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Lore é um filme excepcional e uma personagem causadora dos mais contraditórios sentimentos. A inocência infantil de uma jovem rapariga alemã é profanada pela maturidade precoce imposta pela força dos acontecimentos e pela ideologia da Juventude Hiteleriana.

Um sentimento malévolo move-se livremente pelo filme, em cada olhar masculino há uma violação insinuada, potenciada pela pela sensualidade visceral de Lore (Saskia Rosendahl), um espelho da ausência de humanidade, da redução do Homem ao ser amputado pela guerra da sua conduta moral.

Resumidamente, é a história cruel de Lore e seus irmãos numa viagem pelos escombros da Segunda Guerra Mundial numa Alemanha ocupada pelas forças aliadas, em direcção à casa da sua avó, a esperança de um refúgio. Durante o caminho, Lore vai acumulando dúvidas que minam a sua implantada crença sobre si mesma como alemã e mulher.

A Segunda Guerra Mundial não é um capítulo fechado, quer na ficção quer na História, terreno fértil para grandes livros cuja sobriedade é directamente proporcional à distância no tempo que separa o julgamento do acontecimento. Este filme não se refugia no maniqueísmo, manipulando as emoções em direcção a um ponto de vista, nem assume o papel de advogado do Diabo, situa-se na ténue linha. Alemães incrédulos com o Holocausto que viam em fotografias julgando ser propaganda da Aliança, é a metáfora perfeita do surrealismo deste acontecimento trágico que muito vitimou quem sempre é apontado como agressor.

É um filme cru, dá voz a um  tema controverso que padece de um silêncio embaraçoso, abafado pelo horror que o precedeu. Durante a ocupação da Alemanha, estima-se que terão ocorrido milhões de violações de mulheres alemãs, despojos de guerra do Exército Vermelho. A violência não tem pátria.

Imagem daqui.