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Quando era criança e ouvia falar de um comboio super rápido chamado TGV, fazia-me  sonhar.  Construía linhas de comboio e estações de caminho de ferro em miniatura, tudo com lama  e latas de atum presas com fios umas às outras. Para minha grande felicidade, aqueles senhores de discurso afável ditaram lá do alto que eu estava a ser estúpido. Porque raio é que estava com os meus amigos a brincar com latas de atum sujas com óleo, se podia ter um TGV limpinho a passar pelo meu quintal e podia viajar para todo o lado. Agora estou iluminado pela verdade. Aqueles fins de tarde de verão, o brando calor do pôr-do-sol, subir ás árvores para comer fruta com as mãos sujas de terra, figos, tangerinas, maçãs, enfim…uma criança estúpida a fazer coisas sem interesse para a sociedade evoluída que é a portuguesa. Qual é acréscimo no PIB quando se apanha uma laranja de uma árvore? O que eu devia ter feito era uma petição para que construam uma linha de TGV, assim podia ter ido a Vigo sentado confortavelmente na cadeira do TGV, confortado pela almofada macia tecida por crianças da minha idade num desses países asiáticos. Era muito melhor do que ir do galinheiro até ao sopé da nogueira, ainda por cima tenho de ser eu a empurrar o comboio…Não precisava de recolher laranjas das árvores, na estação deve ter uma máquina de refrigerantes, podia beber um sumo super nutritivo com as mãos lavadinhas, sem correr o risco de apanhar uma dessas Hepatites do abecedário. Temos de evitar que as crianças sujem as mãozinhas na terra suja e feia. Uma estação de comboio em cimento com casas de banho para lavar as mãos é uma solução muito mais civilizada.

Sinceramente, escrevo isto quase com lágrimas nos olhos. Porquê agora? Já tinha ouvido falar numa linha de TGV a passar por Ponte de Lima, mas nem sequer levei a sério. É tão surreal, que não perdi tempo a pensar nisso. Mas pelos vistos já existe uma proposta concreta. Não sei o que pensar. Não sei de quem hei-de ter pena. De mim que vou ficar a ver o palco da minha infância a ser destruído ou das pessoas que pensam que vai melhorar a situação de Ponte de Lima. Vamos ser frontais, é tudo uma questão de dinheiro, nada mais, absolutamente nada. Não pode existir um projecto para o futura desta terra,  se esse não se assentar na valorização da riqueza ambiental, outro não poderá ser. Em relação à proposta. As reacções que desencadeou deixa antever o tipo de projecto em causa. Ao que parece os planos foram feitos “à socapa”, sem o conhecimento das autarquias, assim afirma Daniel Campelo. Esse mesmo, o dos queijos, espero eu que se torne agora o dos comboios, pois a situação é muito mais grave.

“Ao contrário do compromisso assumido pela secretária de Estado dos Transportes, os corredores foram definidos completamente à revelia dos representantes autárquicos do Concelho. Não fomos tidos nem achados neste processo e acabámos por ser confrontados com a publicação de dois traçados que pura e simplesmente não podemos aceitar”, disse, à Lusa, Daniel Campelo. (in Jornal de Notícias)

Agora, por onde passam esses corredores? Vamos pôr de parte o brutal e completamente inaceitável impacto visual, bem como o ruído causado por tal faraónica obra. O traçados passam por cima de freguesias inteiras, destruindo o património centenário do concelho, vai ter um impacto terrível sobre a qualidade de vida das populações.

A “falta de estudo” dos possíveis impactos dos traçados propostas para a linha de TGV que cruzará o concelho de Ponte de Lima chega ao ponto de ameaçar “várias igrejas” e até uma área protegida, acusou o presidente da Câmara local. Segundo a acusação feita por Daniel Campelo, “um dos corredores propostos passa por cima de vários adros de igrejas”, casos das localidades de Vitorino de Piães, Freixo e Fornelos, entre outras. E nem a Área Protegida das Lagoas de S.Pedro de Arcos e Bertiandos escapa ao mesmo canal, que cruza por completo este que é um dos ex-libris do concelho. (http://www.radiogeice.com)

Sinceramente custa-me a crer que eles mexam com igrejas neste processo. Seria um erro táctico, mexer com as crenças das populações nunca trouxe bons resultados para os magnatas deste tipo de obras. Até parece que vai passar pela zona urbana de Ponte de Lima, falta saber onde. Não falo da questão ambiental, porque a Humidade ainda não tem maturidade para perceber este assunto. Segundo o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, Carlos Laje, a obra vai mesmo avançar.

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Se eu me imaginar com 40 anos e voltar à minha terra natal, olhar à volta e tudo for estranho, como me irei sentir? Todas os locais onde foi mais feliz vão ser estropiados por figuras obscuras, que prometem fortunas e progresso ás mentes  menos iluminadas e influenciáveis. Será que as pessoas não percebem? Será que não param um pouco para pensar? O que é o progresso?   É podermo-nos deslocar mais facilmente? Admito que isso ajuda. Admito que a construção da linha vai dar emprego a muita gente, pelo menos temporariamente. Admito que o TGV possa incentivar a indústria a florescer em Ponte de Lima. E depois? O que resta? Vai trazer turistas? Para ver o quê? A obra mais inútil do planeta? Ponte de Lima tem de apostar em turismo rural e preservação do património ambiental, devia ser um exemplo para o país, mas não. O coração do Minho vai desaparecer. Até que ponto as pessoas serão insensíveis?

Provavelmente, as pessoas informadas e cientes do que é o progresso económico, vão-me bombardear com números e estatísticas de quanto é bom este projecto para Ponte de Lima, eu sou apenas um daqueles idealistas utópicos que ignora a dinâmica da evolução humana, que o tempo cura tudo, a evolução da economia é que mede a evolução da sociedade. Eu tenho a sensação de estar a ser demasiado sarcástico, mas tudo isto me parece humor negro. Não me venham com números e milhões de euros ou sorrisos cínicos que certamente iram ter aquando da inauguração. Falem-me da qualidade de vida das pessoas!! Falem-me daquelas que vão ter um comboio à cabeceira da cama ou que vão ter as suas casas destruídas, ás quais tem uma ligação afectiva insubstituível. Espera!…É de qualidade de vida que estamos a falar? Desculpem-me, mas eu tenho uma noção esquisita do que é viver bem. Pensava que fosse acordar de manhã e poder respirar o ar fresco desta terra, o cantar dos pássaros na Primavera que está agora a chegar, a explosão de cor, o verde…a celebração da vida. Mas eu sou estúpido, continuo aquela criança que nunca mais cresce  e continua a fugir da mãe para acompanhar a folha de carvalho que segue no leito do regato de água. Tenho de me tornar num adulto responsável e deixar-me de mariquices, agora vou ter um TGV!

As estradas que nos levam à felicidade estão esburacadas,  não são linhas de alta velocidade. E seguem sempre as curvas dos montes, não os furam com arrogância.

PS: Repararam como eu não utilizei a palavra Natu***a! É um palavrão fodido…