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Antes de mais, este post não sobre ficção-científica. Tratam-se de assuntos que agora não têm impacto (quase), mas que num futuro próximo são da maior importância, pois estão relacionados com questões éticas que nos afectam a todos. Há 20 ou 30 anos era uma coisa mais própria do cinema e dos livros do A.C. Clarke, mas cada vez é mais relevante. E como o escritor disse, “A tecnologia avançada, é indistinguível da magia”

Se recuarmos no passado, uns 200.000 anos, verificamos que a Humanidade evoluiu muito lentamente desde o seu aparecimento em África, os instrumentos utilizados na altura mantiveram-se relativamente primitivos, e foi apenas há 10.000 anos que o Homem descobriu a agricultura, a domesticação de animais, criando assim sociedades estáveis [6].

A partir daí, a criação de tecnologias que permitiram ao Homem viver com mais qualidade e mais tempo, foi cada vez mais rápida. A Revolução Industrial começou a abrir o caminho da produção em massa, e a investigação científica foi dispondo de instrumentos cada vez mais capazes, descobrindo curas para as doenças, e armas capazes de dizimar um país inteiro.

Chegados a este ponto, algumas perguntas se impõem. Até onde este progresso vai chegar? Há limites?

Pensando nisto, mais concretamente sobre o futuro do hardware, em 1965 o o então presidente da Intel, Gordon E. Moore calculou que o número de transístores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses. Esta previsão ficou conhecida como Lei de Moore. No gráfico em baixo, pode-se constatar a evolução exponencial em performance e número de transístores dos processadores.

A partir desta lei, futuristas como Marvin L. Minsky, acreditam que o desenvolvimento descrito pela Lei de Moore, chegará a um limite denominado de Singularidade Tecnológica, um ponto onde o desenvolvimento é instantâneo. A partir daqui todo tipo de especulações pode ser feito. Surgem termos com o Tecnocalipse, ou seja, um Apocalipse tecnológico, uma coisa mais digno do Terminator II do que da ciência. No meio destes profetas do desastre, há teóricos como o Minsky que prevê a fusão entre homem e máquina lá para meados deste século. Parece algo de extraordinário, mas se pensarmos na evolução a que temos assistido neste últimos anos, a inteligência das máquinas poderá superar largamente a nossa em todos os domínios.

Outro gráfico interessante, tirado do maravilhoso livro do Carl Sagan – um cientista e excelente comunicador, uma pessoa que admiro muito e o professor que todos nós gostaríamos de ter -, Os Dragões do Eden, que mostra de uma maneira bastante elucidativa, as datas dos vários acontecimentos relevantes que aconteceram ao longo da história do Cosmos, sob a forma de um calendário cósmico.

Analisando o calendário, vemos que se o se Universo formou-se ás 00:00 no dia 1 de Janeiro, o homem moderno apenas apareceu ás 23:54 do dia 31 de Dezembro. Esta comparação dá-nos bem a ideia de como as coisas têm evoluído no tempo.

No vídeo abaixo, Ray Kurzweil – um inventor, futurista e uma pessoa fascinante, o mesmo que inventou os famosos sintetizadores , que são usados pelo Jordan Rudess dos Dream Theater – fala da perspectiva da Singularidade.

Tal como Minsky, Kurzwiel também acredita estes tipos, por mais incrível que seja o que eles dizem, não podem ser confundidos com profetas de rua, empunhando a Bíblia, a proclamar o fim do mundo. Acho que se deve levar a sério a questão da evolução tecnológica e as suas consequências. Kurzwiel também defende que o homem se irá tornar uno com as máquinas. A capacidade e dimensão dos computadores têm vindo a sofrer alterações dramáticas em pouco tempo, quando dantes necessitava de um edifício inteiro, actualmente, um computador cabe no bolso, e futuro próximo caberá dentro de uma célula. Os computadores entenderem música, o discurso humano, fazerem diagnósticos médicos, terem personalidade jurídica como dizia um professor meu, tudo isto isto são passos para a Singularidade. Ele dá um exemplo muito bom, imaginem a vida sem motores de busca como o Google. Foi apenas há cerca de 10 anos atrás que se começou a tornar uma prática comum. O passo fundamental será dotar os computadores de inteligência humana.

