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Desde sempre, para frisaram as agruras de outros tempos em contraste com a prosperidade dos nossos tempos, as pessoas diziam-me que houve uma altura em que os portugueses passavam fome e eram reprimidos por exprimirem as suas opiniões. A 25 de Abril de 1974 tudo mudou. A minha geração não viveu antes dessa data, não assistiu à revolução, por isso não temos noção do valor da liberdade e das comodidades dos nossos dias. Este é um argumento recorrente. Por isso, eu intitulei este post de “O 25 de Abril é fixe”, como forma de ironizar a atitude paternalista que a geração de Abril têm com a minha.

Ultimamente, esta liberdade conquistada sem sangue, tem sido questionada por variadíssimas pessoas. A maioria delas viveu a Revolução. Queixam-se que em Portugal não há liberdade de expressão. Que a democracia está asfixiada.

É uma falta de respeito absolutamente inacreditável por quem lutou pela liberdade, que eles mesmos questionam e ao mesmo tempo usam e abusam para dizer estas coisas, quer por protagonismo ou pretenções camufladas.

Juntando a este deprimente  espectáculo mediático, o paternalismo que mencionei, a minha geração (e quando digo “a minha geração”, não estou a invocar qualquer espécie de tribalismo, é apenas uma questão temporal, os que nasceram depois de 74 e utilizam o cérebro para além da escrita de sms no telemóvel)   que  não é acéfala, e está em grande parte desempregada sente-se defraudada com as promessas que lhe foram feitas.

Ao que parece, os nossos 30 anos que deviam ser de prosperidade, vão ser de grande aperto económico, nunca estivemos bem, mas vamos estar pior. E aqueles que estão no poder, não o largarão, vamos ter de batalhar por muito tempo. Mas este é outro assunto, uma consequência  daquilo que me perturba

Não ter vivido uma revolução como a de 74, uma oportunidade de mudar uma sociedade, a ideologia obscura dominante, ou pelo menos a ilusão de o poder fazer, é a grande diferença entre a minha geração e a de Abril. Passar fome é complicado de imaginar, mas para quem comeu na cantina da minha universidade consegue fazer uma boa ideia.

A melhor comparação, e a que melhor conheço, é a classe estudantil. Houve um tempo em que se organizavam e procuravam formas de se exprimirem contra o regime. Hoje, se não fazemos isso, é porque não existe um regime para derrubar, uma figura para colocar no centro de um alvo, hoje censuramo-nos uns aos outros, o poder está nas mãos do povo, e ao contrário do que se diz “da boca para fora”, a responsabilidade é toda nossa.  Não há forças obscuras, apenas o cinzentismo que sobreviveu à revolução. Ou talvez a desilusão que ressuscitou o cinzentismo. Ainda se fala muito do que não aconteceu nessa data.