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Nunca como agora, desejei tanto voltar aos meus tempos de infância. Quando era criança, cada dia me parecia o primeiro de um milhão que se seguiriam. Tudo me parecia infinito, intemporal. Podia ser tudo “quando fosse grande”, tinha todas as possibilidades, toda a gente me protegia, nunca me pediam qualquer esforço… Eu não posso pedir, nem quero, que agora tudo fosse dado sem que requeresse qualquer esforço da minha parte. As coisas não teriam valor. Mas o sentimento de imunidade é reconfortante. Há muito tempo que não adormeço sem pensar no dia de amanhã. Mesmo que não tenha alguma tarefa urgente, há sempre um prazo, uma responsabilidade.

Estou num sítio que não me é familiar em nada. Estou a conhecer pessoas e lugares a um ritmo que me custa acompanhar. É esse o paralelo que faço com a minha infância. Em criança, absorvia com facilidade tudo de novo que surgisse, mas agora reflicto sobre tudo. Aqui não me posso dar a esse luxo, é preciso seguir a velha máxima: “Age primeiro, pensa depois”.

Ultimamente, dei comigo a ver o Telejornal online, todos os dias leio o JN, nunca estive tão informado da actualidade em Portugal como estou agora, falo com os meus pais de 3 em 3 dias… Espero que seja só um síndrome durante este período de adaptação. A parte física da adaptação foi conseguida com sucesso, muito mais do que esperava, mas sentimentalmente as coisas tendem sempre a ser difíceis. Honestamente, uma grande parte de mim ainda está em casa. Mas isso vai mudar. É sempre assim comigo. E quando regressar, uma parte de mim vai ficar cá, assim o espero.

É nesta contradição que eu vivo, tem sido sempre assim, excepto quando era criança. Aí a simplicidade dominava a minha vida. É isso que eu quero redescobrir, foi por isso que vim para aqui. Terapia de choque para quem complica as coisas, é a única maneira de aproveitar as relações de curta duração com lugares e pessoas, não pensar, apenas sentir e sermos nós mesmos.