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Vou falar da mais recente adaptação cinematográfica do romance de Tolstoi, “Anna Karénnina”. Naturalmente, o meu comentário, para além da sua irrelevância na opinião geral, contém spoilers que, para corações mais ansiosos pela adrenalina da surpresa, almas que se desviaram dos caminhos da bungee jumping para as salas de cinema, poderá condenar irremediavelmente a visualização deste filme à apreciação do argumento, diálogos, interpretação dos actores e demais categorias passíveis do escrutínio ínvio de que a arte nos apraz.

Antes de ver o filme, sendo eu um admirador a roçar o idólatra de Liev Tolstói, decidi abordar a versão cinematográfica sem comparar cada parágrafo do romance a cada cena do filme, procurando esmiuçar a mais pequena falha, elevando o escritor aos píncaros da genialidade literária, provando assim a impossibilidade de percorrer o caminho entre o papel e a tela sem deixar cair as entrelinhas, a imagética que se desenha na alma pintada por uma capacidade de descrição da angústia e prazer dos homens que apenas a Deus pede meças. Se uma imagem vale por mil palavras, certamente nenhuma terá sido escrita por Tolstói.

A solução terá de passar por descer as expectativas, e reservar para o filme um quarto livre que o livro não ocupou. A comparação é injusta e irrelevante, no entanto, há várias coisas no filme que apelam à comparação para fins de avaliação do mérito do mesmo. Tenho para mim que a motivação para a concretização deste filme fora a potencial força cinematográfica das cenas do baile onde Vronsky encontra Anna humilhando Kitty, a corrida de cavalos onde Vronsky cai, a visita de Anna ao filho, a cena do teatro onde é humilhada e a sua morte degolada na linha do comboio. Todo o

resto do livro foi uma grande chatice para encaixar no filme, pareceu-me que serviu apenas da massa agregadora das cenas que referi, para que a história não ficasse completamente desfigurada.

A película tem grandes virtudes e grandes deméritos, fatalmente, os últimos superam largamente os primeiros. Começando pelos últimos, o primeiro indício fora a escolha da actriz principal.  Uma inglesa magrinha, a tender para o anorético no papel de uma mulher russa é sabotagem ao filme por parte da direcção de casting. A Keira Knightley seria a última actriz que imaginava no papel de Anna Karéninna. Fisicamente, à excepção dos caracóis sobre a testa e a pele branca, em nada encaixa na imagem criada por Tolstói. O mesmo se passou com Vronsky,  cuja virilidade da personagem exigia uma figura masculina mais imponente. Ambos são superficiais na sua interpretação, não captando a ambiguidade dos seus personagens, capazes de criar simpatias e ódios. Jude law, como Aleksey Karénin, foi o único capaz de criar esta dicotomia,  representando um burocrata profundamente enfadonho e frio, causando desprezo até, pela resistência em conceder o divórcio de Anna, que por sua vez, levou longe demais a sua infidelidade. Tal não fora relevado no filme. O resto do casting parece-me adequado, principalmente Kitty, a menina-mulher, corajosa e bela.

A propósito de escolhas de casting perfeitas, no épico russo “Voyna i Mir” (Guerra e Paz) de 1967, a actriz russa Lyudmila Saveleva é absolutamente perfeita para interpretar a inesquecível Natasha Rostova, que ainda agora me acompanha desde que li a obra. Devia ter servido de exemplo, duvido que tivessem consultado os conterrâneos de Tolstói neste domínio.

Anna Karénina, o filme, clarifica desde início  com a cena da traição de Stiva a Dolly, que a diegese se situará no palco de um teatro, onde as personagens se movem entre o mesmo e os bastidores, sendo esta particularidade interessante, dado que evidencia o carácter cómico das traições do irmão de Anna em oposição ao carácter trágico da traição de Kerénina. Também a aristocracia russa se movia num palco de relações encenadas e papéis rigidamente definidos.

A locomotiva tem uma imagética forte, metaforiza o destino de Anna, o avanço implacável da paixão, fora do alcance da força dos homens, leva-a ao encontro com o seu amante, no fim, acaba por esmagá-la, aço gelado que rompe a carne. Também a sociedade fora uma locomotiva fria e cruel para com a mulher que a ousou desafiar, também eles são o pesado monstro de ferro. É um ponto forte do filme, embora merecesse ser mais explorado.

O filme devia ser intitulado de “Anna Karénnina, Paixão e Morte”, porque deixa cair grande parte do significado da obra, focando-se no martírio daquele trio amoroso, Anna, o marido que despreza e Vronsky, o seu amante.  Esta escolha, por si só, reduz a história a uma novela sobre adultério, a uma comi-tragédia que apenas constitui uma das dimensões do livro. A narrativa do mesmo segue em dois planos paralelos que são vão cruzando harmoniosamente, a história de Anna e Vronsky, e a história de Lévin e Kitty. Lévin é uma personagem identificável com o próprio Tolstoi que no filme não têm muita relevância, parece-me até que a sua história é tratada de uma forma tão desconexa com o resto, que nem parece fazer sentido a sua presença. Lévin é a charneira dos conflitos filosóficos e políticos das diversas personagens representativas de determinada linha de pensamento. Encarna a dicotomia cidade-campo, o conflito entre os mujiques e os proprietários das terras, estes foram capítulos desprezados pelo filme. Não é um detalhe, um albergue para considerações pessoais do autor, esta dimensão constitui uma boa parte do livro e é, para mim, indissociável da história, e a sua ausência transforma o filme apenas numa novela sobre adultério, uma manta de retalhos.

Este livro tem mais de 800 páginas, o filme é de pequena dimensão, é comparar o tamanho do palco onde se desenvolve com o tamanho da Rússia, é esta a distância que os separa. Não poderia ser de outra maneira, em Hollywood já não se fazem “Ben-Hur” ou “Doutor Jivago”, onde os cenários de Moscovo ou a grande arena construída de raíz para filmar uma cena de 20 minutos, dezenas de milhar de figurantes enchiam a tela e dimensionavam o filme como épico. Anna Kerénina rende-se à vertigem do tempo que assola os nossos dias. Esta historia tem de ser ruminada, é preciso dar tempo, viver com as personagens, crescer com elas, viver as suas paixões, os seus medos e ansiedades. Eu compreendo que seja impossível, em cinema, controlar o ritmo da acção tão clinicamente como num livro, o leitor tem a paciência que o espectador (aquel que vê, não aquele que espeta…) investe em pipocas, uma maratona de 4 horas é difícil de digerir, e o espectador tem pressa.

Em suma, o filme não procurou reproduzir o livro, interpretou-o, vestindo-o de cores vivas e roupas vistosas, folhados e uniformes, um visual apelativo que ofusca a profundidade introspetiva do universo tolstoiano, perdeu-se na estética, um erro que explora a postura acrítica, apanágio das massas camuflado por óculos 3D . Anna Karénina é o livro perfeito, o palácio de cristal da literatura, as suas personagens habitam o imaginário do leitor como se da sua vida tivessem feito parte, como fantasmas  convocados pela leitura inadvertida de um livro de encantamentos. Tolstói faz desta romance, um tratado da paixão, desde o inflamar arrebatador no coração espartilhado por convenções sociais, ao tecer do pano de fundo da revolução soviética que se começava a fazer sentir.

O leitor rende-se, o espectador esquecerá.