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O ateísmo surge nos nossos tempos, como uma espécie de Inquisição intelectual. A discussão sobre religião, faz algumas pessoas inteligentes perderem uma boa parte do seu QI. Encerra paixões e ódios que ofuscam um raciocínio sereno e sensato. Ao longo da minha vida já discuti este assunto com muita gente, dentro dos limites do meu conhecimento, clarividência, maturidade e abertura de espírito. Tive uma educação católica, que me marcou e não posso negligenciar este facto. Não porque a minha cabeça foi formatada, ou me levaram para uma sala escura e me bateram até eu jurar que vi lágrimas verdadeiras a sair pelos olhos de uma qualquer estatueta. Eu fui marcado por pessoas. Mais do que qualquer ideologia, a personalidade forte, convicções inabaláveis e uma profunda humanidade de cristãos e ateus, que tive o privilégio de conhecer ao longo da minha vida, fizeram-me reflectir sobre a origem das suas convicções.

Já tinha começado a escrever este post há algum tempo, mas tal como outros cinquenta e tal, ainda não o tinha publicado. Estava incompleto, opino sobre muita coisa que necessita de alguma investigação, é muito fácil incorrer numa “metedura de pata”, como dizem “nuestros hermanos”. Li um artigo no I de um jornalista, de seu nome Christopher Hitchens  e que escreveu o best-seller “Deus não é Grande”. Esteve em Portugal para discursar numa conferência de nome “Urgência do Ateísmo”. Activou mais uma vez a minha vontade em escrever sobre este assunto.

Alguns ateus famosos e as suas obras

Munidos de torchas, sacholas e foicinhas lá vão eles pela calada noite numa caça ás  bruxas. A literatura ateísta tem tido bastante popularidade nestes últimos anos. Neste artigo do Guardian aponta como uma das razões deste sucesso o 11 de Setembro, e como o fanatismo religioso chocou as pessoas de tal forma, que deixou um terreno fértil nas mentes mais frágeis para que os ateístas plantassem as suas sementes. E tomando a liberdade, melhor dizendo a impunidade, que a blogofesra me dá, eu vejo a posição do ateísmo em relação aos crentes, equivalente a  uma queima de livros pelos Nazis em plena praça.

Michael Onfray, ateu, apresentado como um dos mais lidos e polémicos filósofos franceses da actualidade, escreveu um livro intitulado de “Atheist Manifesto” [1]. E nele acusou os crentes de sofrerem um ilusão colectiva. Diz ele também que o monoteísmo é mais perigoso que um arsenal de armas nucleares. Deu uma entrevista à revista Visão, onde apresenta os seus argumentos contra o cristianismo. A afirmação que se destaca desta entrevista é a seguinte “Só num mundo sem Deus é que o Homem pode ser livre”.

Neste extracto da entrevista, que pode ser lida aqui, Onfray diz as seguintes alarvidades:

Muita gente acha que um mundo sem Deus seria inimaginável, mesmo para quem não acredita nele.

Ao contrário, em nome de Deus é que se tem massacrado, destruído. Em nome de Deus fizeram-se as cruzadas, numerosas guerras ou a Inquisição. Em nome de Alá, muitas pessoas atam explosivos ao corpo, para matar 20 ou 30 pessoas, às vezes crianças. Que eu saiba, o ateísmo nunca fez isso. Não conheço ninguém que tenha matado em nome do ateísmo. Há qualquer coisa que não é sã nessa relação do mundo com Deus. Ora, se Deus não existe, como acredito, não é preciso uma moral fundada em termos de eternidade, não é preciso fabricar ilusões para que as pessoas possam viver juntas.

O que lhe desagrada no que chama os “três grandes monoteísmos”?

O ódio às mulheres, aos homossexuais, à inteligência e à razão, aos prazeres do corpo, aos desejos, às pulsões. Querem que o corpo seja espartilhado, impedido. Criaram interditos, seja alimentares seja sexuais. Foram de um anti-hedonismo primário. É preciso viver na lei, na dor, no sofrimento, na recusa.”

