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Éramos alunos do segundo ano,  estávamos no Departamento de Informática à espera da nossa vez para apresentar um trabalho para uma cadeira de programação, que consistia em código e um relatório. Começámos por denunciar a categoria do dito cujo ao esperar no rés-do-chão, quando a apresentação deveria ser feita numa sala do primeiro andar, atrasando-nos uns dez minutos. “Pensávamos que era noutra sala, estávamos lá em baixo…”, dissemos cabisbaixos, antecipando mais uma jornada épica na gloriosa carreira académica. “Às vezes também estou em casa…”, o sarcasmo sem pudor era a imagem de marca daquele professor, uma espécie de Seinfeld melancólico.

Sentámo-nos nervosamente, pousámos o relatório mesa, o professor pegou nele, eram 3 páginas “úteis” mais umas 20 com código. “Isto é que é o vosso relatório?”, perguntou ele. Sussurramos um sim a medo. “Agora a sério, isto é que é o vosso relatório?!”.

Uns doze anos depois, eu sou aquele professor, Paulo Portas é o “eu” daquela apresentação e o Guião da reforma do Estado é o relatório do trabalho. Antes de mais, este guião – pode ser consultado aqui – tem um detalhe  delicioso, não respeita o novo Acordo Ortográfico. De imediato, dei de caras com as saudosas palavras “actuando” e “percepção”, alternadas com o amputado “objetivo”. Das duas uma, ou a revogação do acordo faz parte da reforma do estado e o Benfica vai ganhar a Liga dos Campeões, ou copiaram pedaços do livro de Pedro Passos Coelho, ainda redigido antes da aplicação do AO. Inclino-me para a segunda hipótese.

E faz todo o sentido, são preciso dois anos e meio para formatar aquele documento, provavelmente tiveram que contratar um programador –  a recibos verdes – para criar uma macro em Visual Basic, que introduzisse espaçamentos e tamanhos de letra que o Word não suportava, para que a coisa chegasse às 112 páginas e os míopes não estranhassem.

No documento pode-se encontrar sagazes vaticínios e engenhosas propostas, senão vejamos:

“A situação de emergência financeira levou a um conjunto de efeitos políticos, económicos e sociais que, legitimamente, a sociedade portuguesa não deseja repetir.” (pág. 10) Não, queremos mais! Sei lá, um segundo resgate ou um programa cautelar, qualquer coisa até 2050, uma espécie de monarquia económica. Puseram a vírgula depois do “que”, já não está mau.

“Do ponto de vista do modelo de ajustamento, não tendo o actual Governo negociado o Memorando, recebeu, no entanto, o encargo de o cumprir, sendo evidente que só uma atitude globalmente cumpridora melhoraria a confiança no nosso país.” (pág. 11) isto não tem nada a ver connosco, nós não queríamos, fomos obrigados, tentámos evitar ao máximo, no “além da troika”, suponho.

Este portento de argumentação política vai-se arrastando, mais à frente, lá aparecem as propostas. O Governo quer, imagine-se, aumentar a eficiência, desburocratizar, promover o debate e  a discussão inter-partidária. Eu sugeria contratarem a Fátima Campos Ferreira, pelo menos as grandoladas não chegavam a meio, as palmas já comem por tabela.

Gostava de saber a opinião do Nuno Crato, Ministro da Educação, que se pugna pela exigência, acerca desta vacuidade, monumento ao desprezo intelectual que estas pessoas têm pelo povo português. É penoso ler aquilo,  estes políticos escrevem de ouvido, o guião é  apenas um salpicar de chuviscos ideológicos, inócuo, um exame de um mau aluno, uma chico-espertice.

Aqui, aqui e aqui.