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Eu não gosto da palavra talento, a principal razão, e tenho de o admitir com humildade, é que não tenho nenhum talento ou vocação.  Tenho imensos interesses, já experimentei muita coisa, mas nunca pude dizer – “Tenho jeito para isto”. Adoro música, mas não tenho ouvido. E apenas aos 13\14 anos é que me comecei a interessar a sério pela área.

Parece paradoxal, não ter vocação para o que se gosta. Não teremos nós tendência para seguirmos a nossa vocação, visto que não temos de desenvolver tanto esforço para ter qualidade nessa área? Talvez. É confortável. Talvez dê uma sensação de completude – “Eu fui feito para isto”. O problema é se temos uma habilidade inata para algo que não se gosta de fazer, mas temos características que nos permite ser bons.

Penso que este tema terá de ser inicialmente abordado com a seguinte questão – “Qual é a minha vocação?”. Eu olho a maioria das pessoas nos olhos, e sei que elas não sabem responder a esta questão. Eu não sei. Sei quais são as minhas paixões, mas se tenho algum dom, desconheço-o de todo. Então, como e quando  descobrir a vocação?

Este post vem a propósito da discussão que houve há 2 anos, em relação à decisão do Governo em acabar com o ensino supletivo na música. Esta modalidade de ensino permitia que adultos ou adolescentes pudessem estudar música, sem que tivessem iniciado esse estudo em crianças. Os alunos frequentam as disciplinas do ensino artístico especializado da música, independentemente das habilitações que possuam (daqui). Há mais duas modalidades, o ensino integrado e o articulado. (pag 61 tem algumas observações) No ensino integrado, os alunos tem todas as disciplinas de formação geral e as de música no mesmo estabelecimento de ensino (na Gulbenkian em Braga, por exemplo).  No articulado, o aluno frequenta um plano de estudos especificamente adaptado, em que as disciplinas do Conservatório substituem as disciplinas de formação artística da escola regular, terá de haver uma articulação entre o Secundário e o Conservatório, por exemplo. Tem de frequentar as duas escolas.

A Ana Drago explicou bem as consequências deste novo regime.

No blogue De Rerum Natura, há um post que condensa bem as ideias desta mudança de regime. O regime integrado tem uma consequência, obriga a uma decisão muito precoce. A alternativa para aqueles que querem aprender música, e não terem sido iluminados pela paixão quando tinham 6 anos, será recorrer ao privado e pagar mais por isso. Trata-se de uma decisão de cariz económico, nada mais. Sacrifica-se a qualidade, pois vai-se desaproveitar potenciais músicos, para ter mais dinheiro, a bem da verdade, estão a ser coerentes com a sua política.

Ainda com mais espanto, constatei que esta decisão foi baseado num relatório final de Estudo de Avaliação do Ensino Artístico(1),  “que carece, por falta de rigor metodológico, de validada científica, seja por não englobar, na equipa que o elaborou nenhum artista ou professor de qualquer arte, nem ter realizado o trabalho de campo que se exigia como fundamento junto das cerca de 100 Escolas de Ensino Especializado de música, dança e teatro, públicas e privadas, reconhecidas e financiadas pelo próprio Ministério da Educação.” Cito uma petição de 2008 que pretendia travar as medidas do governo.

“Eu entrei para o Conservatório Nacional de Lisboa com dezanove anos. Sou um bom exemplo de alguém que, à luz desta reforma, não só não teria acesso ao ensino especializado da música como não teria atingido o nível que me permite hoje viver exclusivamente da música.” Mário Laginha (daqui). O pianista é um dos muitos exemplos de músicos que frequentaram o Conservatório em regime supletivo.

Esta mudança de regime, e todas estas modalidades de ensino, estão repletas de minudências  burocráticas e pequenas coisas, nunca me dei bem com isso, essa papelada sempre me fez confusão. Por isso, intitulei este post de “Maturidade vs vocação precoce”. Acho que é o ponto mais interessante de debater.

O ensino supletivo permitia mais flexibilidade no acesso ao ensino musical. Muitas pessoas, apesar da paixão pela música, optam por se formarem noutras áreas. É uma questão de  pragmatismo, vamos ser realistas,  um profissional na área da música, não tem grandes alternativas de trabalho, terá de ser muito bom, para conseguir uma carreira com sucesso, e isso desmotiva a uma entrega absoluta a uma carreira musical.

Não sei se há evidência que demonstre que as crianças que começam mais cedo os seus estudos são também aquelas que melhores resultados apresentam. É algo que temos como dado adquirido, quem quer ser mesmo bom músico tem de começar a praticar num instrumento ao mesmo tempo que aprende a andar.

Da minha experiência, quando existe uma motivação forte, anteriormente referi como paixão, mas convém distinguir as duas, pois a paixão é visceral e a motivação carece de alguma razoabilidade, embora tenha de ter alguma dose da primeira, nós encontrámos o nosso caminho.

Por isso, atempadamente, devíamos ser todos sujeitos a testes que indicassem as nossas apetências, correndo o risco de não ter nenhumas, ou serem desprovidadas de romantismo, sempre acompanhados por alguém que percebesse o que nos entusiasma, pois nunca poderia ser um sistema que agrupasse as pessoas por vocações, e não por motivações.

Podia resumir todo o paleio acima com “A paixão é que nos move”. Não adianta inventar métodos científicos que nos descodifiquem as apetências, não somos robôs, somos muito ilógicos. O segredo é perceber o que se gosta verdadeiramente, perceber o que se quer fazer durante toda a vida, e lutar por isso. Não é fácil, necessita de uma introspecção muito profunda, que leva o seu tempo. Alguns de nós percebem-no mesmo antes de aprender a falar, outros levam quase uma vida para se encontrarem.

(1) Domingos Fernandes et al; Estudo de Avaliação do Ensino Artístico, Ministério da Educação, Portugal, 2007