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Portugal, conjuntamente com a Espanha, tal como o Sancho Pança se conjugava com o D. Quixote, perdeu o concurso para a realização dos Mundiais de Futebol 2018/22 para a Rússia e Qatar, respectivamente.  As razões para tal, desconheço, e nem me interessam. Se foi por causa de dinheiro, a FIFA não é a Santa Casa da Misericórdia, e se a Rússia rende mais, faz sentido que os escolham. Se são questões políticas, é natural, tudo são questões políticas, no que respeita a grandes decisões. A candidatura portuguesa é uma questão política.

No entanto, para quem apela constantemente ao fair-play, a FIFA tem uma forma muito sorrateira de tomar decisões. Ainda por cima, fazendo um bocado de futurologia, podem-se prever as excentricidades que vão ser  cometidas no Qatar, nas construções de mega-estádios e restantes megalomanias para receber turistas e outras multi-milionários. Excentricidades, promovidas por um organismo que defende causas sociais, mas como disse, a FIFA não é a Santa Casa da Misericórdia, é com isso que temos de contar.

Mais uma vez, eu, tal como um Velho do Restelo, aqueles que são acusados de não quererem fazer nada, não era a favor da realização do Mundial em Portugal. Fica apenas a acusação, pois as razões são fortes, força essa que não se pode medir com a do dinheiro que é sempre acenado, iludindo quem se hipnotiza  com promessas que se revelam inócuas quando submetidas ao teste do tempo, já que não o são ao da sensatez.

O Euro 2004 não se resumiu a 10 estádios, há um conjunto de obras que lhe estão associadas, acessibilidades, reordenamento urbano, dinamização do turismo, etc. Depois do evento, foram feitas algumas avaliações do impacto nas regiões afectadas. Um deles, feito na Universidade do Minho, focado no Minho, Braga e Guimarães,  está acessível ao público.

Estes estudos são extensos, li-os na diagonal, o importante é perceber os seus objectivos e ler as conclusões. Aliás, bons papers e teses, são claros apenas com a leitura dos objectivos, metodologia e conclusão. O documento da Universidade do Minho tem bastantes referencias a outros estudos sobre o impacto social e económico de grandes estruturas desportivas, que apontam a não existência de “evidência de que as estruturas e as equipas profissionais aumentem a taxa de crescimento do rendimento real”, ou que “uma nova estrutura tem um efeito extremamente pequeno (ou negativo) na actividade económica e emprego”. (pág. 53)

Esses efeitos diminutos vieram-se a verificar:

“O impacto económico do Euro 2004 «não foi significativo, como já se esperava», embora «não possa ser considerado negligenciável, dada a situação da economia». Com efeito, a sua contribuição para o produto interno bruto (PIB) foi de apenas 0,11% em 2004, o mesmo que em 2002. Em 2003, rondou os 0,32%.” (Daqui)

Os efeitos negativos também, basta tomar como exemplo alguns recintos municipais onde se jogou o europeu de futebol, os seus custos de manutenção e falta de assistência. Encargos pesadíssimos para as autarquias. (Daqui) Esperavam o quê? Que a liga começasse a ter assistências de 50.000 pessoas por jogo? Que a manutenção fosse de borla? Viver à rico, parecendo que não, sai caro.

Tomando o exemplo de Braga, em que é que a população beneficiou? Um estádio bonito e frio no Inverno. Um investimento tão avultado da autarquia de devia ter resultado em mais equipamentos desportivos, que as pessoas pudessem utilizar a preços simbólicos. De forma alguma tal se concretizou. “O pagamento do empréstimo de 20 anos à banca representa quase 10% no orçamento anual da câmara. Os encargos mensais são “o equivalente à compra de um Ferrari”, diz um vereador do PSD.”

Ah, o Enterro da Gata, é realizado perto do estádio, que em cima de cimento e tão longe de tudo perdeu bastante, a lama tinha piada depois de muitas garrafas vazias.

“O Euro veio acelerar a construção de melhores acessos”. É preciso construir um estádio para se melhorarem as acessibilidades? Não se pode fazer essas obras se as reais necessidades da população assim o exigirem?

Será que o Euro 2004 valeu a pena? A resposta não é linear, há muitos factores em causa, mas vamos ser honestos, já querem demolir estádios porque dão prejuízo. Os números deveriam ser claros para algumas pessoas, mas cada um vai utilizando os argumentos que convém. O Secretário-geral do desporto sublinha o aumento no número de turistas, e a melhoria da imagem de Portugal, no entanto, os números não lhe dão grande suporte.

O tal orgulho nacional de que se fala e eu não sei bem o que é, ou até sei, mas tenho de ser muito pessimista com as pessoas, e sentimento de dever cumprido que esperamos sempre dos estrangeiros “Ai que bem que eles organizam, estou em pulgas para cá voltar” não chegam para justificar tanto dinheiro gasto. O Euro justificou-se por uma necessidade de ser falado, de um país a aparecer no mapa. O problema é que agora, temos o que pedimos, aparecemos no mapa dos PIGS. E se quisermos voltar à auto-estima, basta pensar na final…

Depois de tudo isto, “Ah, e que tal se fizermos um Mundial?”.  “Aproveitar as estruturas que já estão feitas.” E nós todos nascemos entre quatro palhinhas. “Apenas se prevê um gasto de 150 milhões, vão-se gerar imensas receitas”.  Acho que estamos conversados.  A História deve servir para tirar ilações que nos ajudem a tomar decisões no futuro. Um Mundial ia ser uma boa oportunidade para se gastar dinheiro em inutilidades. I think I’ll pass.

O Euro 2004 foi como uma festa onde toda a gente se embebedou, no fim restavam os copos vazios e o chão pegajoso que ninguém quer limapr, porque a ressaca é grande, tal como o espanto ao olhar para o extracto bancário do último levantamento de 80€ no multibanco ás 3 da manhã, como ainda se teve de pedir dinheiro emprestado para pagar o táxi. Solução? Outra bebedeira.

Mas nem tudo está perdido para a Rússia, parece que Lisboa vai receber 3 jogos no Lidl. E podem sempre desmantelar o estádio do Algarve e vender à Rússia para peças. (Direitos de autor para os piadistas do costume)

Imagem daqui.