A genealogia de um subúrbio

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caminho-ribeira

“Ai se fosse há uns anos! O que não se diria por aí, se vissem as videiras cortadas, ainda por cima carregadas de vinho!  Agora ninguém quer saber de terras nem videiras, se não for o dono que as cortem eles!”, assim rematava a conversa uma vizinha que foi vistoriar uma recente intervenção da Junta da minha terrinha: um agressivo alargamento de caminho.

Eu voto em branco, e ao contrário dos que dizem ser um voto deitado ao lixo, eu imagino um Portugal diferente naquele boletim. Não é o Portugal que veste uma camisa lavada ao domingo para receber os turistas e anda descalço no resto dos dias para poupar uns cobres a expensas da miséria quotidiana. Imagino um país que reconhece e valoriza a sua identidade cultural e natural – sem qualquer apego a nacionalismos. Viajo pelo interior do Minho – a região que melhor conheço  -, e não reconheço esse respeito, há um desmantelamento em curso. Sigo pela nacional entre o Porto e Ponte de Lima. Falo sozinho no carro como um maluquinho que resmunga para o ar, sem saber do que se queixar mas com a certeza de que o universo conspira contra si. Hiper-sensibilidade de quem se mudou do campo para a cidade, filtrando as dificuldades do interior numa memória transformada em melancolia e patetices bucólicas. O idiota deslumbrado com o pôr-do-sol.

Na minha terra, uma aldeia de Ponte de Lima, existem alguns lugares que sugerem a eternidade como um velhinho sentado na soleira do canastro, lugares que registam a História telúrica dos Homens nas rugas da sua face. A cobertura de musgo e trepadeiras nos muros que ladeiam caminhos de pedra contornados por regatos de água ondeante e fresca cantando num chapinhar apaziguador – o sangue translúcido da terra verde do Minho; as videiras antigas, as oliveiras, a sombra húmida, a minha memória mais remota e reconfortante.

Um destes lugares – um caminho com menos de um quilómetro – foi asfaltado com a mesma arrogância da retro-escavadora que o esventrou. A pouca distinção desta terra com a selva urbana são estes recantos ameaçados pela transformação em subúrbios das grandes cidades, vai-se dissolvendo debaixo do alcatrão e muros de blocos. O pitoresco dá lugar ao grotesco, para poupar dois quilómetros de viagem. A falta de cultura estética e patrimonial é o preço do progresso? É um falso dilema; viaje-se pelo interior de França ou da Baviera, por exemplo, para se testemunhar o contrário. É possível progredir sem sucumbir ao avançar bronco e pesado das máquinas.

ps: escrevi este post em 2015, com algumas alterações posteriores, mas apenas o finalizei agora. Era mais um draft das dezenas que se acumulam. A dada altura, comecei a fazer uma exigência incumprível a mim mesmo em matéria de escrita no blog: tinha de ler o post de princípio a fim sem sentir o impulso de mudar algo; quando não acontecia, sucediam-se as revisões, e abandonava o texo. Auto-sabotagem perpetrada por um feitio inclinado para o desânimo. Ao mesmo tempo, agora que estudo mais a fundo as matérias que durante anos especulei, qualquer pensamento me ocorre parece incompleto, superficial, não contemplador das várias perspetivas que podem ser exploradas, sou céptico quanto ao que escrevo. Sou bastante casto ideologicamente, mas no que toca a ecologia, sinto que o ardor da radicalização me tolda os pensamentos.

Uma vitória a antecipar uma derrota antecipada

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Acho que foi o Virgílio Ferreira que escreveu algo remotamente semelhante a isto: “provincianismo é acusar de provincianismo”. São as críticas médias feitas a Rui Rio, recorrendo-se àquela expressão vaga de “não tem mundo”, o que é extraordinário quando o candidato em causa é o único que, apesar da falta de sofisticação retórica – nada que vá abalar os eleitores, tendo em conta a amostra -, apresenta uma capacidade efectiva de realização. É hilariante elogiar-se Santana, em detrimento de Rio, quando se denigre o segundo por se sentir mais à vontade na área económica, pensar contra a corrente, em vez de demonstrar as qualidades que parecem ser as únicas de Santana: gostar de câmeras de TV, debates, e saber dar caneladas.

Santana vai ganhar, parabéns ao PS.

ps: e o body shaming a ambos os candidatos por causa do cabelo e da “falta de juventude”? Há tag para isto?

Podcast Folhas Mortas – Episódio II

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Este segundo episódio é uma breve reflexão sobre aquilo que eu considero serem os equívocos dos defensores e detratores deste movimento cultural designado de “politicamente correcto”.