Eu chamo isto de alarvidades, não porque nego ou deixo de abominar atentados terroristas em nome de Deus, ou de outra coisa qualquer, mas pela brutal desonestidade intelectual, que uma pessoa supostamente inteligente mostra em tais afirmações. Determinar a religião como causa dos males do mundo, é um diagnóstico mais do que demagógico, mais do que uma muleta partida para suportar argumentos vazios, é muito pouco inteligente. Pior, deve ser propositada com a finalidade de angariar alguns seguidores de pala nos olhos. Para o autor, elimina-se a religião, e deixa de haver fanatismo. Não há mais nenhuma motivação que leve a este tipo de actos. Ódio, vingança, ignorância, medo, coisas do género, não contam. Pelo que se pode ler, a raiz destes sentimentos é a religião.

É normal os ateus “sacarem” deste argumento. No caso de missionários, por exemplo, que dedicam a sua vida a causas humanitárias, em nome de Deus, palavras deles, isso já não conta. Qualquer um podia fazer isso, em nome da moral e bem-comum, não é preciso acreditar em nenhum Deus para fazer isso. Concordo plenamente, não precisamos de Deus para ter princípios morais claros, mas não podemos separar estes homens das suas crenças. Ele diz que ninguém mata em nome do ateísmo. E isto quer dizer o quê? A religião é mais uma bala na pistola das nossas motivações assassinas?

É isto que ele defende como sociedade livre? É com esta profunda falta de sensibilidade e respeito pelas crenças pessoais que ele quer que sejamos mais felizes?  São críticas, que por mais que brinquem com a sintaxe e façam algumas frases caricaturais, que não vão muito além de chalaças, tratam sempre da questão de uma forma superficial.

Outro famoso ateu, Richard Dawkins,  que escreveu um livro famoso, “The God Delusion” [2], também recorre a este tipo de argumentação. Em jeito de apontamento, recentemente aconteceu em Braga uma sessão de debate sobre este livro, organizada pela Comunidade de Leitores de Filosofia, e eu não tive oportunidade de assistir, é pena. Dawkins também comete o mesmo erro que Onfray, ao simplificar os conflitos armados em Israel ou na Irlanda do Norte a hooliganismo entre tipos com tranças na barba e touca e batina. Reduziu o 9/11 a fundamentalismo islâmico, e não há dúvida que não se pode separar uma coisa de outra, mas não se resume a isso.

O Richard Dawkins inicia o livro com a seguinte dedicação:

“In Memoriam
Douglas Adams (1952-2001)
‘Isn’t it enough to see that a garden is beautiful without having to believe that there are fairies at the bottom of it too?'” [2].

É uma forma mais elegante de pôr a questão. No prefácio, faz logo uma afirmação que sublinha a tal ditadura intelectual:

“Being an atheist is nothing to be apologetic about. On the contrary, it is something to be proud of, standing tall to face the far horizon, for atheism nearly always indicates a healthy independence of mind and, indeed, a healthy mind.”

É deste tipo de afirmações que eu me distancio. Trata-se de minorar a inteligência daqueles que acreditam. Mais uma vez digo, é este tipo de mentalidade que eles defendem para a humanidade? Querem abertura de espírito e desprezo pelas outras ideias ao mesmo tempo?

O ateísmo recorre sempre ao argumento de que as pessoas mais inteligentes não têm religião. Tal como no passado alguém afirmar que era ateu dava direito à fogueira, hoje em dia, um cientista é olhado de lado se é uma pessoa religiosa, pelas mesmas razões do que o primeiro, só que no inverso. Imagine-se, no CERN, após o sucesso da experiência com a colisão de partículas, alguém se benzesse? Ia ser um enxovalho. No entanto, deve haver bastantes por lá.

Este livro levanta questões bem interessantes,aconselho a sua leitura. A mim não me convence, mas aconselho na mesma.

Mais interessante do que estes livros, é esta apresentação no TED Talks. O orador chama-se Sam Harris, é um escritor americano.

Ele também redigiu um documento muito interessante [3], pode ser lido aqui.

A Igreja não sabe  comunicar com a sociedade moderna

O ateísmo sai especialmente reforçado, não pelo que os seus representantes dizem, mas pelas  barbaridades proferidas pelos membros mais importantes da Igreja. Dá-me a impressão que comunicar com os jovens é vesti-los todos com a mesma t-shirt, e cantar  o “Põe tua mão na mão do meu Senhor da Galileia”  à volta da fogueira. Isto começa logo no termo “jovens”. Eu já tive contacto com muitos grupos de jovens, e tenho sempre a sensação que há ali algo que não bate certo. Não se questionam as coisas fundamentais, há apenas um continuar com a tradição e os costumes. Depois admiram-se que as pessoas cada vez mais se afastem da Igreja. Sinceramente não sei com introduzir o assunto da religião a uma criança, não é certamente como aqueles padres irlandeses que ultimamente tem aparecido nas notícias o fazem, mas também não é a decorar o catecismo.

