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Neste vídeo, filmado na rua de St. Catarina no Porto, um “gajo que é alemão” e uma “gaja  portuguesa”, segundo o sóbrio relato feito pela senhora que aparece em primeiro, foram alvos da ASAE da foda.

Eles beijavam-se, rebolavam-se, e ele, imagine-se, metia-lhe a mão por dentro das calças.  Ainda bem que apareceu um paladino da justiça, vestido de branco (ironia poética?), temendo pela  devassidão, que ensombrava o futuro  das criancinhas  incautas que por lá passavam, deu o  exemplo daquilo que é a moral e  bons costumes, espetar um banano a um gajo, cuja sobriedade se vertia pelo corpo da rapariga.

Ao longo da tórrida cena, as pessoas foram-se amontoando para assistir com espanto, e aquela curiosidade que nasce da mesma raíz, da outra  que os faz parar  para ver acidentes de viação.  Tais atitudes de desprezo, que se vão amontoam nas caixas de comentários do Correio da Manhã, devem ser objecto de estudo dos sexólogos, que aqui por estes lados, já por mais que uma vez,  alertam para bem da nossa sanidade mental, que a coisa é mal feita, e em quantidade reduzida. O inverso dos poemas do Quim Barreiros, tantas vezes soletrados pela rapariga que comprava meias, julgo eu  sem grande risco de me enganar.

Talvez estes pais, se juntem àqueles que estão contra a educação sexual nas escolas, e expliquem aos filhos a razão de Portugal estar destacado nos rankings do costume, pela sua taxa de mães adolescentes. Esta rigidez na educação sexual dos filhos, “homem que é homem tem de jogar à bola!”, diz mais da intranquilidade sexual dos pais, do que da sua preocupação com pedagogia.

O que poderiam as pessoas fazer? Ignorar da mesma forma que ignoram o cego, que na mesma rua, sentando num banco, numa esquina, pede uma esmola “pela luz dos nossos olhos”. Estavam eles a impedir a entrada em alguma loja, ou prédio? Isso era um caso mais problemático, e aí justificava-se a chamada de atenção.

Saindo do domínio do ridículo, e do recurso humorístico fácil, o atentado ao pudor (penso que seja este o crime em causa, não sei, já espero de tudo), é considerado crime. Poderiam estas pessoas ser punidas legalmente? Estaria o país melhor? A razoabilidade deve entrar neste debate.  Temos de fazer cedências, e quem defende o amor livre e descomplexado, deve a si mesmo a compreensão da incompreensão das mentes menos esclarecidas. Isto faz de mim um tarado? Não, eu apenas imagino uma sociedade completamente diferente, onde os princípios não se impõem, discute-se e tem-se espírito critico. A tal utopia, esta é a minha, e todos devemos ter uma, reduzir o espaço do cinismo é uma peça central no puzzle da  felicidade.

Esta discussão, e outras, tendem a centrar-se na questão “Tu estás de acordo com…?”. Esse é o verdadeiro problema, não nos cabe a nós ditar leis, que  apenas terão impacto na vida alheia. O consenso em volta deste tema é dispensável, o pudor é uma questão pessoal, e pode definir-se pela capacidade de lidar com a nossa intimidade e a dos outros. Gostarmos ou não é irrelevante, não podemos esperar gostar de tudo que os outros façam.

Gostava que me explicassem em que medida, a conduta sexual das outras pessoas condiciona a nossa vida. Qual é a consequência, qual o impacto na felicidade dos outros, que um casal esteja dentro de um carro a fazer aquilo que lhes apeteceu?  Vamo-nos tornar em violadores e pedófilos, se abrir-mos o coração sem complexos?

Aliás, considerar uns mimos mais ousados, um mau exemplo para as crianças, é o tipo de diabolização do sexo que nos torna pessoas com uma tensão interior, que explode em violência e depressões colectivas. As pessoas vivem com medo, sempre atentas a qualquer movimento alheio que saia fora das linhas mestras da sua rectidão moral, sempre de dedo em riste, manietados pela culpa religiosa, apontando em todas as direcções menos na mais importante, para dentro deles mesmos.