A ideia para o segundo episódio seria falar de música, mas o tema que acabou por ficar atirou-se para a ribalta.

A propósito deste tema, uma apresentação onde são apresentados exemplos inacreditáveis deste fenómeno. Para quem tem apreço pela ideia de liberdade, diversidade intelectual, o que se passa nas universidades citadas no vídeo é preocupante.

Os artigos que referi durante o podcast podem ser consultados nos links seguintes:

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/maria-de-lurdes-rodrigues/interior/o-antipoliticamente-correto-5696559.html

http://expresso.sapo.pt/blogues/blogue_contrasemantica/2016-12-17-Sabias-que-es-de-direita-

 

Tomorrow

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Este fascinante documentário transparece um pouco da utopia ecológica que muitas vezes repele aqueles que, não se contentando com as belas ideias, precisam da força dos números como sustento da crença. No entanto, mesmo para os cépticos, são abordados assuntos de capital importância:

  • Reciclagem eficiente;
  • Organização das cidades (é afirmado que quantos mais estradas se constroem, mais se adensa o tráfego, exemplificando com Copenhaga e as suas ciclovias);
  • Eco-agricultura;
  • etc..

No domínio da agricultura, é referido que “70% da produção mundial de comida é feita por pequenos agricultares”, e são enunciados processos que tornam a pequena agricultura eficiente. Fiz uma pequena pesquisa, e encontrei alguma polémica relativamente à sustentação deste número. Não divergindo da ideia essencial, promover esta ideia poderia ser uma forma de resolver problemas de desertificação do interior, uma vez que geraria emprego; hortas urbanas embelezavam as cidades, aproximavam a comida das pessoas, evitando os gastos em transportes.

Especulo um pouco, mas a gestão das cidades é crítica e a consciência ecológica poderá despertar grandes ideias para resolver o caos.

Como nota final, os temas abordados no documentário dispensam a fé ou o desprezo pelas alterações climáticas, ou qualquer crença ideológica, está muita para lá disso.

 

Os pais tiranos

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A Mãe do Todas as Bombas.

A escolha do nome não foi um lapso freudiano, o macho-alfa não tem sentido estético; o mais largo que alcança na sua imagética, é a representação fálica do aço erecto ejectado da traseira de um avião e a sua precipitação vertical, inevitável e estrondosa no impacto.

Alarves, excitam-se com a exorbitância dos números: 10 toneladas de peso, dezenas de milhões de dólares de preço, mais de um kilómetro de explosão, o equivalente a onze toneladas de TNT, a maior a seguir à nuclear.

São homens simples e brutos.

Imagem daqui.

Afinal, há limites para o humor: a realidade

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coelho

José Manuel Coelho, refugiado político que deu à costa do Principado da Pontinha  foi acolhido por Renato I, o benemérito monarca desse ilhéu situado a escassos setenta metros da cidade do Funchal, que anuiu ao pedido de asilo do deputado madeirense perseguido pela República Portuguesa, e condenado a uma pena de prisão efectiva num processo interposto pelo advogado António Garcia Pereira, também ele vergado pela humilhação da expulsão do PCTP/MRPP acusado de “mancomuno com a direita neonazi e as novas polícias secretas fascistas” por Arnaldo Matos. Um bizarro cruzar de destinos de personalidades que não se conformam com a Lei dos homens comuns.

O toque da corneta assinalou a solenidade do evento; o ofendido foi conduzido às instalações reais por sua Alteza, onde poderá refugiar-se aos fins-de-semana, período de encarceramento – até na periodicidade de pena se manifesta a crueldade dos seus carrascos do continente. Mas não temam, em boa hora este injusto acossado procedeu à burocracia necessária para atrapalhar a sanha persecutória: adquiriu o bilhete de identidade deste principado do Atlântico.

Infelizmente, preocupados com os reclames espalhafatosos em intervalos de eventos desportivos com menos acolhimento no velho continente do que a maratona de triciclos, os media não dão cobertura ao drama pessoal deste asilado; certamente que esta negligência não passará despercebida aos radares competentes.

Libertem o Coelho!

Pós-verdade ou “pré-rede”?

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Em 1938,  Orson Welles, baseado no romance “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, protagonizou um célebre programa de rádio onde simulava uma invasão de marcianos, causando o pânico num público que entendeu ser realidade o que era ficção.

O susto não foi propositado e ficou para a História da rádio apenas como um episódio pitoresco. O mesmo não se pode dizer acerca da proliferação de notícias falsas, e mais cabalístico ainda, provenientes de órgãos noticiosos falsos. Este artigo do The Guardian (ainda vou confiando em alguns) dá conta de casos, nomeadamente a de um grupo de adolescentes na Macedónia que fazia lucro com visualizações de notícias favoráveis a Donald Trump; sabe-se lá quantos votos terá rendido ao agora presidente eleito a difamação de Hillary.

