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Num daqueles dias em que me levantei da cama, a desejar que me estivesse a deitar, naqueles dias em que tenho a sensação que as coisas não vão correr bem, porque nuvem negra do negativismo pairava sobre mim, deparei-me com uma notícia que mudou tudo. Acidentalmente dei de caras com o cartaz cultural do Auditorio Kursaal de Donostia, nele constava um concerto da Orchestra Sinfonica di Milano “GIUSEPPE VERDI”, como precisava de descer à terra, dsc00068-11não tive dúvidas e decidi ir. A primeira coisa que reparei ao entrar no Kursaal foi a qualidade acústica do auditório, eu estava receoso, pois os bilhetes para a secção perto do palco em distância e altura custavam 25€, os restantes eram para a parte mais longe e alta e custavam 11€, as contas não eram difíceis de fazer, e à moda do bom “tuga” decidi arriscar.😀

A escolha do reportório é muito bem conseguída, confesso que fiquei um bocado desconfiado no inicio, não conhecia bem algumas das obras que iam ser tocadas, mas ao longo do concerto senti que havia um crescendo de emoções, uma lógica. Começou com Bocherinini: Cuatro versiones originales de la “Ritirata notturna di Madrid”. O lirismo italiano começa, mas de uma forma introdutória, como se fosse preparar o ouvido para o que vinha a seguir, arranjado por um compositor dos nosso tempos, Luciano Berio. Uma melodia barroca com arranjos modernos, com bom humor, acompanhada com um ritmo de marcha tocado na caixa, faz-me lembrar o Bolero de Ravel de certa forma, mas glorificando a obra com uma melodia majestosa, como se tratasse de uma homenagem a Bocherinini.

Seguiu-se Giuseppe Martucci e o Concerto para piano e orquestra nº1 em ré menor, op 40. Um compositor italiano pouco conhecido, confesso que já tinha ouvido o nome, mas não conhecia a obra, pertencia à geração de Puccini, as óperas deste compositor eclipsa de certa foma a sua obra, de carácter mais instrumental. A conclusão a que chegueidsc00067 depois de passar a tarde a ouvir algumas sinfonias e concertos para piano, é que está muito “underrated”, não sabia se me havia de espantar com a minha ignorância ou com a injustiça histórica, daí a importância de ir ver concertos com nomes que nos deixam desconfiados, ás vezes…Havia qualquer coisa na música Martucci de dramático e belo, certamente das influências de Wagner, algo que me faz interessar muito pela música dele, que certamente irei ouvir daqui para a frente. O pianista Simone Pedroni tinha uma elegância extraordinária na forma como abordava as teclas, como se fosse acarinhá-las com movimentos ondulados da mão, mas sem cair no tédio sentimental que por vezes acontece no romântico, os arpejos e dissonâncias coloriam a música, dando-lhe uma carga dramática e uma densidade que obrigavam o ouvido a concentrar-se e imagens de todo o género pairavam na alma. Era exactamente a tradução daquilo que sentia naquele dia, a música é isto, a capacidade de nos fazer ouvir a nós mesmos.

Como se este drama todo não chagasse, a seguir foi a 7ª Sinfonia de Beethoven. Em relação a este compositor extraterrestre, a espontaneidade da música, o dramatismo, a paixão, como ele dizia “Deus sussurra aos ouvidos dos homens, mas grita aos ouvidos dos compositores”, Beethoven grita nos nossos ouvidos, é uma música tão perturbadora como fascinante, o 2º andamento deixou-me colado à cadeira, aquele sentimento de imponência que se tem quando se está no alto de uma cordilheira de montanhas escarpadas, a imensidão do céu estrelado numa noite de luar, a música de Beethoven é isso tudo, há qualquer coisa ali que não consigo explicar, um amor pela vida, sentir sem pensar, apenas sentir, mais ninguém compôs com um sentimento tão arrebatador, esta orquestra consegui traduzir estas emoções, apetecia-me levantar da cadeira e dançar, não se pode estar parado a ouvir isto, é como estar indiferente a um terramoto. Não consigo dizer muito mais, simplesmente tem de se ouvir.

Foi a música certa no dia certo, com obras de compositores que escreviam com o coração nas mãos, apertando-o, esmagando-o e musicar os despojos. Não é masoquismo , apenas uma forma de viver a vida com paixão, uma forma de ouvir o que sinto, a música é o purgante ideal para estes momentos, faz-me sentir realizado, como se os meus sentimentos valessem verdadeiramente a pena, a verdadeira condição de se ser humano, sentir.