Tags

, ,

O humor negro gera muita controvérsia. Mediante uma piada com esse cariz levanta-se de imediato um coro de virgens ofendidas. Ficam extraordinariamente chocadas com piadas sobre morte, acidentes, doenças, etc. Mas é6a00f48cf4d5d3000200fa969fe8160003-500pi necessário ter um bocado de cuidado neste ponto. É certo que são assuntos delicados, mas a meu ver é uma questão de timing. Piadas “fortes” em determinadas alturas, tendem a ser mal interpretadas. É necessária sensibilidade para com o sofrimento dos outros, para evitar ferir susceptibilidades. Esta é a opinião politicamente correcta. Agora a sério.

Certos tipos, quando ouvem piadas do género:

“Sabes porque é que não se fizeram piadas e anedotas sobre a questão do tsunami na Indonésia? – Porque era muito má onda!”

“Qual o motivo de Hitler ter se suicidado? A conta do gás”

“Numa tribo de canibais, dois índios estão a conversar, quando passa uma índia sem um braço e sem uma orelha,um deles diz- Estás a ver aquela índia ali? Ando a comê-la.”

“Por quê o super-homem não salvou as pessoas do World Trade Center? Porque não havia rampa para cadeira de rodas”

…ficarão chocados, como se quem disse a piada tem dentro de si maldade suficiente para matar alguém só para fazer Claude Serre 3uma piada com isso. É ridículo. Alguns ficam de boca aberta, um misto de espanto e repugnância, outros misturam isso com um esboço de riso, esses ao menos ainda reconheceram o cariz humorístico da piada. Que é exactamente isso mesmo, uma piada! São capazes de se rirem nos casamentos com aquelas “bocas” de circunstância, sempre a visar a noiva e a relação da cor do vestido com a sua vida sexual. Patético, mas toda a gente se ri! São sempre piadas com uma falta de gosto monumental. Para mim, essas pessoas terão de ter uma conduta moral só acessível a um qualquer desses santos canonizados pela Igreja. Digo mais, terão de tapar a boca e suicidarem-se para evitar gastar o ar que os outros possam precisar de respirar, tal é a sua rectidão. Algumas dessas pessoas tem uma conduta de vida que é verdadeiro humor negro. E sublinho, estou a falar das pessoas que se enojam com as piadas e não daquelas que não se riem simplesmente porque não acham graça, isso é outro caso. Em Portugal esse tipo de humor não é bem aceite, o humor português típico é à base de trocadilhos sexuais e piadas fáceis. Não é comum recorrer ao humor negro, o português baseia-se mais na ironia eserre sátira.

Fazer humor com assuntos complicados é o expoente máximo da comédia. Só quem não compreende isto é que se pode ofender. Associam-se sempre as pessoas que recorrem a este estilo, a alguém com remorsos pela sociedade, sem respeito pelos outros, enfim, pessoas tristes e revoltadas, é um erro pensar assim. Eu apenas me rio do cariz humorístico da cada piada, sem moralismo à mistura. Se algo tem graça, rio-me. Posso ficar ofendido com determinado tipo de piadas, mas no que toca a humor negro não é fácil ofender-me. Uma coisa é certa, é preciso ter bom gosto para fazer piadas deste género. É difícil definir esta fronteira quando se tratam de piadas sobre a morte, mas encarar aquilo que é mais difícil nas nossas vidas com uma piada, é a forma mais positiva de se viver.

Pode-se sempre argumentar demagogicamente “E se fosse com a tua mãe? O que dizias se alguém fizesse uma piada negra no seu funeral? Rias-te?” Os Monty Python fizeram-no, mas são um caso à parte. No funeral de Graham Chapman, o Jonh Cleese prestou-lhe homenagem com piadas, as pessoas riram-se e não se escandalizaram, mas era na Inglaterra. Naquele país o sentido de humor é cultivado, faz parte da cultura. O humor negro atinge o seu expoente máximo nessas paragens (Little Britain, The League Of Gentleman, Blackadder, etc). Fica aqui o vídeo desse momento:

“Graham Chapman, co-author of the Parrot Sketch, is no more. He has ceased to be. Bereft of life, he rests in peace. He’s kicked the bucket, hopped the twig, bit the dust, snuffed it, breathed his last, and gone to meet the great Head of Light Entertainment in the sky. And I guess that we’re all thinking how sad it is that a man of such talent, of such capability for kindness, of such unusual intelligence, should now so suddenly be spirited away at the age of only forty-eight, before he’d achieved many of the things of which he was capable, and before he’d had enough fun. Well, I feel that I should say: nonsense. Good riddance to him, the freeloading bastard, I hope he fries. And the reason I feel I should say this is he would never forgive me if I didn’t, if I threw — threw away this glorious opportunity to shock you all on his behalf. Anything for him but mindless good taste. I could hear him whispering in my ear last night as I was writing this. “All right, Cleese,” he was saying, “you’re very proud of being the very first person ever to say ’shit’ on British television; if this service is really for me, just for starters, I want you to become the first person ever, at a British memorial service, to say ‘fuck’ “. (Fonte)

Os cartoons que estão espalhados pelo post, são da autoria do humorista francês Claude Serre, podem ser vistos num livro com o qual eu já me ri imenso, quando tinha 15 anos e ia para a biblioteca ver estas pérolas. O livro chama-se Humor Negro e Batas Brancas.

O humor negro joga com assuntos interditos, dogmas, convenções sociais, etc. É libertador e uma manifestação de liberdade. É impossível reduzir a liberdade do humor, não pode ter fronteiras, é o risco de passar a fronteira que faz a piada, principalmente se o fizermos com nós mesmos.

cego secador

A vida em quatro garrafas….

20090330-201116-1

saludo

Referencias:

http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/H/humor_negro.htm

http://opequenomundo.blogspot.com/2008/03/cartoon-humor-negro.html

http://colacomgelo.com