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Certos livros que eu já li inquietam-me. São palavras que não me parecem mais do que uma introspecção da minha parte. Eu não gosto de ler essas coisas, é como se estivessem a escarafunchar na minha própria alma. O meu próprio ser, anónimo, escarrapachado numa edição com 10 000 exemplares para que toda a gente veja e julgue. Livros com os quais me identifico, poemas que descrevem precisamente o que sinto, mais do que isso, despertam em mim sentimentos, alertam-me os sentidos sem eu mexer um único músculo, apenas leio.

A vulgaridade do meu ser, escrutinada muito antes de qualquer rasto da minha existência, muito antes de eu nascer, alguém se lembrou de como eu sou.

Eu queria ser original, um escritor talentoso que mostrasse ao mundo uma alma que ninguém tivesse imaginado antes. Correria o sério risco de ser um proscrito, um eremita, pessoas diferentes têm tratamentos diferentes, se calhar é a coragem que falta e não a originalidade. Isso sim, é poder.

E este é maior deles todos….

“Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.” Alberto Caeiro.