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O último relatório da OCDE, revela que Portugal é o país onde cada aluno custa mais tendo em conta riqueza nacional, mas o gasto está abaixo da média (no I). Não sei bem o que isto quer dizer, mas o facilitismo que paira à volta do ensino secundário torna estes números curiosos. Bem, na verdade é muito fácil cair em demagogias no que toca a este assunto. Temos o hábito de criticar as gerações anteriores, argumentando que no nosso tempo “é que era difícil”. Eu cito os jornais, porque o relatório tem 472 páginas, e eu como mau aluno que sou, dou uma vista de olhos pelos desenhos, e leio os resumos.

Uma das primeiras considerações políticas do relatório, todos os capítulos têm, é a seguinte, e não podia concordar mais, é um dado adquirido:

“A continuously well-educated and well-trained population is essential for the social and economic well-being of countries. Education plays a key role in providing individuals with the knowledge, skills and competences needed to participate effectively in society and in the economy. It also contributes to the expansion of scientific and cultural knowledge. Educational attainment is a commonly used proxy for the stock of human capital, that is, the skills available in the population and the labour force.”

Todos os alunos da primária deviam escrever esta frase no quadro, umas cem vezes. “Olha, tá o gajo que passou não-sei-quantos-anos na universidade, a mandar bocas!”, antecipo-me a essa justa crítica, ressalvando que sou um nabo, mas um nabo com consciência disso, não é dizer pouco. O pragmatismo é ouro nestes tempos de optimismo desmesurado.

Voltando ao secundário, estes são os números da percentagem (em estimativa, usando números de 2007) de graduados em 2008. A comparar esse rácio de gasto com cada a aluno\riqueza nacional, e a frieza dos números, dá que pensar. Até quero ver como é que o Sócrates vai “manipular”, mais umas estatísticas.

Pouco mais de 60% dos alunos, acaba o secundário. Estes números não me surpreendem, no meu tempo do secundário,  conheci muita gente que não tinha o mínimo de motivação para acabar aquilo. Não encontrava qualquer ligação entre o que lhe ensinavam e o mundo real. Acho que esta questão é fundamental, não vale a pena estar a equipar as escolas com meios modernos e Magalhães, se as pessoas não conseguem ver a “big picture”. É preciso que o fio condutor seja bem concreto desde a primária até ao fim, as coisas têm de fazer sentido, a aprendizagem carece de motivação. Não é por burrice que a taxa de sucesso é tão baixa, é uma questão de mentalidade.

É de referir, que mais de 80% dos alunos que terminam o secundário, entram na universidade. Eu entendo isto, com quem quer acabar o secundário, e se dá a esse trabalho, quer prosseguir os estudos e obter um grau superior. Como os números confirmam, há boas razões para obter um diploma.

Uma delas, e estes número calam muita e muita gente, espero que se fale muito disto, é a relação entre qualificação e emprego. Ora, confirme-se no gráfico:

Não sei como é que o Jornal Nacional da TVI vai lidar com isto. Eu sinceramente, pensava quer era bem mais baixo. Quase 90% dos licenciados em Portugal, têm emprego. Não sei se estes números estão correctos, mas se falharem não deve ser por muito, não sei se são baseados em números do Centro de Emprego e os licenciados  desempregados não estão lá inscritos. A conclusão que se pode tirar, é que a desinformação pelos media é demasiado descarada. Passamos a vida a ouvir pessoas a queixarem-se que têm diploma, acabaram o curso com uma média muito boa,  mas que não conseguem trabalho. Fica a ideia que são em maioria, pois só ouvimos esses. Muita coisa parece estar a funcionar mal, nesta relação universidade e mercado de trabalho, mas está-se a fazer essa critica sem ter estes números em conta. Talvez ainda pairem os fantasmas do passado, quando ter o “canudo” era ter emprego na certa.

Eu falo disto com à vontade, por fazer parte dos 10% de desempregados com diploma superior. Tenho de ser humilde, e admitir que fui incompetente em momentos chave, na universidade. Culpar o Estado ou as empresas por isso, demonstra uma enorme falta de responsabilidade. Essa é uma das lições mais importantes a aprender na universidade, assumir os nossos actos e escolhas, sejam qual forem os seus resultados. Somos habituados desde crianças a inventar as mais elaboradas conmspirações, para desculpar falhas da nossa exclusiva responsabilidade, quer por incompetência ou negligência. Eu não sou “resultadista”, mas a realidade tende a contrariar-me, e eu sem bem porquê, temos de lidar com factos. Interessam apenas os nosso resultados concretos, números. Vitórias morais não contam se queremos competir e vencer.

Em contraste, com esses péssimos números do secundário, é  interessante verificar, que Portugal tem uma taxa de sucesso acima da média, no que diz respeito à percentagem de graduações na Universidade. Cerca de 45%.

Empiricamente, verificamos que há mais gente a ir para a Universidade, e mais gente qualificada. Várias razões haverão, não aprofundei sobre isto, mas Bolonha é uma delas.  A principal, e assunto invariavelmente alvo de  demagogia, são as saídas profissionais e bons salários. Nesse interessante relatório, verifica-se que “Portugal é dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico em que ter um curso superior faz mais diferença no dinheiro que se pode ganhar a trabalhar, segundo um relatório daquela organização” (no Público).

Fico contente por saber isso. Quem mais estuda, mais investe na sua formação, tem direito a melhores empregos, e consequentemente, melhores salários. O reconhecimento do mérito é um princípio fundamental da nossa sociedade.

Mais importante, e antes do mérito, vem a igualdade de oportunidades. Nem toda a gente tem possibilidades de tirar um curso superior, e aceder assim à competição por melhores lugares no mundo do trabalho, estas pessoas têm de se sujeitar a uma situação economicamente desfavorável. O progresso é isto. Igualdade de oportunidades. É neste sentido que temos de caminhar.

Ouve-se muito criticar o facto de haver muitos diplomados, e que não há qualidade. A massificação do ensino superior levou a um abaixamento dos critérios de excelência. Não nego isso. Uma coisa é certa, a massificação do analfabetismo é que não dá grandes resultados, como prova o nosso atraso como país. Posso garantir, que a universidade só faz bem a uma pessoa, ninguém sai de lá igual. É certo que será um profissional melhor, com os horizontes mais alargados. É lá que se encontram pessoas com inteligência, sede de conhecimento, e capacidade para o transmitir, por excelência.

São essas pessoas que nos dão as lições mais valiosas, aquelas que não vem nos livros. O capital humano que nos inspira.