e resolver assim a  maleita -, e mal atravesso aquelas placas verticais que guincham com uma estridência exaltada na leve suspeita do furto de um casaco de malha (tivesse o Banco de Portugal o mesmo sistema quando avaliou o BES e ainda agora nos zuniam os tímpanos),  sou logo atordoado por um conjunto de sons que coincide com a paisagem sonora de uma discoteca.

É uma relação estética que parece demasiado óbvia para não conter uma mensagem de rejeição para aqueles que, como eu, sentem um desenraizamento imediato em tais locais assombrados por vaidades geladas; um sentimento reforçado pelos olhares desconfiados dos jovens que neles trabalham: os rapazes, particularmente, olham para mim com o desprezo geralmente atribuído a um traidor, talvez por não ter como eles, uma depilação impecável revelada por t-shirts coloridas decotadas até meio do peito que ostentam com o orgulho de uma raça eugénica.

– Precisa de ajuda? – pergunta-me enquanto enfia um cabide nos ombros de uma camisa feia que, em promoção, custava 39,90€.

– Não, obrigado. Só estou a ver – a resposta evasiva de quem, mais uma vez, hipnotizado pelos anúncios a reduções de 30% nos preços, se apercebeu de que não pertence ali; aliás, usar o substantivo “discoteca” para designar espaços que são sempre designadas pelo seu nome próprio desde os anos noventa, é revelador da minha desadequação.

Não comprei nada, nem precisava.

Before the Flood

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É-me indiferente a evidência científica que estabelece um nexo de causalidade entre a actividade humana e as alterações climáticas. O respeito pelo ambiente é uma superior questão de ética, é-me suficiente.

O ambientalismo tem um cariz ascético, austeritário, conservador, incompatível com o excesso consumista da contemporaneidade; os ambientalistas tendem a ceder à arrogância, à evangelização, recorrem a instrumentos retóricos pouco apelativos para a maioria, afastando-se assim da política que tem de ser seduzir pela solidez argumentativa; não pode ser por esta via que se obtém a adesão das massas.

É no domínio da política que o argumento das alterações climáticas pode ser operante com muita eficiência: é preciso ameaçar com o cataclismo climático, e deixar bem claro que a causa tem peugada humana; é preciso transportar o ideal ambientalista para a coisa comum.

Esta eficiência na mensagem foi atingida no documentário “Before The Flood”, protagonizado pelo Leonardo DiCaprio, que tem uma produção à dimensão de Hollywood onde planos grandiosos de glaciares a desfazerem-se e florestas queimadas impactam na sensibilidade, vistas aéreas; onde desfilam figuras imediatamente reconhecíveis num reforço de credibilidade e de apelo à adesão. É um filme esteticamente belíssimo e um exemplar acto de propaganda.

Apoio o activismo Di Caprio – embora o documentário, à semelhança de outros dentro da mesma temática (Inconvenient Truth, Cowspiracy, etc), tenda para a ego-trip do narrador, e a moralização enfatizada da sua mensagem possa ter um efeito contraproducente na paciência dos cidadãos – que usa a sua imagem para dar visibilidade a uma causa, e está a ter muito sucesso nesse propósito uma vez que o filme, disponível no youtube há poucos dias, e já tem milhões de visualizações.

O documentário toca em questões sociais muito importantes: como exigir a países pobres, sem capacidade de escolha que não podem agir para além da sua própria sobrevivência, que não procurem o mesmo estilo de vida do ocidente? Como lidar com os refugiados do clima?

É verdade que urge atacar grandes questões políticas tais como o consumo de combustíveis fósseis, mas eu julgo que a mudança tem de ser pessoal, tem de partir de cada indivíduo.

Falta pouco menos de dois meses para o Natal; ainda assim, com uma antecipação sorrateira, com a pressa ávida do vendilhão, já foi plantada uma enorme árvore de Natal no shopping do Bom Sucesso; já foram espalhadas as renas, luzes estridentes, estrelas brilhantes, adereços vários que despoletam no nosso imaginário ocidental a alegria infantil de prendas embrulhadas e famílias felizes.

