Neil Peart

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Faleceu o baterista da banda que mais lamento não ter assistido a um concerto. O baterista dos Rush, Neil Pert (1952-2020). Tocava assim.

Eu tinha uma discussão com malta que tocava bateria (sim, Nelson, és tu): gostava de kits de bateria grandes, não pela espetacularidade, mas pela gama da sons e o efeito musical que produzem, mas eles insistiam que um baterista consegue fazer tudo com um kit pequeno, e todo aquele aparato é show off – não contesto, mas não é este o caso do Neil Peart. Os detalhes que acrescentava à música, recorrendo às inúmeras possibilidades do seu kit, elevam-na para outro nível de composição.

Fecha-se mais um capítulo de uma era musical que cada vez mais se desvanece na bruma da música de plástico contemporânea. Mas não é o momento para verter ácido. Apenas faz sentido a homenagem a, mais do que uma montanha no mundo da bateria, um músico com uma atitude artística absolutamente admirável: rigor e respeito pela arte.

Agradeço-lhe muito as incontáveis horas de air playing no solo da Tom Sawyer, Red Barchetta, The Spirit of Radio, Anthem, e tantas, tantas outras.

Tem um lugar cimeiro na banda sonora da minha vida.

 

As minas avançarão

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Populares recebem secretário de Estado da Energia com protestos. Daqui.

São os últimos espasmos de uma ideia de vida na Natureza, de ruralidade; talvez uma teimosia boba de pessoas que sabem pelo ancestral instinto de sobrevivência aquilo que lhes faz mal. Conhecem a água pelo sabor.

As minas avançarão, é inevitável, se vão construir um aeroporto no estuário do Tejo, um pedaço de terra na “província” é trigo limpo; esta gente não tem o apoio da imprensa, dos intelectuais que se acorrentam às grandes, dos comentadores embevecidos, feridos no seu superior sentido de Humanidade. Não, o problema deles são os mega-acontecimentos d’América do Sul, longe, parangonas vazias. Não tardarão as acusações de estarem estes populares arregimentados pela direita reaccionária e conservadora para travar o progresso ditado por um partido que passa incólume no seu processo de destruição, escolhido naquele espetáculo televisivo de entretenimento político que se denomina de processo de democrático. Estes populares lutam pelo que vale a pena lutar.

Perguntam-me, e bem, olha lá, então qual é a solução? Viver do turismo? Como combater as alterações climáticas?

Estou-me a cagar pr’ás minas. Se partir um dedo, não corto o braço.

Sinto-me triste por saber que, no futuro, terei saudades.

People who don’t like chocolate

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Among the most original features I have ever observed in human fauna, the disdain for chocolate gives an eccentric aura to those who renounce the cacao fruit. There are people who don’t like chocolate.

If, in days gone by, still dazzled by the sweet lust displayed in a pastry shop window, I was scandalized by this repudiation that I considered a blasphemy whose minimum penalty would be the extraction of the palate, today I consider these specimens to be culinary rebels, that deserve to be acclaimed by their affront to the common sense of taste.

They are not fooled by the dense aroma of hot chocolate with orange; they are insensitive to the sweetened scum of a hazelnut milk chocolate; they make deaf ears at the sweet crackle of the crunchy which, by magical arts of a secret alchemy, has been enclosed in cocoa paste balls; they are superior to the crowd mesmerized by the craft of chocolatier.

People who do not like chocolate belong to an elite that will avoid diabetes with a sense of taste that does not give in to pop flavors.

“Disgrace”, J. M. Coetzee

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One of the greatest pleasures of my life is to look for, or casually find, writers that surprise me. Have no doubt: literature is a place of surprises; reading is a time-consuming process and requires a lot of effort, but is rewarding. At the recent Porto Book Fair, in Portugal, a debate took place on the role of the writer as an intervener in the world; one of the debaters, the writer José Eduardo Agualusa – who defended a perspective with which I do not agree: that the writer has to assume an intervening role or only makes decoration (it did not formulate exactly that, but the idea was this one) – made constant references to Coetzee and how he had left South Africa’s social reality to move to Australia and devote himself to vegetarianism; a change that, according to Agualusa, made him lose interest in his work.

