Tags

, , , , , ,

Concedo a mim mesmo, o atrevimento para falar desta belíssima obra de Lev Tolstói. Não quero, com esta adenda inicial, transparecer uma reverência que, perante esta montanha que se ergue sobre o planalto da literatura, é o sentimento que vem após o arrepio da universalidade que se assoma pela coluna. Quero falar do que senti, foi a mesma experiência que vivi em “Guerra e Paz” e “Anna Karénina”, onde temas muito díspares são tratados com uma sensibilidade supra-humana, do mais belo ao mais cruel, do beijo suave na pele nívea de Natasha Rostova, à fractura exposta do cavalo extenuado a puxar um canhão trepando uma encosta enlameada. Foi tudo dito por Tolstói, sobram apenas as obsessões pelo estilo e pequenas particularidades.

Não ouso empreender no processo puramente académico de dissecação de um livro, aplicar na Literatura o atlas anatómico de Vesálio, e é um exercício inútil, é uma profanação. É como abater uma árvore centenária para analisar a sua estrutura orgânica, contar os anéis anuais, elaborar sobre o floema e os feixes vasculares. Um leitor prostra-se perante a sua beleza, deita-se à sua sombra, enternece-se com as suas cores outonais, compadece-se pelas folhas reviradas pelo vento, chora pela sua perda como se uma pessoa fosse.  O que são as figuras de estilo, para além das palavras certas no lugar onde deveriam estar? O que é uma corrente artística, senão a realidade a gritar aos ouvidos do criador?

Durante o livro, alheei-me desta maravilhosa invenção do homem que é a leitura, cavalguei ao lado da Hadji-Murat, fui russo, fui tchetcheno, fui homem e mulher, senti o cheiro a pólvora, as balas no corpo, empunhei sabre e o punhal, queimei aldeias, fugi para as montanhas, matei e morri.  Alheei-me de Tolstói. Não lhe posso prestar maior homenagem. Vivi.

O mais persistente lugar-comum na crítica literária é afirmar que as personagens criadas por Tolstói vivem com o leitor, são mais íntimas e reais que pessoas em concreto que conhecemos durante a vida, a sua verosimilhança é tão poderosa que os cães e cavalos assumem uma personalidade. Não estamos perante uma narrativa, é uma ilusão de biografia.

Ontem e hoje conheci Hadji-Murat, que não sendo uma personagem de ficção, não se distingue das demais que o são. Foi um importante líder ávaro na luta contra a integração da Tcehtchénia e o Cáucaso no Império Russo. A distância temporal que nos separa da acção, um misto entre ficção e factos verídicos, que ocorreu entre finais do ano 1851 e Maio do 1852, dá-nos a noção deste conflito perpétuo que parece ser apanágio daqueles dois povos. A memória ainda está fresca com os telejornais abrirem com imagens de corpos deitados em linha na beira de uma estrada.

Hadji-Murat aliou-se aos russos por desavenças profundas com o imã Shamil, líder religioso das tribos muçulmanas do Cáucaso, que raptou a família de Murat por vingança, mantendo-a em cativeiro, ameaçada de morte. A angústia por uma resolução feliz da frágil situação da família de Murat, é mantida em suspenso durante todo o livro, será a micronarrativa que solidifica todo o enredo, mantendo unidas todas as divagações políticas e apresentações de personagens numa estrutura única.

Foi a última obra de Tolstói, publicada postumamente a pedido do próprio. Nela estão bem patentes algumas características de “Guerra e Paz”, onde é realçada a camaradagem entre soldados e a coragem em batalha. É questionada a bestialidade da guerra, através das secas descrições de vários episódios sangrentos sem nunca perder o leitor em detalhes escusados, o realismo no seu apogeu. Critica várias personagens do seu tempo, caso de Nicolau I, czar da Rússia, que considera um tirano, rebeldia que lhe causou dissabores.

Nas notas que constam no final do exemplar que tenho em mãos – Relógio D’Água, Julho de 2009 – dá-se conta da interessante evolução do livro, através de extractos do diário do próprio autor. É interessante perceber a extensa pesquisa de fontes históricas por parte de Tolstói, e a sua desilusão e ânimo com a evolução da obra que, entretanto, foi interrompida durante três anos para a escrita de “Ressurreição” e “Pai Sérgio”.  Foi escrita e reescrita, lida e relida, corrigida várias vezes, até tomar a forma final, num fascinante processo de lapidação de uma jóia.

Finalizo com um canção que resume a ligação visceral com a terra dos guerreiros montanheses, a canção preferida de Hadji-Murat, fala sobre a vingança de sangue, cantada pelo seu irmão de sangue e companheiro de armas, Khanefi:

“A terra na minha campa fica seca, e esqueces-me, ó minha mãe. As ervas cobrem o cemitério e a bafam a tua angústia, ó meu velho pai. As lágrimas secam nos olhos da minha irmã e a amargura abandona o seu coração.

Mas não me esqueces tu, meu irmão mais velho, enquanto não vingares a minha morte. Também tu, meu segundo irmão, não me esqueces até que te deites ao meu lado.

És quente, ó bala, e levas a morte, mas não foste tu a minha escrava mais fiel? Terra negra, vais cobrir-me o corpo, mas não era o meu cavalo que te pisava? És fria, ó morte, mas não fui eu o teu senhor? A terra toma o meu corpo, o céu recebe a minha alma.” (pág. 97)