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Há 10 anos atrás, por esta altura discutia-se se o mundo ia acabar, se as empresas iam à falência porque o sistema informático ia “crashar” por causa da mudança no calendário, e a minha preferida de todas: afinal só em 31 de Dezembro de 2000 é que acabava o milénio. 10 anos volvidos e continuamos ignorantes. A ter exactamente a mesma discussão.

Ninguém discute que realmente entre 1 de Janeiro de 2000 e 1 de Janeiro de 2010 decorrerem 10 anos. Ou seja, uma década. No entanto está-se a ignorar um facto, para isso é necessário recuar quase 2010 anos atrás, na altura de Jesus Cristo.

O primeiro dia do nosso calendário foi o 1 de Janeiro do ano 1 D.C. Ou seja, ao contrário do que geralmente se pensa, onde o calendário começou a contar no dia 1 de Janeiro do ano 0 (zero) D.C. No 31 de Dezembro do ano 1, estava completo o primeiro ano do nosso calendário. Pela mesma ordem de ideias, o segundo ano ficou completo a 31 de Dezembro do ano 2. Seguindo para a frente na linha temporal, usando este raciocínio, a primeira década ficará completa a 31 de Dezembro do ano 10 D.C.

É esta a diferença entre começar no 0 ou no 1 que faz com que tenhamos de adiar as festas de fim de década uma ano à frente. A minha pesquisa sobre o assunto levou-me a um nome: Dionysius Exiguus. Foi um monge que viveu no século VI, e que criou o Anno Domini, o Ano do Senhor, do nascimento de Cristo, e que serve de referência para a contagem dos anos para a frente e para trás (A.C.), marca o início da Era Cristã, ou Era Comum para não ferir susceptibilidades (andam um bocado feridas). Dionysius achava que o sistema usado até então, baseado na fundação da cidade de Roma, era demasiado “pagão”. Sendo católico, decidiu que a referência devia ser Cristo. Este sistema de contagem foi adoptado pelo Ocidente, embora haja outros sistemas. Em países como a China ou Israel utiliza-se uma contagem diferente.

O Anno Domini corresponde ao ano I, e não ao zero. Foi este o sistema adoptado, pode não ser muito intuitivo, mas é mesmo assim. O mesmo se aplicou aquando da passagem de milénio em 31 de Dezembro de 2000, e não de 1999. A título de curiosidade, segundo o Wiki, Portugal foi o último país cristão a adoptar este sistema. Fosse isto a ver com futebol ou auto-estradas, a ver se era o último!

Carinthia cathedral, Austria. (from Wiki)

O calendário gregoriano adoptado por nós, utiliza o Anno Domini como inicio. No entanto a ausência do zero causa confusão. Este facto acontece porque não existia o zero na numeração romana na altura de Dionysius, o zero oriundo do árabe foi introduzido mais tarde na Europa. Este sistema traz problemas um bocado “parvos”, por assim dizer. Considere-se a seguinte sucessão de anos, segundo o Calendário Gregoriano sem zero.

04 A.C.
03 A.C.
02 A.C.
01 A.C.

01 D.C.
02 D.C.
03 D.C.
04 D.C.

Imagine-se alguém que nasça a 3 de Maio de 2 A.C. Quantos anos faria a 3 de Maio 2 D.C.? Segundo este calendário teria 3. Não faz sentido. De 2 A.C. a 1 A.C. faz um ano, de 1 A.C. a 1 D.C. faz 2 anos, e de 1 A.C. a 2 D.C. faz três anos. Ou seja, considerando o 2 A.C. como -2 para uniformizar as contas, a idade do cão seria 2-(-2)=4, o que está errado, pois esta pessoa têm 3 anos. Os astrónomos trataram de resolver este problema, com a óbvia introdução do zero. Assim o ano 1 A.C. passa a ser o “ano zero”, o ano 2 A.C. passa a -1 A.C. Por outro lado, o ano 1 D.C. corresponde ao +1 D.C., tal como se esperava. Fazendo as contas, sabendo que agora após a conversão, a data de nascimento da pessoa é 3 de Maio de -1 A.C., a sua idade a 3 de Maio de 2 D.C. será de 2-(-1)=3. A idade correcta de 3 anos e não 4.

Posto isto, dizer que a década acaba a 31 de Dezembro de 2009, não está errado. Tal como não estava errado dizer que o segundo milénio começava a 1 de Janeiro de 2000. A verdade é que nós adoptamos o Calendário Gregoriano a começar no Anno Domini, 1 D.C., e por esse facto, sem haver zero, adiem a festa paro o ano que vêm. Em relação ás pessoas que tem de fazer contas com as datas, essas precisam de números exactos, e a ausência do zero não ajuda.

Eu sei que psicologicamente muda-se de década, porque aparece no calendário, é visível. Tudo o resto são formalismos, aquelas coisas que não interessam a ninguém. Tinha muita mais piada fazer a festa da passagem de milénio no dia 31 de Dezembro de 1999, do que em 31 de Dezembro de 2000. Nessa altura já estaríamos fartos de ver o ano 200o nos calendários e não seria a mesma coisa. Acho incrível é como os serviços noticiosos continuam a ignorar este facto, e insistem em fazer reviews da década a tida a hora. Convinha especificar era que se trata da década de 2000-2009 e não da década “oficial”.

Mais informações interessantes sobre o assunto:

Calenders and their history“, by L. E. Doggett. (link)

Millennium Start = 2000 or 2001? A Dissenting “Either-Or” View“, by John R. Beattie. (link)

O livro “Anno Domini: the origins of the Christian era” de Georges Declercq.

ps: Agradeço que me corrijam qualquer erro em termos de veracidade histórica.