I got this name in my ear and a few days later I ended up buying “Disgrace”. In this book, in a way, Coetzee deals with both themes, relating them and, in my view, converging them into the opposition between the human sensibility necessary for the care of animals – the little dog on the cover does not appear out of place – and the crudeness of visceral desire, that must be met even if the consequences are clear and tragic. Over this book, and in the future of its characters, hangs a disgrace that seems inevitable, a violence that reveals the true nature of man. Hope wasn’t banned form the book, but the atmosphere is disturbing.
Keep reading…

The keyboard museum of the Belgian Royalty

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For those who like keyboards, the Musical Instrument Museum on Brussels worths the 10 euros that the ticket costs; however, who wants to appreciate an wider range of instruments, namely, percussion and strings, my find it somehow disappointing. This Belgian museum contains a great quantity of harpsichords and pianos that belonged to rich families and famous characters – as told by the descriptions – but a very modest collection. My advice, for those who intend to visit the museum, is to moderate the expectations.

After visiting London and some of its magnificent museums – no entrance fee! – I was very ill used concerning a collection relevance and it’s organization.

keep reading…

“Desgraça”, J.M. Coetzee

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Um dos grandes prazeres da minha vida é procurar ou encontrar casualmente escritores que me surpreendem. Não tenham dúvidas: a literatura é um lugar de surpresas; ler é um processo moroso que exige trabalho, mas é compensador. Na recente Feira do Livro do Porto teve lugar um debate sobre o papel do escritor como interventor no mundo; um dos debatentes, o escritor José Eduardo Agualusa – que defendia uma perspectiva com a qual não concordo: que o escritor tem de assumir um papel interventor ou faz apenas decoração (não formulou exactamente assim, mas a ideia era esta) – fez constantes referências ao Coetzee e como este abandonara a realidade social da África do Sul, para se mudar para a Austrália e dedicar-se ao vegetarianismo; o que, segundo Agualusa, fez perder interesse na sua obra.

Fiquei com este nome no ouvido e, poucos dias depois, acabei por comprar a “Desgraça” (pode ser lido um excerto aqui). Neste livro, Continuar a ler

Museu dos teclados da realeza belga

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Para quem gosta de teclas, o Museu dos Instrumentos Musicais em Bruxelas vale bem os 10 euros do bilhete; mas, para quem quer apreciar um espectro mais largo de instrumentos, nomeadamente, percussão e cordas, vai ficar um pouco desapontado. Este museu belga alberga uma quantidade enorme de cravos e pianos pertencentes à burguesia – assim contava a descrição das peças -, mas muito modesto no restante acervo. O meu conselho, para quem tenciona visitar este museu, é de moderar as expectativas.

Depois de visitar Londres e alguns dos seus magníficos museus – e de borla! – fiquei muito mal-habituado quanto à relevância da colecção e a sua organização. Continuar a ler…

O Carnaval de Trudeau

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Há uma figura masculina que desprezo com particular raiva: aqueles tipos bonitos, sorriso cravado na cara como um boneco de cera, olhar confiante e uma capacidade inata para dizer banalidades no momento certo, sempre com o fito de agradar e seduzir. Pronto, queria só dizer isto. Tenho inveja desses figurões? É evidente – mas só pelo magnetismo que emitem.

Tal é o caso do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Estarei a ser injusto com o indivíduo? Talvez sim, mas refiro-me apenas à figura pública. E poupem-me o whataboutism do “ai, e do Bolsonaro, do Trump, não falas?”: esses não são incensados como os príncipes da vanguarda cultural contemporânea – têm o seu lugar reservado  no sótão da História e olharemos para eles com a mesma bonomia das roupas fora de moda.

Há algum tempo que ele não aparecia e, eis que surge esta notícia a propósito de uma farra antiga:

Trudeau pediu desculpa por ter escurecido a pele para baile de máscaras em 2001

Ainda bem que ele não é presidente da câmara de Torres Vedras, senão teria de pedir desculpas à comunidade feminina, …continuar a ler…

Resgate-se a “ecologiazinha”

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Foi durante o debate entre Rui Rio, candidato pelo PSD, e André Silva, representante do PAN – partido que reclama a bandeira da defesa dos animais e natureza -, atirado um remoque que bem sintetiza o estado de alma da discussão contemporânea sobre ambiente:

Já algo irritado com as críticas do porta-voz do PAN, Rio decidiu puxar dos galões. “Eu era da JSD e já andava com o engenheiro Carlos Pimenta [ex-secretário de Estado do Ambiente]…”. “Isso era ecologiazinha dos anos 80, doutor Rui Rio, estamos no século XXI”, interrompeu um agastado André Silva. (daqui)

Porque se fala apenas no clima, em detrimento da ecologia, que seria um debate mais rico e sustentado em conceitos filosóficos?

O argumento de autoridade da ciência – o famoso «há um estudo que demonstra tal e tal» ou «há um consenso no seio da comunidade científica» – é incontornável, pois a ciência é a nossa melhor forma de conhecimento empírico. Todavia, o debate está inquinado por uma fé dogmática pouco saudável; uma embriaguez com o caos climático.

