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The Kreutzer Sonata

Image via Wikipedia

“- A propósito – recomeçou ele a falar, arrumando no saco o chá e o açúcar -, o domínio das mulheres com que todo o mundo sofre é causado pela mesma coisa.
– O domínio das mulheres como? – perguntei. – Os direitos e os privilégios pertencem aos homens.
– Sim, sim, isso mesmo – interrompeu-me -, é disso que lhe quero falar, é isso mesmo que explica o fenómeno extraordinário de a mulher, por um lado, ter sido empurrada para a mais completa humilhação, mas por outro, dominar tudo. Do mesmo modo que os judeus se vingam da opressão de que são vítimas com o seu poder financeiro, assim se processa o domínio das mulheres. Dizem os judeus: «Então, quereis que nós sejamos apenas mercadores. Está bem. Nós, mercadores, vamos apossar-nos de vós todos.» Dizem as mulheres: «Então, quereis que nós sejamos apenas objectos de sensualidade. Está bem. Então, como objectos de sensualidade, vamos escravizar-vos.» A ausência de direitos da mulher não consiste em não poder votar ou ser juíza (não há quaisquer direitos nesta actividade), mas em não poderem ser iguais ao homem nas relações sexuais, em não terem o direito de utilizar o homem, ou abster-se dele por sua própria vontade, em escolherem um homem por sua livre vontade, em vez de serem escolhidas. Diz-me que isto está mal, não é? Muito bem, nesse caso o homem também não deve ter estes direitos. Actualmente a mulher está privada de um direito que o homem possui. Em consequência, para compensar a falta deste direito, ela influencia a sensualidade do homem e, através da sensualidade, domina-o de tal maneira que ele só formalmente faz a sua escolha, quem escolhe de facto é ela. E, ao ter aprendido uma vez a utilizar este método, a mulher abusa dele e adquire um poder terrível sobre os homens.”

Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer”


Via “Pó dos Livros”, com todo o descaramento.

Eu penso exactamente da mesma maneira, e cito Tolstoi em razão da sua credibilidade, digamos que é aquela cobardia, ou necessidade de uma muleta para as nossas ideias. Nunca li Tolstoi, por isso, fica-me mal fazer uma citação de uma citação, mas está muito bem escrito, aparentemente simples. Lá está, as coisas simples da vida, que nós complicamos imenso. Nunca li, mas  este livro, “A Sonata de Kreutzer”, abre-me o apetite. O “Guerra e Paz” e “Anna Karenina” já o deviam ter feito…

Em relação ao assunto em si, é algo que eu já me apercebi há algum tempo. Há de facto uma desigualdade social entre homens e mulheres, não receberem o mesmo salário pelas mesmas tarefas, não tem cabimento. Já nem falo do papel da mulher em sociedades  mais lá para os lados do Médio-Oriente, vamos tentar ficar no domínio da razoabilidade.

A natureza das coisas

Eu pergunto-me, se este domínio da mulher sobre o homem, manipulando o nosso desejo com a sua sensualidade, será consequência do seu papel reduzido em relação ao homem, ou da lógica das coisas, que muitas vezes não compreendemos e contra à qual nos revoltamos. Não vamos ser inocentes, é evidente que a primeira hipótese se situa no domínio do “politicamente correcto”, a segunda é a “regra” fundamental entre homens e mulheres.

Quando se em igualdade de género, não nos podemos restringir às Leis que os homens criaram, a discussão tem de abranger a natureza do Homem. É um terreno pantanoso, esse das “Leis Naturais”, e tendemos a usá-las consoante a nossa conveniência. Por exemplo, as relações devem ser apenas homem-mulher. É verdade que o tema da homossexualidade, tende a ter conotações religiosas, mas o argumento de que não é “natural”, é o mais frequentemente (e provavelmente único) utilizado. Por isso, assinalei “regra” com as aspas, salvaguardando a nebulosidade da nossa natureza.

