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É difícil de compreender o barulho à volta das mudanças introduzidas na língua portuguesa pelo novo acordo ortográfico. Não estamos perante uma subversão das particularidades da oralidade da língua à masturbação intelectual de alguns académicos, digo isto como português, mas reconheço as claras diferenças de pronúncia que inviabilizam mudanças na secretaria, tal como bebé e bebê.  A palavra peren(p)tório perde a sua determinação com o desaparecimento do “p”, embora seja opcional, já que admite ortografia dupla. O  contra-almirante mantém o seu posto.

A  supressão do hífen  é uma  espécie de depilação ortográfica, um português à brasileira,  beleza estética  no texto que se perdia com os solavancos dos hífenes, restringindo-se estes às palavras que realmente deles necessitam.  No verbo haver, a famosa conjugação “hades cá vir” continuará a soar na Casa dos Segredos, mas escrever-se-à “hás de cá vir”. O que me espanta é a existência desse sinal com tanta abundância. Desde que comecei a ler Saramago, um joalheiro das palavras que as poliu até ao limite do seu brilho, nunca mais fui o mesmo.

E como cada um tem os seus Velhos do Restelo, personagem usada para desqualificar aqueles que não de acordo connosco numa mudança importante, considera-se o acordo um atentado à língua de Lvis de Camões. É um paradoxo. Pouco da língua que hoje falamos, caberia na compreensão poeta. Qual não seria o seu espanto quando se desse conta que lhe roubaram o “c” e o “y” da sua “occidental praya lusitana”.
Bem dizia um dos fundadores da nossa língua, numa espécie de profecia freudiana, encontrando na excessiva sensibilidade patriótica a falta de qualquer concretização anterior, dito isto em plena época dos Descobrimentos por um dos seus activos participantes, na sua pouco aclamada “Peregrinaçam”, subvalorizada pelas razões que nunca mudaram, essas não tem acordo que lhes valha. Porque haveriam de mudar as vontades se não mudaram as gentes, esse afamado de mentiroso, “Fernão, Mentes? Minto!” mal sabiam as más línguas que havia sido antecipado o anti-herói na literatura, um homem só mente se se comprometer a professar a verdade, e não se lhe conhece essa intenção, ou não professou a verdade que mais convinha àqueles que por conveniência patriótica tinham mais olhos para poemas épicos.

O novo Acordo ortográfico pode ser consultado aqui.

PS: Aquando da Reforma Ortográfica de 1911, aí sim, foram feitas profundas alterações no português, quase criando uma nova língua escrita, de que ainda agora se fala “Dantes escrevia-se farmácia com ph, sabias?”. O português escrito, nesse tempo, estava muito mais distante da língua falada, ditongo escrevia-se diphthongo, é um formalismo sem sentido, a não ser que se lesse “difetongo”, dobrando a língua no “th” criando um efeito sonoro inglesado. Eis algumas opiniõ0es inflamadas.

E Teixeira de Pascoaes:
Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavraabysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.[5]

Ainda, Fernando Pessoa:
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.[6]