Actualmente, não há uma única ocorrência metrológica que não seja atribuída às alterações climáticas, …continuar a ler…

Caixotes de pessoas à beira-mar plantados

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Quanto ao caso da demolição do prédio Coutinho, vamos inverter a questão: que prédios ou edifícios – para além dos históricos – merecem ser demolidos por razões estéticas? Já ouço o trepidar dos bulldozers, começa em Valença e acaba em Faro.

O debate em torno deste mal-afamado prédio de Viana está a resvalar para questões jurídicas; a ordem de despejo já fora emitida há bastantes anos, decretada pelo então Secretário de Estado do Ambiente, José Sócrates, um esteta de grande calibre a julgar pelos projectos que assinou. A história resumida do prédio Coutinho pode ser consultada aqui.

Mas é o argumento estético que interessa mais, pois a discussão – que se saiba… – partiu daí. Não são a estética – no sentido clássico de beleza, pois Estética é um campo de estudo – a agradabilidade, a harmonia de formas, a criatividade, os critérios que conduzem a elaboração destes mamarrachos: é a necessidade de alojar pessoas com pouco dinheiro em edifícios com condições decentes e preços acessíveis. Continuar a ler…

A genealogia de um subúrbio

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caminho-ribeira

“Ai se fosse há uns anos! O que não se diria por aí, se vissem as videiras cortadas, ainda por cima carregadas de vinho!  Agora ninguém quer saber de terras nem videiras, se não for o dono que as cortem eles!”, assim rematava a conversa uma vizinha que foi vistoriar uma recente intervenção da Junta da minha terrinha: um agressivo alargamento de caminho.

Eu voto em branco, e ao contrário dos que dizem ser um voto deitado ao lixo, eu imagino um Portugal diferente naquele boletim. Não é o Portugal que veste uma camisa lavada ao domingo para receber os turistas e anda descalço no resto dos dias para poupar uns cobres a expensas da miséria quotidiana. Imagino um país que reconhece e valoriza a sua identidade cultural e natural – sem qualquer apego a nacionalismos. Viajo pelo interior do Minho – a região que melhor conheço  -, e não reconheço esse respeito, há um desmantelamento em curso. Sigo pela nacional entre o Porto e Ponte de Lima. Falo sozinho no carro como um maluquinho que resmunga para o ar, sem saber do que se queixar mas com a certeza de que o universo conspira contra si. Hiper-sensibilidade de quem se mudou do campo para a cidade, filtrando as dificuldades do interior numa memória transformada em melancolia e patetices bucólicas. O idiota deslumbrado com o pôr-do-sol.

Na minha terra, uma aldeia de Ponte de Lima, existem alguns lugares que sugerem a eternidade como um velhinho sentado na soleira do canastro, lugares que registam a História telúrica dos Homens nas rugas da sua face. A cobertura de musgo e trepadeiras nos muros que ladeiam caminhos de pedra contornados por regatos de água ondeante e fresca cantando num chapinhar apaziguador – o sangue translúcido da terra verde do Minho; as videiras antigas, as oliveiras, a sombra húmida, a minha memória mais remota e reconfortante.

Um destes lugares – um caminho com menos de um quilómetro – foi asfaltado com a mesma arrogância da retro-escavadora que o esventrou. A pouca distinção desta terra com a selva urbana são estes recantos ameaçados pela transformação em subúrbios das grandes cidades, vai-se dissolvendo debaixo do alcatrão e muros de blocos. O pitoresco dá lugar ao grotesco, para poupar dois quilómetros de viagem. A falta de cultura estética e patrimonial é o preço do progresso? É um falso dilema; viaje-se pelo interior de França ou da Baviera, por exemplo, para se testemunhar o contrário. É possível progredir sem sucumbir ao avançar bronco e pesado das máquinas.

ps: escrevi este post em 2015, com algumas alterações posteriores, mas apenas o finalizei agora. Era mais um draft das dezenas que se acumulam. A dada altura, comecei a fazer uma exigência incumprível a mim mesmo em matéria de escrita no blog: tinha de ler o post de princípio a fim sem sentir o impulso de mudar algo; quando não acontecia, sucediam-se as revisões, e abandonava o texo. Auto-sabotagem perpetrada por um feitio inclinado para o desânimo. Ao mesmo tempo, agora que estudo mais a fundo as matérias que durante anos especulei, qualquer pensamento me ocorre parece incompleto, superficial, não contemplador das várias perspetivas que podem ser exploradas, sou céptico quanto ao que escrevo. Sou bastante casto ideologicamente, mas no que toca a ecologia, sinto que o ardor da radicalização me tolda os pensamentos.