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Hoje dei uma volta por San Sebastian e constatei algo, que aliás já tinha reparado antes, mas hoje não sei porquê fez-me mais impressão, os pedintes na rua. Não estou a falar daqueles com aquele aspecto que imaginamos quando pensamos numa pessoa nessa situação, estes tinham um aspecto, vá lá, mais “limpo”. Podia ser uma pessoa qualquer que se sentava na soleira de um prédio para descansar, mas não, no chão, à frente dos pés tinham uma folham de papel dobrada em triângulo escrita dos dois lados com a frase: “Necesito de ayuda“. Nos olhos via-se um desgosto enorme, a cabeça segurada por uma das mãos enquanto a outra estava apoiada no joelho, mostrava o cansaço da espera por essa ayuda que não lhes chega. Eu não fazer aqui conjunturas de como a crise veio fazer com que muitas pessoas ficassem sem trabalho, numa idade que lhes retira quaisquer perspectivas de futuro, porque eram pessoas de meia-idade, bem vestidas. Não intelectualizei com a situação, como costumo fazer, por brevíssimos momentos partilhei aquela angústia, não lhe irá fazer diferença nenhuma, não contribuo nada para melhorar a situação dele, foi involuntário. É um enorme atrevimento da minha parte, pensar que posso sentir o mesmo que eles sentem. Eu, que tenho muitas oportunidades na vida. Deixei ficar 50 cêntimos no moedeiro de um deles e segui. Não gosto de dar dinheiro assim, sinto que só estou a prolongar o sofrimento das pessoas, já é a terceira vez que dou dinheiro em 3 dias. Não gosto de o fazer.

Eu faço parte dessa sociedade que os pisa. Esta minha sensibilidade momentânea é o rosto mais cruel dessa máquina que nos faz felizes em doses clínicas, o suficiente para nos entorpecer e continuar na engrenagem. Que nos faz ter pena, detesto esta palavra, compaixão será melhor, mas também não serve. Não faço mais do que isto. Não é bonito dizê-lo. Mas não tenho qualquer autoridade moral para dizer outra coisa. Poucos de nós terão. E os que têm não dizem nada, apenas fazem pelos outros. É inevitável? Poderemos fazer mais alguma coisa, para além de chorar a inércia da nossa natureza? Não se vislumbra um futuro melhor. Será preciso assistir à miséria dos outros na primeira fila, para dar valor ao que tenho? E o sentimento de culpa? Vinha com o saco na mão com quase 5o€ em duas t-shirts e umas calças, bem que podia ter evitado comprá-las, bastava não variar tanto na roupa, andava com o mesmo, eles também andam. A minha motivação para comprar essa roupa é cruelmente supérflua. Este sentimento de culpa dividida é o analgésico que nos impede de sentir a dor da revolta. Mas isto passa já, é num instantinho.