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No ano passado, em Março,  fiz um belo passeio pelas terras de Trás-os-Montes e uma das paragens foi Miranda do Douro. Estacionei o carro perto de uma torre em ruínas e, sob um sol escaldante que antecipou o amadurecimento da Primavera,  fui derretendo rua abaixo caminhando sobre uma estranha pedra – eu que sou minhoto fascino-me com cada detalhe que tanto contrasta – até chegar a uma bela Igreja, a Antiga Sé de Miranda.

“Até I meio de I sec. XVI, la grandura de l’Arquidiocese de Braga nun deixaba que I pastor apostólico besitasse muitas bezes las sues oubeilhas transmontanas, que quedában mui longe. Por isso, I Papa Paulo III a pedido de I Rei D. Joan III,criou an 1545 la nuoba dioucese de Miranda.” Assim me informou uma placa que insiste em manter vivo o mirandês, língua transfronteiriça. Entrei na Igreja, e a minha incursão pelas memórias desta terra foi animada pela estranha indumentária com que vestiram o menino Jesus que figurava num dos altares, o Menino Jesus da Cartolinha assim lhe chamam, pequena estatueta de madeira de uma criança vestida com pequenas roupinhas coloridas e na cabeça uma pagã cartola. O nosso imaginário descomprometido nunca deixará de me surpreender.

A Sé é  ladeada por uma pequena praça, onde desagua uma rua que vai dar ao Centro Histórico. Várias são as lojas que a enfeitam, desde as habituais toalhas e naperões para espanhol comprar, até aos capotes de palha e caretos. Numa das lojas estava afixado um poster com um simpático burro a mirar-nos nos olhos, no fundo do poster dizia assim: “Burros há muitos, mas estes estão em extinção”. Trata-se do burro mirandês, uma espécie em vias de extinção.

Recentemente,  o New York Times, que se lembra de Portugal de vez em quando e não se costumam enganar, também veio a Miranda conhecer este animal. O incauto repórter procurou fazer um paralelo entre o declínio desta espécie com o da própria Europa, particularmente Portugal. Quer o burro, pela sua substituição por máquinas agrícolas modernas tais como o tractor; quer os portugueses, pelo seu declínio etário, padecem de uma sobrevivência dependente de subsídios.

Foi aqui que a porca torceu o rabo, ou o burro deu o coice, e a outra espécie que mal afama o dócil burro, mas em quantidade superlativa e metade das patas, soltou o  vernáculo vicentino, e já os cascos ribombam nas praças das “redes sociais”.

Eu tinha mais calma. Lambuzam-se uns com o que aos outros repele. Nós, os portugueses, enchemos a boca com a maledicência gastronómica se da América falamos por isso temos de ter algum estômago. Tivesse o repórter do NYT comido uma bela posta mirandesa bem regada e seria acometido por uma sonolência tal, que adormeceria à sombra do raro arvoredo de Trás-os-Montes, e ter-se-ia evitado conspurcar assunto tão sério com tão alienígena observação ideológica. Mas sejamos justos, de PIGS para donkeys, é uma promoção.

Que culpa têm os burros que toda a vida trabalharam, para agora serem ameaçados de extinção porque as contas estão inquinadas para o lado esquerdo do zero?