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Como blogger, não posso deixar de sentir um azedume que me arranha a garganta  ao inalar a malina que ascende pelos poros deste árido solo das “redes sociais”, mas livre de qualquer espanto, esboço apenas um sorriso cínico no canto da boca perante a indignação indiferente face ás revelações  um blogger profissional – é como ser um profissional à bisca lambida.

Numa entrevista à revista Visão, Fernando Moreira de Sá, alguém ligado à estratégia de comunicação do PSD, revelou com que pontas se urdem as campanhas negras que inundam as “redes sociais” com a cadência de ondas na areia. Sinto-me na obrigação de agradecer ao Fernando Moreira de Sá pela sinceridade com levantou a cortina para os bastidores, é como assistir aos julgamentos dos delatores da Máfia nos EUA, dão grandes séries e filmes, mas acabam, invariavelmente, com cimento nos pés, e não é no passeio de Hollywood. A entrevista é muito esclarecedora dos meios e do soldo, eis alguns excerto:

“Mas não sou parvo: por trás disto tinha de estar Miguel Relvas, um visionário quanto à importância das redes sociais para levar o Passos aonde chegou. Não éramos anjinhos. Sabíamos bem ao que íamos.”

“Por exemplo: existia um mail acessível a um grupo fechado, através do qual recebíamos informações, linhas gerais, provenientes de quem estava a preparar o programa do Passos. No início, nem sabíamos quantos éramos. Cada um desenvolvia aquilo, nas redes sociais e na blogosfera, à sua maneira. Utilizávamos isso no Fórum da TSF, no Parlamento Global, da SIC, no Twitter, etc. No último confronto televisivo entre os três candidatos à liderança [Passos, Aguiar Branco e Rangel], condicionámos o debate. Só eu tinha três computadores à minha frente, em casa, além do telemóvel. Antes do debate, já tínhamos tweets preparados para complicar a vida ao Rangel. Nos primeiros minutos, começámos a «tuitar» como se não houvesse amanhã, dizendo que o Rangel estava nervoso e mais fraco do que o esperado. Criou-se um ambiente negativo que se propagou rapidamente. Ao fim de cinco minutos, ríamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que dizíamos! E o debate tinha apenas começado…”

“Álvaro Santos Pereira, do Desmitos, foi para ministro da Economia; Carlos Sá Carneiro entrou para adjunto do primeiro-ministro; Pedro Correia foi para o gabinete do Relvas; Luís Naves também, mais tarde; João Villalobos para a secretaria de Estado da Cultura; Carlos Abreu Amorim para deputado e vice-presidente do grupo parlamentar; António Figueira, do Cinco Dias, e de esquerda, foi trabalhar com o Relvas; Francisco Almeida Leite para o Instituto Camões; Vasco Campilho foi para algo ligado aos Negócios Estrangeiros; José Aguiar para o AICEP; Pedro Froufe para a comissão de extinção das freguesias; o CDS também recrutou no 31 da Armada. Houve outros. Só em ministros, secretários de Estado e assessores foi uma razia em blogues como o Albergue Espanhol, o 31 da Armada, Delito de Opinião, O Insurgente, o Blasfémias, etc.”

“A contra-informação era a praia do grupo [de Passos Coelho] à volta de Sócrates. Tínhamos nick names para as redes sociais, perfis falsos no Facebook e por aí adiante, mas éramos uns meninos do coro comparados com os tipos dele. Não há virgens nisto(…)”

Não, virgens não há, aliás, a blogosfera perdeu a inocência à nascença, a pólvora também fora inventada para os fogos-de-artifício. Esta armada digital inaugurou em Portugal esta forma de fazer campanha. Aproveitando a imbecilidade acrítica das redes sociais polvilhada pela destemperança latina, alguém que apenas recita uma cartilha de duvidosa proveniência, ganha umas eleições legislativas.

Do outro lado da trincheira, por favor, poupem-se à humilhação da hipocrisia em mostrarem-se ofendidos.

Gozando da bonomia do anonimato, o meu blogue não é inocente, mas apenas serve as minhas conveniências, dispenso os trinta dinheiros, não dispenso a liberdade de pensamento.

Campanha e propaganda política para as massas é apanágio dos partidos da oposição do século XX,  mas a tremenda eficácia da difamação digital é chocante, e nem sequer tem o romantismo das reuniões secretas em caves húmidas na Rússia, ou o compadecimento com a mãe do activista preso que prossegue a sua distribuição de panfletos vermelhos aos operários da velha fábrica…