Estes avanços na ciência levam a um conceito extraordinário, o Transumanismo. Trata-se de uma filosofia emergente que analisa e incentiva o uso da ciência e da tecnologia, especialmente da bio-tecnologia, da neuro-tecnologia e da nano-tecnologia, para superar as limitações humanas, e assim, poder melhorar a própria condição humana [7]. O video abaixo contém uma explicação interessante e sóbria sobre o assunto.

Eu utilizei a palavra sobriedade, porque é muito fácil cair em devaneios num assunto destes. Já fomos confrontados com muitos tabus, a Terra não é plana, não é o centro do universo, que descendemos de primatas, e esta ainda não está bem digerida, e agora defrontam-nos com o mais dramático, podemos não ser o último passo da evolução. O transumanismo pode ser esse passo. Este movimento defende a supressão da dor, sofrimento, doença e morte.

A imortalidade seria uma catástrofe, não consigo ver as coisas de outra maneira. Teria de haver um controlo feroz da natalidade, e possivelmente ter-se-ia de de avaliar as pessoas que deveriam continuar a viver, segundo determinados critérios, a utilidade dessa pessoas para a sociedade, por exemplo. Mas isto até nem é o pior. O próprio principio em si é abominável. A efemeridade da vida é que a torna maravilhosa, a dor é que valoriza os momentos de prazer, sem isto, não nos sobra nada. Seriam seres cinzentos, insalubres e inócuos.

E o Amor? E se com essa tecnologia fosse possível manipular os processo químicos que nos levam a amar? Ás vezes dava-me jeito, mas isto dava poder absoluto a quem pudesse controlar os sentimentos de outra pessoa. Se calhar até nem era necessário, bastava controlar a mente através de implantes que eram comandados à distância.

Aqui surge a velha disputa entre aqueles que defendem a descoberta sem limites nem barreiras, e os que defendem que não se deve alterar o estado “natural” das coisas. Por um lado temos a possibilidade de curar imensas doenças, de acabar com elas até, de nos tornar mais felizes, estimulando o nosso cérebro, do outro lado temos o poder que um estado, por exemplo, poderia exercer sobre as pessoas. Como é que se pode resolver este conflito? As consequências podem ser gravíssimas. Era praticamente tornar o Matrix numa realidade. E o Matrix, poderá ser uma realidade. Com os tais implantes no cérebro, as experiências de realidade virtual poderão ser elevadas a outro nível, acima da realidade. Poderia-se ter experiências sexuais mirabolantes com actrizes porno, voar, ser um gladiador no Coliseu de Roma, mas estas eram as coisas boas.

Se houvesse pessoas que se começassem a melhorar as suas capacidades, acelerar a sua inteligência e capacidade física, haveria uma diferença enorme entre as pessoas “normais” e os transumanos. Houve um tipo no passado que tinha estas ideias, chamava-se Hitler…

Ray Kurzweil fala com mais detalhe sobre esta evolução no conhecido TED Conference.

Intriga-me a visão dos orientais sobre a evolução tecnológica, encaram isso com toda a naturalidade, o próprio Dalai Lama disse que encarnaria numa máquina se esta tivesse capacidade para isso. O Islão era a Meca da ciência e da sabedoria, enquanto a Europa mergulhava em obscurantismo. No entanto, o mundo árabe fechou-se na sua religião, e chegou ao ponto que nós sabemos. A discussão entre ciência e religião, no futuro tecnológico que tenho estado a especular, vai estar ao rubro. E espero que haja mesmo discussão. E séria. Que não venham com as habituais acusações de “velhos do restelo” àqueles que questionam a direcção que estamos a tomar. Também não poder ser uma “caça ás bruxas”. Penso que o grande salto evolucional será elevar a discussão a um patamar elevado.