Os  representantes da Igreja, insurgem-se contra anúncios deslumbrantes como este, onde mulheres que inspiram pensamentos pecaminosos, dizem coisas como “May my flirty flicks puncture the heart of every man I see” (como se elas precisassem de fazer flirt…), em poses de oração, de mãos juntas e a olhar para o céu.

São estas questões acessórias que desviam a discussão sobre religião, para um terreno da pequena arruaça, quer de uma parte, quer de outra. Brevemente o Papa estará em Portugal (parece que até já circula um abaixo-assinando pelos presos, para pedir ao Papa amnistia por pequenos crimes), e lá virão as declarações aberrantes. Estas pequenas coisas minam a credibilidade da Igreja na sociedade moderna.

Em relação aos casos de pedofilia, são do foro criminal, e devem ser tratados dessa forma em primeiro lugar. Uma coisa é certa, a Igreja não pode de forma alguma ignorar o assunto no futuro. Abriu a caça ao padre e eles têm de repensar da forma como lidam com estes casos. O trabalho que a Igreja faz junto de muitas crianças pobres, tem demasiado valor para ser atirado à lama como estão agora a fazê-lo.

Se a Igreja não sabe comunicar com uma sociedade, que outrora implorava por uma esmola à porta da Igreja, hoje em dia não está muito interessada em ouvir.

Auto-flagelação, jejum e celibato

Este é o tema, porventura, mais controverso no domínio da religião. O sacrifício. Recentemente, veio-se a saber por uma pessoa próxima do Papa João Paulo II, que este praticava auto-flagelação. Esta notícia pode ser lida neste artigo do Expresso. Reparem também nos comentários que por lá pairam.

E claro, as recentes polémicas, aliás, crimes de pedofilia cometidos por padres, levou algumas pessoas a questionar o celibato. E não falo de conversas de café, são artigos de opinião de figuras com crédito firmado, e não quero com isto desvalorizar as conversas de café, mas não têm a mesma visibilidade nem influenciam tanta gente. Fazer essa relação é uma perfeita idiotice.

Este discurso é apenas política. A Igreja está de tal maneira afundada em escândalos abomináveis, que o desespero em manter a dignidade da instituição, leva a que se ceda ao populismo. Dizer ás pessoas aquilo que eles querem ouvir.

O celibato é a vitória do homem sobre a natureza, é um acto de profunda arrogância e não de masoquismo, é o homem e a consciência como um só. Não estou a justificar a posição da Igreja, muito sinceramente, não queria ter de tomar decisões sobre este assunto. Impedir que homens com fé e vontade suficiente para serem padres, mas que se apaixonaram, é algo paradoxal. E aqui entra a questão do sexo, e como a Igreja lida mal com a questão.

A origem da religião e da fé, a meu ver,  advém da angústia causada pela necessidade carnal, e dos conflitos interiores e exteriores que a satisfação dessas necessidades causa. Ora, não é isso que significa ser humano? É, mas não é tudo. Essas necessidades limitam as nossas acções, e em espíritos mais fracos, apenas a satisfação das mesmas conta. Nós temos capacidade de não ceder a todas as nossas necessidades, mais do que isso, somos capazes de as desqualificar de necessidades para manifestações do cérebro reptiliano. Poder viver num plano de consciência acima desses desejos, e ser feliz com isso, é algo que eu admiro profundamente. Por isso é que digo que é vencer a natureza. Por outro lado, uma pessoa não compreender que outra queira excluir o sexo da sua vida, é sinal que não compreende a própria mente humana. Respeito muito esta capacidade. Só com este tipo de auto-disciplina é que é possível atingir grandes feitos, de nos distinguirmos dos demais.

Penso que a crise na Igreja, se deve, em parte, ao facilitismo que a sociedade moderna publicita em contraponto com o valor do sacrifício proclamado pelo cristianismo.  Acho que as posições por vezes tornam-se extremas, ou se procura a satisfação para todas as necessidades, ou se dá chicotadas nas próprias costas.

Concluindo, não vejo qualquer tabu nesta questão do sacrifício e do celibato. Não é fácil de entender, tal como não é fácil pensar.