O desequilíbrio de poderes

Eu já tive esta discussão com várias pessoas, mas nunca concordaram comigo, no entanto, lá bem no fundo sabem que isto é verdade. Não tem necessariamente de ser sempre assim, a vida não é a preto e branco, mas tende a orientar os nosso comportamento. Nessas discussões, dizem-me sempre “É igual, as mulheres também gostam de homens, eles também têm poder sobre elas”. Nem de perto nem e longe, se podem equiparar.

Disse Tolstoi: “Em consequência, para compensar a falta deste direito, ela influencia a sensualidade do homem e, através da sensualidade, domina-o de tal maneira que ele só formalmente faz a sua escolha, quem escolhe de facto é ela. E, ao ter aprendido uma vez a utilizar este método, a mulher abusa dele e adquire um poder terrível sobre os homens.”

Eu tenho de acrescentar algo aqui. Tolstoi viveu num tempo, em que realmente a falta de direitos da mulheres era gritante. A vida delas estava definida à partida, tentar encontrar um marido que as sustente, salvo algumas excepções. Hoje em dia, as coisas são diferentes. Elas têm, felizmente, direito à escolha. No entanto, aquele poder que era usado para compensar a falta de direito, agora é uma vantagem absolutamente inigualável. Isto é muito mais profundo do que aquela tristeza do “ela é de outro campeonato”, modela os nossos comportamentos, e aquilo que fazemos é em função disso.

As mulheres podem gostar ou não desta realidade. Não foram elas que pediram isto, mas é assim. Podem dizer “Eu não tenho culpa de ser bonita”, mas nunca, mesmo nunca, se pode ignorar esse facto. Seremos nós, homens, que lhes damos esse poder de mão-beijada, em cada tentativa de sedução falhada, olhares indiscretos na rua, quilómetros de palavras escritas em homenagem ao maravilhoso feminino? Somos nós, os responsáveis?

Não sei responder a esta pergunta. Não acredito numa resposta óbvia a isto. Só sei uma coisa, quando um homem gosta de uma mulher, a partir do momento que ela pressente, e é tão fácil, de imediato exerce esse poder. É falta de auto-estima da nossa parte? Nem pensar, é muitíssimo mais forte do que isso.  Se o sentimento for verdadeiro, não apenas atracção física, é um problema enorme para nós, não dá para ignorar. Temos apenas de desempenhar o nosso papel, atirar o “barro à parede”, e suportar todas as consequências.

E nós?

Nos tempos que correm, exige-se que o homem assuma vários papeis, que seja  o macho-alfa, forte e confiante, e o homem sensível que compreenda (normalmente ignora) as idiossincrasias femininas. Um homem que seja capaz de ser isso tudo, desempenhar todos esse papéis, e continuar a ser ele mesmo. Tem de subir ao palco, e sentar-se na plateia ao mesmo tempo, ser actor e encenador.

Acho que as mulheres, não têm a consciência que alguns homens já começam a perceber que isto não os leva a lado nenhum.  Sucumbir a esta desmultiplicação de personalidades, só traz infelicidade. Arrisco a dizer, que os homens começam a ganhar um certa imunidade a este poder. É uma cato de arrogância, religioso até, enfrentar a própria natureza. É preciso muita coragem, tal como um homem deve ter, não é?

O pior disto tudo, é ter esta consciência. As mulheres não gostam de homens que as conhecem bem. Elas preferem que nós ignoremos esta condição, e continuemos com os olhos fechados, ou a fazer de conta que nada disto é verdade. Chamam-nos de “ressaibiados”. Tipos complicados.

Pessoalmente, nunca me dei bem com isto. Sou demasiado sincero, demasiado observador, não me consigo enganar a mim mesmo, e ser algo que não sou. Apenas eu, com todos os meus defeitos, me apresento ao mundo. Esta é a minha inocência, o meu idealismo.

Um homem verdadeiramente auto-confiante, é sincero. Confia em si para si. Tem medo. Não usa uma máscara de super-homem, é ele mesmo.