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Eu leio sempre os artigos do Vasco Graça Moura no DN. É uma pessoa muito culta, deve ter lido centenas de livros, avaliando pelas múltiplas referências bem contextualizadas que usa. Ele consegue comunicar ideias bastante complicadas, no entanto, não sou apreciador da complexidade sintáctica do seu texto. Dá a sensação, que quer seleccionar os seus leitores por fadiga mental. O Saramago foi criticado de todas as maneiras e feitios pela incorrecção do seu português, pois em verdade vos digo, que os livros dele são muito mais fáceis e ler, e mais certeiros no que diz respeito à condição humana. Ninguém é dono da língua. Mas (adoro o “mas” no início das frases), isso é outro campeonato.

O Vasco Graça Moura (podia utilizar, não gosto de siglas) acha que os putos de agora são umas bestas. E até são, mas mais do que constatar o óbvio, é bem mais útil prospectar as causas. Ele diz, e passo a citar:

“Nesta franja europeia que somos, sem outro sentido que não o do far niente à custa do Estado e/ou de Bruxelas, estamos a realizar o divórcio mais fundo de que há memória entre as gerações e não só entre as gerações: os jovens nem querem saber das instituições do Estado e da vida civil, da autoridade democrática ou das qualificações seriamente obtidas nem, provavelmente, cuidam que essas realidades existem. Só lhes passa pela cabeça, como única preocupação, a conjugação de um verbo que aprenderam nas séries brasileiras: “Curtir”. E aí, a geração anterior, grande responsável política e educativa por esse estado de coisas, deu logo em imitá-los… É curtir, vilanagem!” (artigo no DN)

Este trecho faz parte do último parágrafo do artigo, e realmente na última frase ele disse tudo. No tempo dele, a geração dos filhos opunha-se à cultura dos adultos, nos anos 60, e cita uma socióloga francesa, . Essa geração tinha um objectivo, o da democracia. É natural que a cultura fosse o meio mais nobre de lutar contra os regimes que a oprimiam. Eu não estou a desvalorizar a coragem e a determinação dessas gerações, mas a minha vive num sono constante, sustentado com soporíferos do género deste artigo. A motivação e inspiração para criar, é mais forte quando essa criação é proibida.

Outra razão para o divórcio cultural da minha geração, com a geração do Vasco Graça Moura, é saber de antemão que não há grande espaço para a nossa intervenção. Para qualquer lado que se olhe, vêem-se poderes instituídos, que passam de umas mãos para as outras sem que nada mude, voltando outra vez ás primeiras. Isto soa a desculpa, mas não é. Eu farto-me de falar disto aqui, porque me custa ver tanto chinfrim, as mesmas acusações e erros, só muda a cor de vez em quando. E nesse campo da política, olhando para as juventudes partidárias, onde devia residir o idealismo inocente, está uma preparação para a politiquice. Seguem as orientações do partido, apenas aparecem em altura de eleições para angariar votos dos jovens (detesto este termo aplicado nestas situações, soa a “animais amestrados”).

Sempre ouvi dizer “Dantes é que era bom! Agora têm tudo e não dão valor a nada. Passavam fome, não tinham tempo para andar a roubar.” Foram vocês que nos educaram, o erro é vosso. O paternalismo que nos confortou na infância, tirou-nos os rins, fômo-nos apercebendo disso ao longo do crescimento, agora confrontados com a selva, sentimos um misto de agradecimento com alguma raiva. Claro, a cultura tem de ser outra.

Ainda bem que pensam assim, a presunção da nossa burrice, é melhor desculpa para ser preguiçoso sem sentimentos de culpa.