São vis no seu propósito, são certeiros na sua estratégia comercial, somos impotentes na resistência ao impulso: chama-se Economia, onde pouco ou nada se economiza.

Vamos consumir o que não precisamos, vamos incitar o sistema a produzir acima das nossas necessidades e muito acima da disponibilidade de recursos a longo prazo. O consumidor tem de educar a Economia.

ps: Ontem, a RTP transmitiu o documentário seguido de um Prós e Contras onde o tema foi debatido; infelizmente, no painel não havia contraditório.

Reflorestação em curso

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Do que se perdeu, transformado em cinza, se fará fertilizante para uma modesta reflorestação num bocado de terra que se inscreveu na lista de vítimas desse espectáculo pirotécnico de labaredas a trepar pinheiros e do planar de faúlhas incandescentes na atmosfera cálida de Agosto.

Com privilégio para as espécies autóctones (há muita informação disponível sobre as árvores que compõe este grupo, por exemplo, aqui; ainda assim, destaco estes slides do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), plantei algumas árvores que espero não sucumbirem ao inevitável fogo. Um singelo contributo que tem apenas impacto na minha satisfação pessoal por ver árvores a crescer, uma gota num oceano de eucaliptos. E não vou entrar na discussão eucaliptos vs autóctones, plena de sofismas e falta de rigor, porque não tenho conhecimento técnico (embora mande bitaites com despudor)  para tal; a minha preferência assenta em critérios estéticos.

Ácer

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Bétula (também conhecida por vidoeiro), vai ter um caula branco; veem-se bastante no Gerês.

betula

Carvalho, julgo ser este espécime em particular, um carvalho-negral, típico do norte do país.carvalho

Faia, espécie lindíssima e também povoa o Gerês.

faia

Freixo

freixo

Ginkgo Biloba, árvore asiática (um fóssil vivo que remonta ao tempo dos dinossauros) que vai acabar no jardim. Simbolizava a longevidade pois sobreviveu à bomba atómica no Japão, a ver se esse precedente de resistência é suficiente para sobreviver a um incêndio.

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Liquidâmbar, uma espécie nativa da América, que no Outono exibe um ruivo luxuriante nas folhas.

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Sobreiro, um, decano da floresta portuguesa.

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Caça ao Trump, ou a demissão das ideias

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A política americana é montada nos bastidores como o cenário de um filme, e nós, europeus e espectadores, assistimos ao espectáculo de discursos artificiais, redondos, lapidados cirurgicamente por assessores que sabem escrever, e lidos por actores da vida real, com Obama no papel principal da encenação.

O poder da comunicação já se emancipou claramente ao veto da inteligência; um pasto fértil para a imbecilidade em bruto, e não surpreende a audiência de personagens como Trump, o tele-lixo prova há anos que a alarvidade passa em horário nobre e é levada a sério.

Nada de novo, com a excepção de dois fenómenos que me parecem preocupantes: a ausência de discussão política e a militância em matilha nos ataques pessoais ao candidato republicano.

É  verdade que o Trump baixou a fasquia abaixo dos joelhos, e é difícil penetrar com ideias numa cacofonia de sound bytes aviltantes, mas quem critica o Trump de dentes cerrados acaba por seguir a agenda deste. Certamente que a tem, mas a agenda de Hillary não tem qualquer ressonância, não sei o que ela pensa, por exemplo, sobre terrorismo e segurança ou política externa; só posso presumir que ela defenda a política de intervenções agressivas que tem sido seguida por Obama substituindo as boots on the groud pelos drones (tele-trabalho como satirizou José Sócrates na apresentação do seu [??] livro). Hillary vai ganhar mas, se não fixar a agenda, depois da poeira assentar, quando se virarem para ela, o vazio programático vai-lhe ser cobrado.

