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O despertador, indiferente e cruel, não dorme. Paradoxalmente, sou eu, voluntariamente, que o encarrego dessa tarefa que ele executa com notável precisão, sempre à mesma hora, sacode-me os ombros, até me arrancar do sono.

Fora do refúgio utópico dos sonhos, entrego-me à rotina matinal, aquela do autocarro e do “bom dia”. Solidarizo-me com a  ilusão colectiva, de uma recompensa final pelo nosso esforço, génios ou indiferentes, é irrelevante, todos nos iludimos pelos mesmos meios.

Os traços nos rostos erodidos das pessoas, cuja presença, temos como garantida para toda a vida, anunciam com desprezo a brevidade da nossa existência. Temos razão ao descarnar e classificar o tempo que temos, é um  sentimento de imensidão que nos esmaga, parece tão pouco aquilo que está ao nosso alcance. Por isso, não censuro as mentes de alcance curto, que ambicionam a facilidade. A minha sorte na velhice é que nunca foi bonito, perder a beleza deve doer imenso. Ate sinto alguma pena das pessoas bonitas, quando na velhice forem atormentados pelo espelho que os levará até  à juventude, num passeio melancólico pela memória. Serão fantasmas.

Passei estes últimos dias sem ouvir música, apenas uns acordes sonolentos antes de me deitar, saídos da minha cansada  guitarra, martirizada por inúmeras pancadas. Começa-me a parecer uma recordação de sonhos idos. Assusta-me. Tenho vivido pensando muito, com a displicência de quem não ambiciona a ostentação,  ou riqueza, o termo depende da conveniência de quem quer ou não disfarçar a sua ambição. Não me interessam as histórias, apenas as personagens. Vivo apenas para recordar a sensação do momento, sem memória não existiria medo e paixão.