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Tenho-me abstido de falar sobre o assunto, mas para ser coerente com o histórico deste blog, tenho de falar dos últimos desenvolvimentos no “caso TGV”. Foi-nos dito que a construção desta obra é a resposta à crise.

É extraordinária esta dança de argumentos. O maior deles todos, utilizado pelo governo e que os apoiantes aplaudem, aquele que que justifica o gasto de “não-sei-quantos” milhões de euros, é que o TGV nos ligaria ao resto da Europa. É falso. É só até Madrid.  “Sem ter a certeza absoluta, em 2013, a RAVE espera que exista uma ligação de Madrid para a Europa..” (artigo). RAVE , o pessoal responsável pela rede de alta-velocidade tem dúvidas. Mais coisas que a RAVE diz:

1. Não há ligação, através de linhas de bitola europeia, aos portos de Sines e Setúbal;

2. Não se justifica uma linha convencional de mercadorias para cargas de 25 Ton/eixo, Évora-Badajoz, ao lado de uma linha mista (passageiros e mercadorias), também para 25 Ton/eixo. Este erro vai aumentar os custos em 30%. No sector ferroviário ninguém entende esta decisão.

3. A nova linha Lisboa – Porto só para passageiros não permitirá a circulação dos contentores, em bitola europeia, no eixo Norte-sul e saída para a UE através de Vilar-Formoso-Salamanca-França

Teria o governo o mesmo apoio, caso assumissem isto de início?

Para ser intelectualmente honesto, tenho de dizer que apesar da ligação entre Madrid e o resto da Europa ainda não estar prevista, é algo de que se fala. Seja lá como for, o argumento da ligação à Europa está muito enfraquecido.

O TGV não está projectado para o transporte de mercadorias. Sobre isto, quem está por dentro deste assunto critica duramente. Um erro estratégico grave. Ver o Jornal de Economia e Políticas de Transportes, e o programa da RTP, Radar de Negócios.

Existem estudos que provam os benefícios, juram a pés juntos. Existem muitos economistas, e pessoas ligadas aos transportes, que não concordam com esta obra. Isto vai custar muito dinheiro. Fazer isto sem consenso não faz sentido, é uma irresponsabilidade e a continuidade da política do betão. E não me venham com as acusações de “velhos do restelo”, “com tipos assim as caravelas nunca tinham saído de Portugal” bla bla bla. É um argumento que nem merece sequer consideração. É a mesma coisa que dizer “vamos fazer uma coisa que ninguém sabe o que vai dar”. Trata-se de “envenenar” a discussão. Isto tem de ser debatido olhando para as vantagens que irá trazer à sociedade portuguesa. E por favor, sem politizar. Já chega de transformar discussões importantes para o país, em bandeiras de campanha. Não façam de nós palhaços.

Nós gostamos de coisas que “encham o olho”, das aparências, das coisas feitas em grande sejam lá quais forem as consequências. Estas grandes obras são perfeitas para alimentar essa  patética característica, que toma foram com os endividamentos das famílias para comprar grandes carros e bajularem-se com eles, férias numa ilha qualquer, casas com grandes jardins e piscina. Finalmente o TGV, tudo isto em formato nacional.

Expresso da Meia-Noite, onde se discute o TGV.

Cartoon de Rodrigo, no Capital de Risco.