Quanto aos ataques a Trump, é verdade que este exótico empresário que subiu a punho (punhos de ouro na camisa, quero dizer), parece um adolescente que ouviu umas larachas do pai à mesa de jantar enquanto dava o telejornal e foi dizê-las à escola, mas é expectável que as celebridades que se arrogam de superioridade moral nas intervenções anti-Trump (veja-se o caso mais recente, do Robert de Niro, que não deixando de ter razão, vai apenas fazer número no coro mediático que, neste momento, mais não faz do que faz bullying aos apoiantes do republicano) se elevem de acordo com o seu discurso. “When they go low, we go high” disse Michelle Obama, e o conselho devia ser seguido.

Neste segundo debate, que assisti, ficou bem claro que o discurso de Trump nem na demagogia tem imaginação; nem parece estar preparado para as questões, sequer. Há uma teoria que defende que ele não quer ganhar esta eleição, tendo em conta o seu comportamento, é verosímel.

Une Jeunesse Allemande

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Este documentário francês retrata a evolução do grupo Baader-Meinhof, desde o movimento artístico, do activismo político, até à acção concreta, a actividade terrorista ocorrida na Alemanha dos anos setenta. É uma geração que procura afirmar-se através da ruptura com a anterior. Recentemente, no debate do Brexit, surgiu também a semente deste repúdio pelas velhas gerações por oposição à exaltação da revolução levada a cabo por uma juventude renovadora e idealista.

No entanto, neste caso em particular de Meinhof , a identificação da geração dos pais com a Alemanha que acolheu a loucura nazi, ora com entusiasmo, ora com aceitação; dota esta juventude de argumentos difíceis de rebater numa sociedade onde, a julgar pelo documentário, parecia dividida pela prudência daquelas que viveram um regime ditatorial, e aqueles que pretendem instaurar um novo regime de sinal oposto.

O documentário é fascinante, apesar da maçadora metralhada de retórica marxista que soa artificial, um veículo para as ego trips dos protagonistas.

Uniformização, afinal?

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Ainda o Acordo Ortográfico de 1990. Este processo, cujos contornos são cada vez mais imperceptíveis, à medida que os seus defensores, anos depois da implementação do dito cujo, vão emitindo opiniões em forma de rescaldo, desviando-se com grande estrondo das pretensões iniciais do acordo, naquele exercício de aproveitamento da amnésia colectiva que poda os detalhes da discussão pública, ainda não cessou de causar espantos, sempre variados.

Tenho a noção de que a oposição ao acordo me atira para o lado do conservadorismo, rótulo imediato para quem questiona a mudança (sempre julguei ser o espírito crítico um sinal de progresso, mas ora me espanto, ora me desencanto, já dizia a cantiga), mas este processo tem contornos de falcatrua e eu não gosto de ser tomado por lorpa. Parece até, que constitui uma afirmação progressista (no sentido utópico da palavra, ou seja, o máximo benefício para todos; porque se pode progredir da borda de um penhasco, para o abismo na sua base, tratando-se um progresso) abraçar este acordo e, através do açoite verbal, exilar os seus opositores num quarto bafiento para que se cubram com as teias-de-aranha do saudosismo. Não tardarão a dizer que a grafia pré-AO era a língua do Salazar – é uma dica com a qual, certamente, o deputado João Galamba se sensibilizaria; mas, para o bem e para o mal, ele não se tentará em enfiar esta atordoada na sua retórica plena de “entos” pendurados no fim dos adjectivos, pois nem a mesma tem a elegância que lhe convém, nem este pasquim digital é frequentado pela aristocracia intelectual lisboeta.

