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“No meu batalhão [em Angola] éramos 600 militares e tivemos 150 baixas. Era uma violência indescritível (…) Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. (…) E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros.” (DN)

Este é um trecho de um livro de António Lobo Antunes sobre Angola. É um livro de ficção, que usa factos reais como inspiração para descrever sentimentos. Recentemente o escritor foi ameaçado por ex-combatentes de “levar nas trombas” por ter feito afirmações que são falsas.

Este é um assunto muito sensível, envolve “condimentos” muito perigosos, tais como a morte de amigos, o assassínio de inimigos, a coragem, o patriotismo, as causas indefensáveis , as vicissitudes das guerras. Facilmente se confundem as coisas, principalmente se juntarmos a esses condimentos, aquele habitual de criticar aqueles que não digam maravilhas de nós. Que “piquem” nos pontos sensíveis e dolorosos. Aquilo que os bons escritores fazem.

José Saramago também foi vitima  deste compadrio sentimental português, “quem não se sente não é filho de boa gente”. Dispensando a leitura da obra, ou perceber o que ela quer transmitir, basta que alguém invoque essa sensibilidade tão lusitana, que depressa outros se irão associar, empunhando as respectivas tochas e gritando as palavras de ordem contra “esse não sei o quê” que me está a ofender.

Vi ontem uma reportagem sobre este assunto, onde um ex-combatente dizia que a Guerra Colonial foi “limpa”. Gostava que ele esclarecesse este adjectivo atribuído a uma guerra, que defendia uma colónia num terreno que não nos pertence, da qual há imagens e relatos impressionantes. Não tomo partido contra estes homens que lá lutaram, as coisas são mais complicadas do que isso, a realidade tende a nublar os ideais, mas não podemos branquear a História, para isso chegam os livros escolares.

Não li o livro em causa, do António Lobo Antunes apenas conheço as crónicas que leio sempre. Sei o escritor que é, esfola a realidade, e deixa as entranhas à vista. Isso é uma coisa que pode doer muito, pois facilmente é a nossa pele a ser arrancada. Se não aguentamos a essa dor, então não podemos ler bons livros.