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Junto-me aos fariseus, e participo em mais um apedrejamento  público movido por fait-divers mais ou menos relevantes nesta praça ensanguentada das redes sociais. O pecado em julgamento é o adultério verbal, a adúltera foi  Camilo Lourenço e a vítima terá sido uma visão alargada, elevada e humanista da sociedade.

“(…) se eu estiver a licenciar pessoas em História, ou pessoas para serem professores, qual é a utilidade para a Economia?”

O Camilo Lourenço é um “character” entre os opinion makers,  um colunista que se destaca pela clareza das suas ideias, e nem todas se medem pela bitola da anterior alarvidade, justiça seja feita. Sendo um liberal, suscita um ódio visceral fomentado por pressupostos teóricos vendidos pela ala ideologicamente oposta à sua, juntado ao caldo o desporto nacional do “ofendidismo”, o qual eu também pratico, aqueles 10 segundos eclipsaram tudo o que ele mais possa ter dito, por mas acertado que fosse. O Camilo Lourenço também não se coíbe de polvilhar as suas declarações com um condimento de sabor capitalista repelindo muitos paladares, pelo que, sabia bem o barulho que iria provocar. Não há almoços grátis.

Arrogo-me de alguma autoridade moral nesta matéria da indecisão vocacional, e mais uma vez insisto no tema,  porque a minha escolha profissional foi pesada pela estatística da empregabilidade. No meu tempo, e dispensam-se grandes esforços de memória, o ensino padecia de um grande lacuna no que a aconselhamento vocacional diz respeito. Quando estava no 9º ano, com 14 anos, tive de fazer uma opção que por si só, limitava à partida o leque de opções relativamente ao acesso ao ensino superior. Quis ser muitas coisas, e confesso que não tinha certeza, nem a mínima noção, da profissão que me poderia garantir realização intelectual e saudar os colegas de trabalho pela manhã com genuína boa-disposição. Sim, este é o meu lado Thomas Moore, não acredito em produtividade sem motivação, e esta não pode dispensar uma escolha vocacional acertada. A vida profissional situava-se num futuro distante, uma realidade enublada.

Fazendo a introspecção possível para um rapaz de 14 anos, fortemente abalado pela revolução hormonal que operava um turbilhão de bipolaridades no meu interior, percebi que  letras seria a opção natural, mas também gostava imenso de Ciências, Física em particular. Este ecletismo atiçava a confusão e a solução que havia na altura reduzia-se ao gabinete da psicóloga,  aconselhamento de cariz voluntário, de certa forma marginalizado, mesmo assim, melhor do que uma hipotética consulta ao Financial Times, como o autor parece sugerir. As perspectivas de emprego na área das Humanidades desequilibraram a balança, as minhas escolhas culminaram Engenharia. Sucumbi ao cinismo dos números. Pragmatismo, dir-se-á nestes tempos de funestas alternativas.

Posto isto, alguma destas questões merece pertinência no raciocínio de Camilo Lourenço? Não. O economista defende uma posição inquinada, padece do corporativismo ideológico desta disciplina que parece situar-se entre a astrologia e a matemática, tomando um pouco das duas consoante as conveniências da linha argumentativa que segue.

O tom provocativo, levando ao extremo a lei da oferta e da procura, numa demonstração reincidente de prostração ideológica perante o capitalismo, procurar acicatar sensibilidades que sempre se exaltam. Repugna-me esta ideologia que subverte a cultura do conhecimento à ditadura dos números absolutos, da qual esta gente é crédula e seguidora. Como avalia ele o contributo das Humanidades para a Economia? Até nesse utilitarismo do qual o Camilo se arroga, falha com a omissão dos números que provam como a economia pode ser lesada com formandos em Humanidades.

Este ecletismo está plasmado no conceito de “liberal education”. Em Harvard, por exemplo, pratica-se esta forma de educação:

“(…) that is, an education conducted in a spirit of free inquiry undertaken without concern for topical relevance or vocational utility. This kind of learning is not only one of the enrichments of existence; it is one of the achievements of civilization. It heightens students’ awareness of the human and natural worlds they inhabit. It makes them more reflective about their beliefs and choices, more self-conscious and critical of their presuppositions and motivations, more creative in their problem-solving, more perceptive of the world around them, and more able to inform themselves about the issues that arise in their lives, personally, professionally, and socially. College is an opportunity to learn and reflect in an environment free from most of the constraints on time and energy that operate in the rest of life.” (Daqui)

O Camilo Lourenço deveria perceber que este contacto próximo com o legado da humanidade, dota o individuo de ferramentas intelectuais importantíssimas para a vida,  muito para além da formação específica de cada um. Particularizando, a práxis social portuguesa é elucidativa desta ausência de  espírito crítico, incapacitando o indivíduo de compreender pontos de vista para além dos pessoais, o espartilho ideológico condiciona as discussões que terminam, invariavelmente, em lutas de egos.

Abstenho-me de puxar por mais argumentos de autoridade, citando personalidades notáveis com cursos de Filosofia, História e demais ociosidades das Humanidades, que ocupam cargos de gestão, tal já foi feito pelos mais variados críticos que subtraíram do seu tempo para alertar as mentes mais influenciáveis, que esta observação do Camilo Lourenço, revela uma estreiteza de espírito, apenas compreensível  como sendo um exemplo infeliz, e não mais do que isso.

“Sem memória não há pensamento, sem pensamento não há ideias, e sem ideias não há futuro.” (Natália Correia)