Hoje, em entrevista ao Expresso, a Presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho (faço referência à pessoa, sem qualquer intenção de julgamento de carácter, pretendo discutir ideias, apenas; apesar das águas turbulentas, e o batel abanar, remamos no mesmo sentido), afirmou o seguinte, numa conversa que se iniciou com as estatísticas costumeiras sobre os número de falantes de língua portuguesa (ah, o assomo patriótico com os milhões disto e daquilo…), e que se precipitou num tema que se anunciava como inevitável, tendo em conta o tema da entrevista e o cargo da entrevistada:

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Repare, minha cara senhora, cumprindo o papel de indignado das redes, se eu exclamasse com espanto perante o êxtase da sua resposta, com um resmungado “A menina deve estar a gozar comigo?”; arriscaria numa interpretação, se partindo do português de Portugal, através do qual, se por um lado se poderia concluir concluir a exclamação conter um elogio inicial à aparência jovem de uma senhora que nascera dezassete anos antes do 25 de Abril, mas ao qual se seguiria um impropério que deitaria por água abaixo qualquer simpatia causada pelo duvidoso elogio – que nos dias que correm é tomado por uma discriminação sexual, tendo em conta a referência estética, e é de mau gosto, admito; ainda bem que estamos no campo da especulação, pois eu nunca me dirigiria assim à senhora, embora a urticária do tema me faça perder um pouco as estribeiras com a comichão que me provoca.

Imagine então, que por qualquer capricho do caos cósmico, a senhora nascera no Brasil. Já viu, que equívoco embaraçoso se poderia dar entre nós, se a senhora tomasse à letra a minha exclamação? Eu passaria por alarve – ao-expresso-instituot-camoes-iiestatuto que me é reconhecido sem precisar de potenciar equívocos linguísticos  – e a senhora por pouco perspicaz ao não alcançar as distinções semânticas entre o português de Portugal e o do Brasil. Daí o meu espanto, com a elevação que aplica nesse prodígio.

Então, o AO (que pode ser consultado aqui) trata da ortografia, da semântica ou de ambas? Em que ficamos? De que forma o AO viabiliza um ensino da língua uniforme tendo em conta as profundas, e enriquecedoras diferenças (tal com o a presidente do Instituto Camões o afirma, nesta mesma entrevista)? A resposta de entrevistada tem algo de especulativo, parece enunciar uma expectativa, não tem carácter de afirmação; ainda assim não deixa de ser surpreendente esperar efeitos beatíficos de uma norma tão limitada, quer pelo alcance intrínseco, quer pela sua subreptícia implementação.

O elogio à diversidade linguística, do qual partilho com o maior entusiasmo, não é compatível com a aspiração à uniformização. Afinal, que limitações, que não as de mercado ou de marketing, impedem os leitores das várias nacionalidades se lerem entre si? Há alguma necessidade de traduzir o português do Brasil e vice-versa, para além da compensação da cretinice, da ignorância? Francamente, não me parece, e, tendo em conta um futuro cosmopolita, cultivador da diversidade, o AO já é obsoleto. Abaixo.

Para finalizar, presumo que o AO ainda não estivesse implementado na altura em que foi escrito e publicado no site da FCT, a julgar pelas consoantes condenadas que vão ainda sobrevivendo no quarto artigo.

“Artigo 4.º

Os Estados signatários adoptarão as medidas que entenderem adequadas ao efectivo respeito da data da entrada em vigor estabelecida no artigo 3.º”

O bom gosto

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Gostos não se discutem.

Os adágios populares contém uma sabedoria testada pelos séculos, uma filosofia calejada pela necessidade, os lemas de vida dos sobreviventes, e também nos ensinam que a sapiência se cose com as linhas da prudência, da manutenção da paz; julgo ser esse o intuito deste provérbio citado acima: evitar o conflito.

Entre pessoas razoáveis, outra coisa não se discute. Ninguém põe em causa (não estou a contar com universos matemáticos exóticos), sem sacrificar a sua razoabilidade, que o quadrado da hipotenusa seja a soma do quadrado dos catetos que compõe o triângulo que os três formam; mas se a decisão for colorir essa entidade geométrica de azul celeste polvilhado com pintas de rosa-choque, abre-se um espaço de altercação estética. Vamos excluir as ciências exactas porque até neste meio, parece-me que os gostos têm um papel quando se trata de teorias sobre fenómenos carentes de uma explicação sine qua non – por exemplo, a controvérsia científica na questão das alterações climáticas, debate não purgado de questões político-ideológicas.

