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De mansinho, deram as caravelas lugar à depilação ortográfica e sem que nada o fizesse prever,  o Novo Acordo Ortográfico dá novos mundos ao Mundo e, à beira-Nilo plantado, sem o brilho dourado outrora emitido pelo “cétro” dos faraós, o “Igito” viu ratificada essa glória perdida pela agudização fonética do seu nome.

O grande argumento do AO é a unificação da ortografia de povos que falam a mesma língua. Tendo em conta as diferenças entre a ortografia portuguesa e a brasileira depois do AO, esse objectivo é de impossível alcance pois necessitaria de uma monumental cedência de uma das partes ou das duas. Aliás, seria necessário um acordo sintático, em última análise, um acordo fonético, para que a unificação fosse relevante, está vendo onde eu estou chegando?

A  aproximação entre a oralidade e a ortografia, alvo da hilariante jocosidade inicial, é uma das bravatas do AO. Com tal propósito, varreu-se cirurgicamente o dicionário castrando os pês e os cês das incautas palavras. Outrora mudas, manhosas se revelam e a nossa ingenuidade não é alheia a este equívoco fonético.  As consoantes mudas ludibriaram-nos e afinal têm uma bela voz que subtilmente cantava entre as suas congéneres e, como as coisas importantes da vida, a sua importância revelou-se na ausência. Viviam na sombra dos tês que, agora solitários, viram a sua orquestra ser amputada da secção rítmica.

Esta aproximação da escrita à forma falada, implementou um regime ortográfico ditatorial em detrimento da segunda, sinal de muito mau ouvido ou de  pior vontade. A título de exemplo, os pivots televisivos, através da leitura mecânica dos telepontos, consequência da boa dicção que os caracteriza,  viram-se no papel involuntário de otorrinolaringologistas das consoantes, revelando-lhes uma saúde de ferro, ingenuamente diagnosticadas de uma mudez que, afinal, é reflexo da nossa surdez.

Se anteriormente manifestei a minha abstenção relativamente a este assunto, o que acima afirmo não é a assunção de uma posição fundamentalista de cariz patriótico. Quando Fernando Pessoa escreveu que a sua pátria é a língua portuguesa, fê-lo no sentido poético e qualquer interpretação literal dessa afirmação como argumento ad auctoritatem, terá de ter em conta que o poeta era veementemente contra o Regime Ortográfico de 1911. Lá teríamos que convocar ambos pê e agá para escrever farmácia.

Em jeito de curiosidade ou fonte de informação, existe, imagine-se, um repositório online intitulado de “Biblioteca do Desacordo Ortográfico” onde estão reunidos vários artigos a malhar duro no AO com mais alguma eloquência do que as caixas de comentário do JN. Destaco o artigo “Dos Trolhas”  de António Guerreiro extraído da coluna Estação Meteorológica do Ípsilon, uma das mais interessantes que se pode ler no que a artigos diz respeito.