“Há quem passe pela floresta e só veja lenha para a fogueira.” Tolstoi

A minha visão pessoal

Não me considero um crente no sentido clássico da palavra, alguém que vai à missa todos os Domingos, que reza um terço todas as noites, teme qualquer julgamento divino por acções menos condizentes com o catecismo romano que, mas nestes últimos tempos o deboche anti-religioso tem sido completo, coroado com as saloiices sarkozianas, aplaudidas pela elite intelectual.

O título deste post, pode sugerir que eu sou um religioso convicto, e que me sinto ofendido com os ataques à religião. Não é o caso, de todo. Sinto-me ofendido, isso sim, com a vaidade intelectual demonstrada por alguns pensadores famosos, não se limitam a criticar uma ideologia, até aqui tudo bem, mas vão mais longe e reduzem à pura ignorância as crenças dos outros.  É uma visão extremamente redutora da realidade.

A abordagem à religião, não pode ser feita em termos materiais. Símbolos, estatuetas, histórias da carochinha não têm mais nenhuma utilidade além de servir e alimentar a necessidade humana do palpável. O que não é mais do que alguns pensadores ateus fazem. Entendo que o folclore religiosos seja uma forma de manifestação de pessoas simples, sem as ferramentas argumentativas que os intelectuais possuem para refutar as convicções dos humildes de pensamento. Não é uma guerra justa. E eles justificam-se com o argumento de que se essas pessoas fossem mais inteligentes e bem-formadas, seriam ateus. Não compro este.

Alguém é ateu porque é mais inteligente ou é mais inteligente porque é ateu? Depois de tudo o que li, a questão da inteligência é centralizada. Mal, a meu ver. Os cientistas, e tal como a profissão os obriga, precisam de provas concretas, números e factos.  E os ateus servem-se da ciência para refutar a existência de Deus, e através da criacionismo de Darwin, mais uma vez, refutar a história de Adão e Eva. Eu assisto a esta discussão como mero espectador. Para minha grande felicidade, tenho muita dificuldade em enquadrar-me nas correntes de pensamento que têm sido defendidas ao longo do tempo. Eu considero Deus como um capítulo em branco na biografia da Humanidade.

Como referi no início, tive uma educação católica. Os princípios morais que me ensinaram na catequese, foram-me igualmente ensinados pelos meus pais.  Seria eu a mesma pessoa, actualmente,  sem nunca ter tido nenhum contacto com a religião? Seria, mas não é a mesma coisa. A questão da vida de Cristo, é um exemplo demasiado forte para ser ignorado. Mias do que essa história fascinante, mal contada em imensos capítulos, conheci pessoas na minha vida pessoas extremamente felizes. Acho que nós não entendemos até que ponto é que elas se sentem bem com a escolha de uma vida de clausura. Eu sinto-me fascinado com essa capacidade de entender a própria vontade com tamanha clarividência. A coragem de enfrentar as vozes que os acusam de serem manipulados por uma promessa de vida eterna. Quem opta pela vida religiosa e é verdadeiramente feliz, só o faz por opção pessoal.

As pessoas devem é questionar a sua felicidade. E não tentar moralizar os outros. Alguém declarar-se ateu, e  usar isso como atestado de inteligência, é uma coisa ridícula. Tal como um cristão declarar-se como ter princípios morais mais fortes, apenas porque vai à missa.

Eu não vejo o mundo a preto-e-branco. A ciência não me responde ás minhas questões mais profundas, mas pode-me salvar a vida se eu tiver um acidente. Os nossos valores morais, vão sempre ser confrontados com os dos outros, e se  essa confrontação for conflituosa, a razão dilui-se. Ninguém é dono da verdade suprema, não podemos refutar as razões que motivam a felicidade de alguém, seja de cariz religioso ou científico. É a felicidade que conta.  Não há um denominador comum na moral, mas certos sentimentos são universais. Deixei para o fim, porque quero terminar este singelo texto com as palavras  sábias e profundas. Espero que um dia se compreenda o que Agostinho da Silva quer transmitir.

“Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus”
– Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho.

Referências

[1] “Atheist Manifesto: The Case Against Christianity, Judaism, and Islam”, Michael Onfray.

[2] “The God Delusion”, Richard Dawkins.

[3] “An Atheist Manifesto”, Sam Harris (2006).