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Tinha acabado de entrar no comboio. Já sentado e com a mala arrumada,  apercebi-me que tinha deixado o telemóvel em cima da mesinha de cabeceira. Tive de sair, e resolver o problema antes do próximo. Gosto de ver as horas quando acordo, apenas pelo prazer de ler 11:00 no visor, e não as habituais 7:40 musicadas com o despertador. Esse prazer, que se inflacionou nestes dois últimos meses, custou-me 1 hora de espera na estação. Após alguns telefonemas em cadeia, para um dos dois únicos números que tenho memorizados, o meu pai trouxe-me o tão maldito, como indispensável aparelho.

Uma hora depois, já com o telemóvel no bolso, voltei a entrar no comboio. Volvidos alguns minutos, sentou-se no banco do outro lado do corredor, uma tipa que conhecia de vista da universidade. Ela é o paradigma de um fenómeno social que, ente muitos outros, pude observar durante o tempo que estive na universidade. No departamento de informática havia, essencialmente, dois cursos. O meu, com uma proporção de 100 gajos para 7 mulheres, e o outro mais ou menos misto. As mulheres tinha um comportamento  particular, não só pelo facto de terem escolhido um curso de engenharia, particularmente  informática, mas por serem em muito menor número do que os rapazes, e serem o alvo de todas as atenções. Talvez consequência disso, esta de que falo tem aquela atitude denominada, em linguagem técnica, de “nariz empinado”. É frequentemente confundido, principalmente pela Margarida Rebelo Pinto, com o medo tido por alguns homens, de mulheres bonitas e inteligentes.  Pode-se definir como “És boa, mas perdes metade do encanto com tanta mania, a idade e a vida nocturna encarregam-se de tirar o resto”. Parecem que nos querem culpar do um desejo inevitável, nós que carregamos uma herança genética milenar. Aquela da qual nos socorremos quando queremos generalizar sobre o sexo oposto.

Apesar de não ser particularmente bonita, sempre que passava no corredor do edifício, no inicio da tarde, antes das aulas começaram, quando a matilha se amontoava a falar de placas gráficas, do Benfica e bebedeiras, fazia-se o silêncio cerimonial, a banda sonora do desfile, a versão informática dos assobios dos trolhas. Ela passava e as cabeças giravam com uma deprimente coordenação, que denunciava secamente, o escasso contacto com aqueles seres alienígena tida pela espécie  que habita o planeta Informática. O pensamento colectivo coincidia com o conteúdo de 95% de disco dos PC de cada um. Após o silêncio, olhava-mos uns para os outros com aquela cumplicidade reconfortante que se tem em momentos de uma desgraça partilhada. Houve uma altura que esse sentimento surgia nas fileiras de um batalhão alinhado em frente ao inimigo, prestes a entrar em combate, agora chegamos a isto. É o homem moderno.

Acabou de entrar uma rapariga espanhola, acompanhada pela mãe. Sentou-se à minha frente. Não é bonita. Tem o cabelo encaracolado, loiro, e tem uma ar bastante prático, parece-me descomplexada. Falava  castelhano com aquela dicção cristalina que só se ouve na televisão. Tinha acabado de ler um livro, e falava sobre ele com a mãe. Começou a cantarolar o “Água de Beber” do Tom Jobim. Era aqui que me apaixonava. O triunfo absoluto da personalidade sobre a beleza.