Eu ponho a questão da seguinte maneira, estamos cada vez mais inteligentes, com melhores condições para ter uma boa qualidade de vida, mais longevidade, mas somos mais felizes? Tudo indica que a sociedade é cada vez mais deprimida, mais triste, mais só, mais desigual, mais desumana, mais artificial. Mas nós continuamos a inventar coisas novas. Cada uma substitui a anterior, cartazes e anúncios com sorrisos teatralizados com a promessa de uma vida melhor. Somos inundados todos os dias com publicidade a um admirável mundo novo, em que está tudo feito por nós. Apenas temos de nos sentar et voilá. Coisas cada vez mais pequeninas, cabem no bolsinho pequenino das calças, não ocupa espaço nenhum, e não tens de pensar. Está tudo feito por ti. Acima de tudo, deixa de pensar. Compra o que nós fizemos por ti. Tudo o que tu tens foi reduzido à escala microscópica, para que não embaraces os outros. Reduzimos-te a nada, a zero. Não tens como competir com os nosso cérebros brilhantes, que não dispersam o seu brilhantismo com questões acessórias, apenas calculam. É inevitável. Nem sequer penses nisso. Achas que vives melhor sem as comodidades que te oferecemos? Só tens de escolher a tua marca, a tua tribo, a identidade que criamos para ti. Bebe Coca-Cola, veste Armani, vê na Sony, Grundig, Philips, calça Nike, Reebok, é só escolher, os panfletos espalhados pelo chão dizem tudo, os mails, a televisão, os placares gigantes à entrada das cidades, as paragens de autocarros, as vitrinas das lojas, Modelo, Continente , Feira-Nova, AKI, promoções, descontos, cartões, filas de espera, filas de trânsito, ToysRus, regresso ás aulas, mais descontos, percentagens, números, Jumbo, Mini-Preço, IKEA, super-hiper-mega-mercados, cartões de crédito, Visa, Mastercard, Caixa, bancos, crédito, dinheiro, tão fácil comprar! Gente inteligente compra aqui! Escolhe, escolhe! Worten, Vobis, perfumes, Microsoft, Logitech, tudo branco, cantos arredondados, aquela marca que simboliza o Iluminismo dos tempos modernos, tudo a branco, como os hospícios, acalma as mentes perturbadas, branco e simples, iPod, IPhone, Itouch, ITunes, IWork, IPad, ILife, ai de ti que não tenhas um! És um ultrapassado, pertences a uma raça inferior de humanos. Não és mais feliz assim?! Não passas de um mal-agradecido. Vai viver para uma caverna, é isso que queres? Não tens como fugir, é inevitável.

Este último capítulo é apenas um pequeno desabafo, fujo um bocado ao assunto, são coisas que me passam pela cabeça quando deambulo por um desses 70 shoppings perto de si. Eu também faço parte da máquina. A tal que nos levará a aceitar as coisas de que falei. Também me alimenta e adormece os sentidos. É isso de que me mais me assusta. Não somos livres, e cada vez menos.

A humanidade é apenas uma criança a brincar com armas. Não temos maturidade para lidar com a nossa própria inteligência. A História tem-nos dado grandes lições, e nós não as aprendemos. O que é que nós pretendemos, alta-tecnologia a todo o custo, ou verdadeira felicidade?

Referências

[1] “What is the Singularity?”, Jonh Smart, 2001 (link)

[2] “How Long Before Superintelligence?”, Nick Bostrom, 1997 (link)

[3] “Will Robots Inherit the Earth?”, Marvin L. Minsky, 1994 (link)

[4] “Singularities and Nightmares: Extremes of Optimism and Pessimism About the Human Future”, David Brin, 2005 (link)

[5] “Examining the Society of Mind”, Push Singh, 2003 (link)

[6] “Human”, Wikipedia, (link)

[7] “Transhumanism”, Wikipedia (link)

[8] “Moore’s Law”, Wikipedia, (link)