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Depois do Haiti, é da Madeira que chegam imagens de pessoas a sofrer. Pessoas que perderam as suas casas e familiares. Ontem vi uma senhora a cambalear desesperada e a gritar pela filha que tinha desaparecido nas águas. Como é que eu sei disso? Porque alguém lhe disparou uma câmara para a cara da senhora. Eu não tinha o direito de ver algo tão íntimo de uma pessoa, como o desespero pela perda de uma filha, e quem manejava a câmara não tinha o direito de o mostrar.

Não são precisas reportagens que inundam os telejornais de descrições dantescas com palavras banais e expressões que não fazem sentido,  dramatizando aquilo que só por si é suficientemente mau, mostrar as reportagens das televisões dos outros países, mostrando o miserabilismo que nos é característico. São perfeitamente ridículas aquelas imagens de carros amontoados no meio do entulho, acompanhadas por uma música lamechas.  Vi jornalistas quase a entalarem-se com as palavras trágicas, umas a seguir ás outras, a fazerem a mesma pergunta idiota de sempre “O que é que sentiu quando viu a sua casa a desmoronar-se?” . É uma falta de respeito pelo sofrimento que as pessoas estão a passar. Não sei se me segurava se algum familiar meu tivesse morrido e me fizessem perguntas dessas com a câmara apontada à cara.

Qual é o objectivo de tal voyerismo? Porque é disto que se trata. Não é preciso este espectáculo para noticiar o acontecimento. Sensibilizar as pessoas ou choca-las? É preciso isto para activar a solidariedade que eu acredito que lá no fundo, em situações  como estas, é um sentimento que surge com a nobreza que somos capazes de sentir, na condição de seres humanos.

Congratulo as pessoas que se disponibilizaram a ajudar, e aquelas que pelos cargos que ocupam deram a mensagem certa, mesmo que não concorde com a maioria das coisas que dizem, mas desta vez o sr. Alberto João disse a coisa certa “Não vamos dramatizar, vamos reconstruir”. É um líder populista, mas é um líder.