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De imediato se reconhece a escola literária à qual esta obra de Ivan Turguéniev pertence. O processo de caracterização das personagens, claramente influenciou Tolstói, com quem Ivan Turguéniev se desentendeu mais tarde. Esta comparação – apesar de inútil pois são autores diferentes, mas ambos mestres na ilusão de vida durante a leitura e foram contemporâneos – é razoável, o que não acontece se compararmos com Dostoiévsky, autor que prescrutou os obscuros recantos da psicopatia anti-social, consequência do seu género literário e de uma experiência de vida no limiar da miséria. Tolstói e Turguéniev foram aristocratas, privilegiados, factos que não favorecem ou desfavorecem a qualidade da sua literatura, mas certamente influenciam nas temáticas tratadas.

Pais e Filhos é uma obra sobre o conflito ideológico e familiar entre gerações, essencialmente. A acção vai-se movendo entre o seio de duas famílias diferentes, cada uma respectiva a cada um dos personagens principais: Eveguéni Vassíliev (Bazárov) e Arkádi Nikoláevitch Kirsanóv. Não se limitando a esses dois centros, a acção desloca-se para a sala de estar e jardim de Anna Serguéievna Odíntsova, uma viúva jovem e rica que vive com a irmã mais nova, Katerina. Posto nestes termos, o enredo poderia resvalar para uma comédia de costumes bastante óbvia, mas o emparelhamento que existe entre estes quatro, é apenas a moldura para relacionamentos pouco convencionais entre uma feminista (pelo menos insinua uma mulher emancipada em Anna) e um niilista (Bazárov); e a luta contra o poder de influência que estes dois têm em Arkádi e Kátia. As personagens não são submetidas a um enredo que precisa delas para tomar sentido, esse mesmo enredo é consequência da personalidade das mesmas, força impulsionadora de determinadas acções ou atitudes que surgem naturalmente.

Arkádi admira Bazárov, com quem estudou na faculdade, nunca ficando esclarecido como se conheceram apesar dos constantes parágrafos biográficos que Turguéniev fornece. Tal recurso marca uma diferença bastante importante entre a caracterização das personagens por parte de Turguéniev relativamente a Tolstói. O primeiro cria personagens bastante angulares, digamos que as precisa de destacar claramente as suas características para dar força ao livro (caso de Bazárov), de certa forma manipula-as em alguns momentos, Tolstói cria personagens mais polidas, dá-lhes vida própria e estas fluem com naturalidade, daí a verosimilhança das mesmas tão elogiada na sua obra. Não é com rigidez que faço este apontamento, apenas se verifica em algumas situações, nesta obra, Turguéniev criou momentos brilhantes de intimidade nos diálogos. As conversas entre Bazárov e Anna Odíntsova, o melhor do livro para mim,  transmitem uma tensão e luta interior de quem não quer assumir sentimentos, não por orgulho mas porque não acredita no carácter sagrado do amor. Sem nunca resvalar para o romantismo e entediante, são intensas e emotivas, inteligentes e fluídas. A incapacidade de Bazárov em lidar com a paixão, ele que sempre se mostrou sólido e firme nas suas convicções, ao ponto de aceitar um inesperado duelo com o tio de Arkádi, é um dos pontos mais marcantes da obra. Aliás, para mim, é o ponto fulcral, um niilista, um homem que despreza a aristocracia ou qualquer instituição e afronta-as com insolência e coragem, não é capaz de lidar com o amor por uma mulher, sucumbe à natureza sem qualquer vislumbre de resistência, fracassa.

“(…) Bazaróv estava de pé de costas para ela – Pois então fique a saber que eu a amo estupidamente, loucamente…Aí tem o que procurava ouvir.

Odíntsova estendeu as duas mãos para a frente, mas Bazaróv encostou a testa ao vidro da janela. Estava ofegante: todo o seu corpo tremia visivelmente. Mas não era uma tremura de timidez juvenil, nem era o delicioso pavor da primeira declaração de amor que o dominava: era a paixão que nele se agitava, forte e penosa, uma paixão parecida com a raiva, e talvez aparentada com ela…Odíntsova sentia ao mesmo tempo medo e pena dele. (…)” (pág. 114)

É um toque de humanidade que Turguéniev orquestra magistralmente. A força de Bazaróv também reside em lidar com o fracasso, não atribuindo grande importância aos sentimentos, mas tal como fica patente na situação anterior, penso tratar-se de um mecanismo de defesa com laivos de sinceridade ao reconhecer a sua incapacidade, uma pureza que desperta simpatia.

“(…) fomos os dois cair numa sociedade de mulheres e foi agradável para nós, mas abandonar essa sociedade é como tomar um banho frio num dia de calor (…) Pois tu – acrescentou, voltando-se para o mujique (trabalhador rural na Rússia) sentado na boleia (caleche onde seguiam) – tu sabichão, tens mulher?

O mujique mostrou aos dois amigos a sua cara chata e míope.

– Mulher? Tenho. Como não havia de ter mulher.

– E bates-lhe?

– À mulher? Tudo pode acontecer. Sem motivo não se lhe bate.

– Muito bem. E ela, bate-te a ti? – O mujique puxou as rédeas.

– As coisas que tu dizes, senhor. Estás sempre a brincar… – Pelos vistos ofendeu-se.

– Estás a ouvir, Arkádi Nikoláevitch? E a nós dois espancaram-nos…é no que dá sermos pessoas instruídas.” (pág. 123)

É uma personagem fascinante que mexe com o leitor, pela sua constante rejeição, até mesmo da arte ou da beleza fascinante da Natureza.  Esta obra causou polémica na Rússia, através dela o termo niilismo fora popularizado, note-se que Turguéniev fora o autor russo mais famoso do seu tempo, ao contrário do que acontece na nossa contemporaneidade onde, incompreensivelmente, é um autor relativamente obscuro. A Rússia atravessava um período de quebra com o passado czarista, antecipando a mudança radical que mais tarde se concretizaria, começando aqui a ferver em lume brando até à ebulição. Sem querer, Turguéniev criou o primeiro bolchevique com Bazárov.

Os conflitos entre pais e filhos representam esse conflito geracional. Fica patente, desde o início do livro, a insolência dos dois jovens perante as coisas relativas à geração paternal, que as consideram como antiquadas e inevitavelmente ultrapassadas, substituídas pelo ideal do homem novo, avesso à aristocracia e o seu autoritarismo.

Num plano completamente diferente daquele onde se desenrola o agudo conflito, mas que acabam por se cruzar através do amor maternal que faz florescer até nos seres mais agressivos, um sentimento de pertença familiar, surgem duas personagens secundárias na sua prevalência na narrativa, mas importantes pela revelação de carácter que instigam nas personagens principais: Fenichka, uma jovem tímida de quem o pai de Arkádi tinha um filho, mas não eram casados, causando uma certa repulsa moral a Pável (tio de Arkádi); e Arina Vlassievna, a mãe extremosa de Bazárov que, com o seu amor maternal, saudade e preocupação com o filho, contrastava com a frieza sentimental niilista, causando também, de certa forma, alguma repulsa pelo radicalismo artificial da ideologia, reduzindo-a quase a um devaneio de juventude.

É uma obra fascinante, Vladimir Nabokov afirma ser um dos grandes romances do século XIX, estatuto que merece por inteiro, bem como a sua atenta leitura.