As controversas eleições, EUA e Brexit, agudizaram esta discussão ao ponto da palavra post-truth ser eleita a palavra do ano para definir as “circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”, mas parece-me que se está a incorrer num equívoco.

Tenho a convicção de que a nossa relação com a verdade não se alterou: a tendência por procurar sustentação para preconceitos pessoais, quer em estudos e notícias aparentemente credíveis, ou na adesão em massa à mesma ideia partindo do duvidoso pressuposto que a maioria tem razão, mantém-se; a grande diferença é o poder divulgador da internet, das redes sociais.

Utilizo o fictício termo “pré-rede” para expressar o que julgo ser a era contemporânea onde ainda nos estamos a adaptar à rede, à possibilidade de nos tornarmos indesejavelmente visíveis,  e à nossa necessidade de aprendizagem na filtragem de informação. A tentação de assumir notícias que satisfaçam aquilo que desejamos ser verdade é diabólica, por isso não será um tempo fácil para discussões fundamentadas.

À falta de ética, remete-se o julgamento para a História

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a História avaliará os méritos e os deméritos do papel de Fidel Castro e da natureza do regime

Esta citação de uma declaração de Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, sumariza um conjunto de reacções que, por uma ou outra razão, perante uma ditadura mostram uma condescendência pouco saudável, e em muitos casos, uma admiração candente quer pelo líder histórico, quer pelo regime uni-partidário. A liberdade é um princípio muito frágil, tendo em conta a quantidade de pessoas que estão dispostas a abdicar dela para satisfazer a sua libido ideológica.

“Houve fuzilamentos, mas está bem, quando é que houve fuzilamentos? Nos EUA ainda há pena de morte, mas em Cuba já não há fuzilamentos.”, dizia alguém esta manhã na sicn, com uma comoção que não se desfez em lágrimas talvez pelo pudor que as câmaras impõe.

“Pátria ou Morte, Venceremos! Socialismo ou Morte!”, esta frase rematava os discursos de Fidel Castro e significa muito mais do que aquele romantismo revolucionário que tanto atrai sensibilidades apaixonadas; significa uma imposição sem concessões, é uma questão de vida ou morte: a não adesão a esta ideia significou o exílio ou a morte de muita gente. O regime de Fidel foi uma ditadura, e não é preciso que esperar pelo tribunal da História para fazer esse julgamento.

O castrismo não foi um bom filme, foi má realidade.

Eu também não gostava de ver o Macdonald’s espalhado por Havana e a música cubana substituída pela batida panasca de Justin Bieber; mas não conheço cubanos, a sua opinião tem pouco eco, devem ser eles a decidir; deve prevalecer a rua caribe sobre a instrumentalização de um povo pelos privilegiados urbanos com os seus cartazes.

 

Lojas de roupa: antecâmaras de discoteca

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Lojas de roupa, locais onde entro com uma ansiedade nervosa, açoitado pela necessidade imperiosa de renovar alguma secção caduca do meu guarda roupa.

Não bastasse essa angústia inexplicável – que talvez justificasse uma regressão que pudesse desvendar um qualquer episódio traumático na minha infância e resolver assim a  maleita -, e mal atravesso aquelas placas verticais que guincham com uma estridência exaltada na leve suspeita do furto de um casaco de malha (tivesse o Banco de Portugal o mesmo sistema quando avaliou o BES e ainda agora nos zuniam os tímpanos),  sou logo atordoado por um conjunto de sons que coincide com a paisagem sonora de uma discoteca.

É uma relação estética que parece demasiado óbvia para não conter uma mensagem de rejeição para aqueles que, como eu, sentem um desenraizamento imediato em tais locais assombrados por vaidades geladas; um sentimento reforçado pelos olhares desconfiados dos jovens que neles trabalham: os rapazes, particularmente, olham para mim com o desprezo geralmente atribuído a um traidor, talvez por não ter como eles, uma depilação impecável revelada por t-shirts coloridas decotadas até meio do peito que ostentam com o orgulho de uma raça eugénica.

– Precisa de ajuda? – pergunta-me enquanto enfia um cabide nos ombros de uma camisa feia que, em promoção, custava 39,90€.

– Não, obrigado. Só estou a ver – a resposta evasiva de quem, mais uma vez, hipnotizado pelos anúncios a reduções de 30% nos preços, se apercebeu de que não pertence ali; aliás, usar o substantivo “discoteca” para designar espaços que são sempre designadas pelo seu nome próprio desde os anos noventa, é revelador da minha desadequação.

Não comprei nada, nem precisava.