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Esta obra de Tolstói não é uma novela, não é uma romance, é uma prodigiosa reflexão sobre a teatralização consentida das relações entre homens e mulheres, sustentada nos alicerces da irracionalidade aleatória das paixões.  Esse consentimento é inconsciente pois o casal que parte para uma relação conjugal segundo os trâmites convencionados, só se aperceberá da sua situação já imerso na profunda infelicidade.

“A salvação e o martírio do homem consiste no facto de levar uma vida aberrante mas poder toldar de tal maneira  a consciência que não nota a calamidade da situação.” (pág. 66)

Ao afirmar que a Sonata Kreutzer não se trata de uma romance, não estou a excluir a existência de uma narrativa, ela existe, mas funciona como  a espinha dorsal que sustenta o ensaio argumentativo defendido através do relato na primeira pessoa dos acontecimentos que o  precipitaram a assassinar a esposa. Ao longo da sua narração, identifica vários episódios que caracterizam uma vida conjugal infeliz, numa demonstração do mais lúcido e visceral cepticismo.

O livro inicia com uma troca de argumentos entre uma mulher que defendia a emancipação feminina através da liberdade de escolha, e um velho que defendia o matrimónio nos moldes clássicos, “Um domostrói ao vivo – disse a senhora – Que noções bárbaras sobre a mulher e o casamento!” (pág. 15). Domostrói é uma obra literária do século XVI que contém as regras a seguir por um citadino em relação às autoridades, à Igreja, à família e aos criados. É exigida a obediência da mulher e dos filhos ao chefe de família. Assim está o termo descrito nas notas da edição que possuo.

Este antagonismo entre as duas visões de uma relação conjugal, será desconstruído ao longo da obra, partindo para uma concepção mais profunda das relações. Uma perspectiva que antecipa contra-argumentos a correntes ideológicas modernas que ainda hoje não foram contrariados. As seguintes passagens são bastante esclarecedoras do tom da narrativa. Tais conclusões não se devem apenas ao desencanto de um homem.

Uma observação sem complexos, ausente de maniqueísmo e preconceito,  dos mecanismos que desencadeiam a atracção, permite uma aferição semelhante. Descarnando tais mecanismos do lirismo pudico, emancipando-se do conforto no politicamente correcto, um Schopenhauer enraivecido, agrilhoado pelo remorso, o narrador, Pózdnichev, afirma:

“(…) o domínio das mulheres com que todo o mundo sofre é causado pela mesmas coisa. (…) o fenómeno extraordinário de a mulher, por um lado, ter sido empurrada para a mais completa humilhação, mas, por outro, dominar tudo. (…) Actualmente, a mulher está privada de um direito que o homem possui. Em consequência, para compensar a falta desse direito, ela influencia a sensualidade do homem e, através da sensualidade, domina-o de tal maneira que ele só formalmente faz a sua escolha, quem escolhe de facto é ela.” (pág. 37 e 38)

“Antes de me casar vivia como todos, ou seja, na depravação, e, como todos os homens do nosso círculo, ao viver na depravação tinha a certeza que vivia com decência. (…) A perversão não consiste me nada de físico, porque nenhuma porcaria física é perversa; a perversão, a verdadeira, consiste precisamente no facto de o homem se libertar da sua atitude moral respetivamente à mulher com quem entre em relações físicas. (…) Lembro-me de como fiquei atormentado quando, uma ocasião, não tive oportunidade de pagar a uma mulher que, pelos vistos apaixonada por mim, se me entregou. Só fiquei descansado quando lhe mandei o dinheiro, mostrando com isso que não me achava vinculado a ela moralmente.” (pág. 21 e 22)

“Emancipa-se a mulher nos cursos superiores e nas instituições públicas, mas olha-se para ela como instrumento de prazer. (…) O liceu e os cursos superiores não poderá mudar esta situação . Apenas poderá mudá-la a alteração de atitude dos homens para com as mulheres e a atitude das mulheres para consigo próprias. A mudança apenas acontecerá quando a mulher começar a considerar como estado superior o seu estado de virgem (…)”  (pág. 54)

Para resolver este dilema entre o desprezo e a sujeição, Pózdnichev sugere a castidade, a abstinência, a renúncia a essa condição animal da pulsão sexual. De forma alguma a solução da castidade é satisfatória, e não creio que Tolstói a considere definitiva, mas esta fragilidade sugere a dificuldade dos seres humanos em lidar com a linguagem obscena da Natureza, o texto está repleto dela e Tolstói nãos e coibiu de usá-la. Tal como se remexêssemos a folhagem de Outono que cobre o jardim e encontrássemos asquerosos bichos e larvas na terra fresca, também a folhagem com que nos cobrimos esconde essas pulsões ctónicas que nos desequilibram e envergonham.

A Sonata de Kreutzer existe na forma musical – Sonata No 9 Op 47 de Beethoven – e penso que seria um lirismo exacerbado estabelecer um paralelo entre a tensão crescente da narrativa com a sonata, a música surge na obra como alvo de profanação pelo ciúme, um recurso clássico quando se procura relevar o contraste entre o belo e o grotesco. A insuportável relação entre Pózdnichev e a sua esposa é assombrada pela entrada em cena de Trukhatchévski,  um violinista que, pelas suas maneiras e talento, rapidamente  conquista a simpatia da esposa que também adorava música e tocava piano. O dueto que ambos protagonizam num serão entre amigos, interpretando precisamente a Sonata de Kreutzer, desperta um ódio incontrolável em Pózdnichev ao constatar que o violinista e a sua esposa partilhavam através da música algo de belo que no casamento entre ambos nunca ocorrera.

Há um episódio nesta obra que corresponde a um apontamento biográfico do próprio Tolstói. Tal como o escritor, Trukhatchévski, antes de casar entregou o seu diário à noiva para que ela conhecesse a sua intimidade passada, onde estavam descritas doenças venéreas que contraiu em bordeis que frequentou na juventude. É uma sinceridade desconcertante, por isso escreveu as obras-primas da literatura.