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Livres como Livros é um projecto idealizado por duas professoras da FLUP, Isabel Pereira Leite e Isabel Morujão, com o intuito de promover a leitura, que decorreu entre Outubro de 2012 e terá as suas últimas sessões em Dezembro de 2013. São convidadas várias personalidades dos mais variados sectores da sociedade – escritores, jornalistas, advogados, engenheiros, etc – para falar de uma paixão em comum, os livros.

O projecto aborda os livros dos pontos de vista do ofício – escrita, edição, venda, etc – e da leitura, dividindo-se em dois sub-programas: “Livros da Minha Vida” e ” A Arte de Sermos Livros”.

Assisti a algumas das sessões, e ouvi testemunhos admiráveis de grandes leitores e excelentes comunicadores. Pessoas que são capazes de transmitir o sentimento de assombro que a literatura proporciona, excelentes contadores de histórias como Germano Silva é.

Mas, esporadicamente lá surgia o lamento de que as gerações mais novas não lêem e não sabem escrever. Tenho muita dificuldade em digerir críticas com base em diferenças geracionais, mesmo quando seu eu próprio a fazê-las, sinto uma incómoda ardência no palato. Não vou contestar o facto de haver um problema de comunicação oral e escrita, mas são dispensáveis as comparações etárias.

Não se pode falar desta dificuldade, esterilmente diagnosticada, sem a enquadrar juntamente com a  democratização do ensino – a avenida principal do desenvolvimento português e o mais belo episódio da nossa História colectiva – num contexto de elevada iliteracia.

Essa democratização privilegiou a minha geração de um contacto com o conhecimento, desde a escola primária ao ensino superior, que a geração dos nossos pais não teve  acesso através do ensino. Percorrendo a árvore genealógica no sentido ascendente, cada vez mais se escasseia o contacto cultural, substituído por uma sachola nas mãos desde tenra idade, desde que o finos braços possam com ela.

É uma herança pesada, exigir qualidade na escrita ou cultura literária a toda a massa estudantil, é não perceber que não se pode construir castelos na areia. Vai demorar tempo até que solidifiquem os alicerces, até que entre gerações se multiplique a cultura de conhecimento, o prazer na curiosidade que viabiliza a literacia como causa natural.

Entendo a frustração de um professor, mas melhor entendo a frustração de um aluno perante a inutilidade prática do conhecimento que lhe procuram despejar dentro da cabeça. Como dizia Agostinho da Silva – o avô do povo português – o que é necessário num país  é haver os três S: Sustento, Saber e Saúde. A Portugal faltou muito o primeiro, sem o qual, o segundo não se sustenta.