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Um amigo de longa data, um músico, propôs-me um interessante tema para um post. O que é ser-se músico. É algo em que penso bastante. Embora já tivesse abordado o assunto, não sei como ainda não tinha escrito exclusivamente sobre isto, pois se há algo que me interessa , é música. Então eu proponho a minha definição.

Para mim é claro quando alguém é músico ou não. Pode-se cair na tentação de afirmar que é algo subjectivo, dependente do gosto pessoal. Tocarem as músicas das quais se gosta, por exemplo. Na música é difícil apreciar certas subtilezas para quem é leigo. Não é como teatro ou cinema, artes para as quais temos mais sensibilidade, dada a nossa familiaridade com gestos e diálogos entre humanos. Poder contornar essa insensibilidade e transmitir emoções, criar imagens, levar as pessoas para outros lugares é a arte em si. Mas é difícil, vejamos o caso da 9ª Sinfonia de Beethoven, toda a gente conhece o 4º andamento, o Hino à Alegria. Qualquer pessoa que não tenha graves problemas auditivos consegue percepcionar o que a música quer transmitir. O Beethoven, mais do que um músico, era um génio, e isso faz toda a diferença. Como os outros grandes compositores, consegue ler o “cérebro musical” que cada um de nós possui, mais ou menos desenvolvido. A música dele atinge directamente o coração, sem margem para discutir gostos, é um sentimento claro. Essa compreensão é para mim a maior virtude que um músico pode ter. Não é o ouvido, técnica, sentido rítmico, é perceber a lógica da musica, o efeito dela no ser humano, evidentemente que não se tem esta virtude sem se ter as primeiras que referi. Claro que não se exige essa compreensão aos músicos “normais”, só aparecem assim uns de vez em quando. Há mais de um século que não aparece nenhum. Claro que eu não estou a afirmar que o Hendrix ou os Beatles não atingiram o coração das pessoas, era uma barbaridade afirmá-lo. Eles compreenderam muito bem como se exprimir musicalmente. Os exemplos dos clássicos é só para exemplificar até que ponto se pode ser músico. São casos extremos de genialidade.

O grande público aprecia mais o showoff, guitarristas a tocar com os dentes, tocar com a guitarra por detrás das costas , grandes solos de bateria que façam muito barulho, etc. Isso afecta o julgamento correcto da qualidade do musico, mas aqui surge também a qualidade do ouvinte. A maioria da audiência não sabe fazer um julgamento correcto daquilo que é um verdadeiro músico. Como disse acima, o gosto pessoal influencia a opinião, não conseguem ser completamente isentos. Um exemplo muito familiar disso são os músicos que tocam em bandas de baile. Quem ouve tocar música pimba, apenas ouve isso, o pimba. Não percebem os arranjos que certos baixistas, por exemplo, fazem durante os concertos, muitas vezes por improviso. Com isto quero apenas frisar duas coisas, não é subjectiva a qualidade de músico e é preciso ter algumas noções para avaliar a qualidade do mesmos. Também existe aqui o perigo real, e acontece muitas vezes

Existe espaço para o gosto pessoal influenciar a qualidade de um musico, tenho de admitir isso. O Bob Dylon fazia musicas com 3 acordes e disse muita coisa a um geração. Os Beatles têm coisas simplicíssimas e foram dos músicos mais marcantes do século XX.

Quando é que alguém se torna músico? Para mim, é quando se alhear das harmonia, do ritmo e da técnica e pensar apenas no sentimento que vai causar naquilo que interpreta ou compõe,de uma forma natural, sem pensar muito. Apenas sentir. Mas para chegar a esse patamar é preciso muito e muito trabalho. No meio disso tudo é-me difícil dizer onde é que o talento. É um cliché habitual dizer que se alguém não tem talento nunca chegará a músico, mas como a humanidade já se fartou de provar é possível superarmo-nos as nós mesmos e conseguir. A força de vontade leva a que essas barreiras sejam superadas. O Steve Vai dizia que aquilo que ele é como músico é 99% de trabalho e 1% de génio. eu percebo que há composições que só podiam sair da cabeça de alguém com uma aptidão inata. Sinceramente não sei de isso virá. Se a começar desde 0s 2 anos de idade a aprender música, dentro de um seio familiar de músicos ou de uma configuração anormal do cérebro, percepcionando coisas que escapam ao ouvido normal. Em relação ao ouvido, muita gente não ou não acredita, mas é possível ter-se um ouvido perfeito com o treino certo. Ouvido perfeito é a capacidade de reconhecer as notas musicais tal como se distinguem as cores, ouve-se um dó e sabe-se que nota é tal como se olha para  o lenço do José Castelo Branco e sabe-se que é cor-de-rosa.

É pertinente também fazer a distinção entre os músicos que são interpretes e aqueles que são compositores. Muitos são as duas coisas. Mas uma coisa não implica a outra. Não é necessário ser-se exímio tecnicamente num determinado instrumento para compor obras para o mesmo, mas terá de se ter um conhecimento profundo das suas características e possibilidades. Mas é natural grandes compositores para um determinado instrumento sejam excepcionais executantes do mesmo, o caso do violinista italiano Paganini, ou o guitarrista Joe Satriani.

Eu penso que ser músico é transmitir aquilo que se pretende através de música. Compreender a linguagem, e estar completamente imerso na arte. Ir no elevador e o Tim-Tom da porta a abrir e soar a música. Dedicar a vida à arte, o sacrifício máximo. Neste momento, embora a definição não seja universalmente correcta, pessoalmente considero certas pessoas que conheci ao longo da vida, sem qualquer conhecimento musical, como músicos, embora não lhe dediquem a vida, mas percebem a música e são capazes de pegar num instrumento e captar a essência de uma canção, mesmo que toquem mal, sabem aquilo que estão a ouvir.

O que me entristece mais nisto tudo, é que eu gostava de ter sido músico, e não sou. Esta é a minha interpretação da essência de um músico. A música é para mim como o Espanhol, compreendo a língua, mas não a falo e as pessoas não me entendem. Em jeito de conclusão, ser-se músico é acima de tudo um privilégio, só se o é por conquista pessoal.