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É possível consultar online o impacte ambiental (é mesmo esta a palavra, é mais adequado impacte ambiental do que impacto, pois significa “efeito forte provocado por algo ou alguém” Dicionário da Língua Portuguesa 2006) que da linha do TGV entre o Porto e Vigo, mas concretamente do troço Braga-Valença. Trata-se de um resumo não técnico numa linguagem acessível e sem termos técnicos indecifráveis.

A primeira coisa com que me deparo em com a justificação do projecto, os seus benefícios e como os mesmos supostamente deveriam cobrir qualquer prejuízo que o TGV traga.

“O Projecto contribuirá para promover a criação de um sistema de transportes eficiente que servirá a população com mais rapidez, mais qualidade e maior segurança, contribuindo para alcançar um maior equilíbrio entre modos de transporte, ao longo do eixo de maior densidade populacional do País e nas deslocações internacionais, contribuindo significativamente para a redução dos tempos de percurso, da sinistralidade, da redução das emissões de gases com efeito de estufa. Estes efeitos positivos devem-se,
sobretudo, à transferência de passageiros do modo rodoviário e, em menor escala, do modo aéreo, para o modo ferroviário.”

Entre Porto e Valença o tempo de percurso estimado pela auto-estrada é de 1:40, passa a ser de uma hora.  Ganha-se 40 minutos.  Não tem o preço dos bilhetes , não sei se compensará em relação ao preço do combustível.  Circulam rumores que vão ser muito caros. Diminui-se a sinistralidade. É um facto inegável. Isto no caso daquele número impressionante de pessoas que circulam do Porto para Valença utilizar o TGV.  Parece que em 2029 vão ser 3.7 milhões por ano…Tenho duas coisas a dizer em relação a isto, se alguém me esclarecer, agradeço.

  1. Redução das emissões de gases com efeito de estufa; mal será da Humanidade, se em 2030 ou qualquer coisa assim os carros continuarem a ser poluentes como são hoje. Sinceramente penso que não o serão, caso contrário estaremos muito mal nessa altura. Tudo indica que os carros até nem irão ser poluentes. Logo o TGV perde já uma das suas utilidades.
  2. Segundo o relatório de contas de 2008, da BRISA,  (sim, dei-me ao trabalho de ler algumas coisas), a A3 (auto-estrada que liga Porto a Valença) teve uma perda de tráfego entre 5% e 6%. Com o TGV esta perda certamente se agravará muito, ou então o TGV não servirá para nada. Por outro lado,  beneficiando o TGV perde a A3 e tornar-se-á uma extravagância em vez de uma utilidade pública. Juntar-se-ão  esses kilómetros aos 690 que temos a mais em auto-estradas.

Esta questões são apenas uma gota no oceano das dúvidas que tal obra traz. Espero que as pessoas que realmente sabem destas coisas esmiúcem bem estes planos faraónicos. Depois aparece esta pérola.

“A inserção na paisagem de uma infra-estrutura contínua resulta na ocorrência de impactes visuais, cuja magnitude está dependente das características biofísicas e paisagísticas do espaço atravessado , assim como da capacidade do meio para integrar este novo elemento.”

Dependente de características bio bla bla bla…?!! É um puto de um TGV a passar ao lado de 50 auto-estradas! É mais relevante discutir qual é o impacte que a paisagem tem no TGV do que o contrário, porque vai sobrar pouco. Este ponto nem sequer é discutível. Visualmente é o degredo, aquilo que é a paisagem minhota por excelência, Ponte de Lima, vai ser mais uma vez ferida com gravidade.

Nós devemos ser o único país do mundo que consegue justificar obras desta envergadura com meia dúzia de números que ninguém tem a certeza. Este é daquele tipo de coisas onde tem de haver consenso. A mim ainda não me conseguiram convencer. Querem ligar Portugal ao resto da Europa através destas obras. Lamento que pensem assim. Este país é governado pelo betão, essa é a medida da chamada “evolução”. Uma coisa é certa, Portugal continuará longe da Europa naquilo que é mais importante, na mentalidade. Na evolução do pensamento de um povo, com números inaceitáveis de iliteracia, abandono escolar e corrupção. E de mesquinhez, inveja e xico-espertismo, já agora.

Não me venham dizer que é com o TGV que resolvem estes problemas profundos. Isto já vêm desde há muito. Já o Eça falava nisto. Muita obra se tem feito e continuamos burros. Espero que me convençam do contrário, pois sei que a obra vai avançar, como sempre acontece quando acenam com o dinheiro para as construtoras.