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Ao longo da minha vida, tenho-me debatido com esta dúvida, as preferências musicais e a sua origem. Durante grande parte da minha vida, associei o gosto musical à personalidade das pessoas, mas parece-me que é muito mais complicado do que isso. A primeira coisa que é preciso fazer é separar as pessoas que tocam algum instrumento e tem conhecimentos musicais, teóricos ou práticos. Não se ouve a música da mesma forma, quando se sabe o que se está a ouvir, o ouvido está treinado e disseca as melodias, avalia-se a qualidade técnica dos interpretes, percebe-se melhor a mensagem que procuram transmitir e o sentimento com que o fazem. Mais uma vez, parece-me uma abordagem muito simplista, neste caso poderia-se concluir que quem não sabe de música, não sabe ouvir e não tirará partido de toda a expressividade da arte. Eu acho que é uma meia-verdade, quando se tem a noção da qualidade dos músicos que estão em palco, durante um concerto, mas uma verdadeira noção e não algo do género “aquele tipo toca muito!”, mas perceber as técnicas que estão a ser utilizadas e a forma com estão a ser dominadas, eleva o momento de audição para outro nível. Mais do que isso, quando se tem experiência em tocar música numa banda, começa-se a ter uma percepção melhor do certos detalhes que se passam em palco, do próprio ambiente dentro da banda, da relação musical entre os elementos em palco. Começa-se a ter outra exigência na composição das músicas, progressões de acordes I-IV-V, com um bocado de produção para disfarçar a falta de ideias, começa a soar a “lixo”. Atenção,não estou a sobre-valorizar a progressão em si, muito boa música foi composta nesta base, a “Knocking On Heavens Door” do Bob Dylan é um exemplo, aliás os Blues estão assentes nesta sequência harmónica, é conhecida por “three-chords songs”, no caso do Bob Dylan, “three chords and the true”. 😀 Estou-me a referir com a falta de gosto com que esta sequência é utilizada, pois é a mais óbvia quando se procura qualquer coisa “que soe bem” num instrumento, é preciso ser-se muito bom conhecedor para utilizar e perceber as coisas mais simples, dando conteúdo e sentido à obra.

Eu já me revoltei muito com o facto de muitos músicos e bandas de grande qualidade, não terem reconhecimento por parte do grande público, parecia-me injusto, de certa forma até é. Mas é preciso perceber como funcionam as massas e a indústria que lida com essa dinâmica. Aquilo que se ouve na rádio é fabricado com o simples intento de vender, mais nada. Trata-se de um produto com uma embalagem bonita, uma Britney Spears ou um Enrique Iglesias, a sequência de SPL55111_002acordes anterior e outros clichés musicais, uns efeitos, uma batida de discoteca, processamento na voz pois eles não sabem cantar (um pequeno e insignificante detalhe), et voilá, um milhão de discos vendidos. Lá vai o zé povinho comprar o CD à Fnac ou na montra da bomba de gasolina, ver os concertos e aquele playback impecável. Eu ficava profundamente incomodado com isto, principalmente a saber que havia grandes músicos por trás daquilo tudo, neste momento que me dera ser o guitarrista da Christina Aguilera ou da Shakira😀 Existe aqui uma lógica, uma necessidade das pessoas não pensarem e consumirem facilmente, são músicas confortáveis para o ouvido, não é necessário nenhum esforço para perceber a mensagem que está a ser transmitida. Entendo que muitas pessoas não tem uma predisposição natural para entender a música e coisas como Jazz ou Beethoven soam estranhas e complexas. Nós não aprendemos a ouvir, coma aprendemos a ver, o sentido auditivo é pouco desenvolvido na maioria das pessoas, isto dificulta muito o entendimento da mensagem musical. É como só conseguir ver a preto e branco e apenas formas simples como círculos e quadrados em 2 dimensões, como é que se pode pedir a essas pessoas que comecem a ver a 3D e a cores? É preciso ouvir muita música e perceber o que está por detrás dela, o que se pretende transmitir.

Esta forma de ver a música fez-me ouvir coisas que eram impensáveis uns anos antes, tais como Elton Jonh, Damien Rice, Jeff Buckley ou Kate Bush. Sinto que sou um privilegiado neste aspecto, ouço dentro de um espectro musical muito alargado, tenho muita atenção à música e aos sons que estão à minha volta. Evidentemente que muita coisa me escapa, e preciso de algum esforço para ouvir coisas novas (e não me venham com a boca dos Porcupine Tree :P), eu não começo a ouvir uma banda de um momento para o outro, preciso de tempo para conhecer a sua obra, mas estou aberto a novas sugestões. Embora reconheça que no passado já fiz uma apreciação negative de bandas que mais tarde passei a ouvir, isso também me ensinou que na música é preciso muita humildade. Sou muito tolerante a coisas que não gosto, sou capaz de ir a discotecas e não me incomodar com a “música” que passa nesses sítios, coisa que não acontece com a maioria das outras pessoas. Isto leva-me a outro assunto, que é o equívoco em relação ao Heavy-Metal, mas isso é outra história.

Sempre me disseram que gostos não se discutem, mas essa afirmação já por si só discutível. Tirando toda a qualidade em termos de composição, não consigo explicar porque fico extasiado quando ouço a 9ª Sinfonia ou quando estou num concerto. Traduz a minha alma, se isto acontecesse ao ouvir Nel Monteiro, que podia eu dizer? Seria a mesma pessoa? Eu sinceramente acredito que sim, mas ao mesmo tempo penso que poderia ser o mesmo, excepto naLive_JoeSatriani_01 apreciação musical, poderia dar a minha atenção a outra coisa qualquer, não sei. Apesar de ser aquilo que quero debater,não consigo tirar grandes conclusões, pois há casos que comprovam e que desmentem. Em relação a gostos, já quis acreditar em tempos, que classificar o gosto de alguém em relação a algo que consideramos mau de mau gosto, era arrogância. Na realidade, algo que é feito sem conteúdo, sem aproveitar as qualidades, algo de superficial, na arte é mau gosto. Isto é o que eu penso, embora haja aqui muito espaço para argumentação, eu sei bem disso depois de todas as discussões que tive ao longo da vida, e eu não gosto de deixar as minhas discussões a cair em saco roto.

Não obstante do que disse antes, aceito o argumento que determinadas músicas tem um certo valor sentimental, fazendo-nos recordar momentos marcantes das nossas vidas, dissolvendo-se a apreciação qualitativa em sentimentos e memórias. A música é uma arte, deve expressar tudo que nos possamos sentir, precisamos de todos os estilos para traduzir a diversidade cultural da Humanidade. Mas há uns melhores que outros😀