Nesta contenda podemos tomar uma posição defensiva e não discutir a opção alheia, mas assim estaremos a partir de uma pessoalização da discussão que, francamente, é de bastante mau gosto, pois evita um debate de fundo que pode melhorar os nossos argumentos, bem como nos expor ao desconhecido. Quando se discutem gostos, discutem-se opções, critérios, não se trata de um julgamento moral, de uma qualificação; não é um ataque pessoal, não põe em causa o respeito. Este é o equívoco que está na origem de muitas desavenças, a crítica é assumida como arrogância.

A noção de bom gosto – e eu acredito que tal conceito existe, aqui também se dividem as políticas – pressupõe que sejam decantados, na medida do possível, conceitos subjectivos tais como o valor emocional ou o preconceito.

Tenho a convicção que o mau gosto surge na cedência ao superficial, ao óbvio, ao lugar-comum. A música é uma fonte privilegiada de exemplos: o solidó na guitarra, aquela sequência de acordes que compõe milhares de músicas pop e que serve de respaldo para a falta de imaginação é um exemplo de falta de gosto. Mas se esta sequência compor a canção da vida de alguém, poderá esse indivíduo classificá-la como sendo de mau gosto, pondo de lado todos os sentimentos que lhe despertam em prol de uma fria análise musical? Creio que sim. É legítimo dizer a essa pessoa que a música da sua vida não vale nada, é um hit de rádio, uma coincidência sonora? Não, e discutir gostos dispensa a falta de sensibilidade no trato. Mas este argumento é clássico pela parte de quem defende é contra esta dialéctica.

A subjectividade tem os seus limites, caso contrário, como se distinguem coisas diferentes? Não é Tolstói diferente deste humilde escriba que desperdiça bytes na rede? É uma manifestação do bom gosto afirmar que esta singela crónica é superior, do ponto de vista literário, a um romance como o Guerra e Paz? Gostos discutem-se.

Outro argumento clássico é o objectivo desta discussão, se o objectivo é obter um prazer imediato sem labor intelectual; neste caso, eu só proponho o seguinte: é possível aumentar esse prazer na medida da compreensão daquilo que se aprecia. Não é necessário ser músico para apreciar uma sinfonia, mas rejeitá-la à partida pela sua complexidade é desperdiçar prazer futuro. Há até quem diga, sendo apreciador de techno, house ou qualquer coisa que seja sempre a mesma martelada durante duas horas, que uma sinfonia é aborrecida. Nesses casos, eu aconselho, ficar em silêncio durante algum tempo, arrumar o telemóvel e passar a 9ª Sinfonia de Beethoven, escutando-a com atenção; se ainda assim, for aborrecido, pode desistir, mas deve a si uma tentativa séria (momento Gustavo Santos).

As nossas capacidades sensoriais podem ser treinadas, o cérebro é um músculo; é um investimento que nos engrandece, procurar melhores livros, melhores músicas, melhores filmes, melhores comidas. O mundo fica maior, mais vasto, mais variado se procurarmos sempre o que vai para além do que conhecemos. E quem estabelece esse critério de qualidade, quem dita o cânone do bom gosto? Ninguém. É um trilho individual, de ouvidos atentos, é o caminho percorrido nessa procura que nos civiliza, porque o processo será sempre incompleto (momento Tolentino Mendonça, mas sem a qualidade literária).

A curiosidade é uma prova de bom gosto.

Não se trata de procurar uma superioridade intelectual artificial, ter referências, citações, nomes e datas na ponta da língua; é ter o prazer de perceber quão grandes somos, fomos e seremos.