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“As pessoas fracas, ao conversarem consigo próprias, gostam de recorrer às expressões enérgicas”  (pag 136)

Entre a  grandes lutas ideológicas de “Pais e Filhos” (1862)  e “Solo Virgem” (1877), sentindo o calor que emanava do lume brando que aquecia a posterior revolução política e social russa, Ivan Turguénev escreveu o intimista “Águas de Primavera” (1872), uma revolução interior que, para Dmítri Pávlovitch Sánin, pede meças à primeira nas mudanças dramáticas que é capaz de operar.

As águas da Primavera são recordações no Inverno da vida de Sánin, águas calmas que sucumbiram ás amarguras que do fundo emergiram, assim começa:

“Sacudiu a cabeça, saltou da poltrona, passeou duas vezes pela sala, sentou-se à mesa de trabalho e, puxando uma gaveta após a outra, pôs-se a remexer nos seus papéis, nas cartas antigas, cartas de mulheres, na sua maioria. (…) Enfiando pressurosamente as mãos ora numa, ora noutra gaveta, de repente abriu muito os olhos e, tirando devagar uma pequena caixa octogonal à moda antiga, levantou a tampa, num movimento também lento. Na caixa, debaixo de dois estratos de papel amarelado, estava uma pequena cruz de peito guarnecida de granadas. (…) No seu rosto desenhou-se uma expressão indefinida (…) de quem encontra inesperadamente uma pessoa que há muito perdeu de vista, que outrora amou com ternura e que, agora, ali está de novo à sua frente, a mesma e, no entanto, outra, mudada pelos anos. Recordou…” (Pág. 8 e 9)

Este extracto pode fazer supor um prelúdio à lamechice, mas rapidamente, com o início de relato, limpam-se as lágrimas e a tentação seguinte é considerar “Águas de Primavera” uma comédia de costumes com o pano de fundo da paixão inesperada, temperada pela bonomia da ópera italiana e da canção alemã entre um piano e chávenas de chã. Desfilam as personagens-tipo protagonizando situações desconcertantes, a ironia é permanente.

A caracterização das personagens é o grande trunfo dos escritores russos, centram-nas na história e dão-lhes vida como quem planta uma árvore. A rapariga de caracóis escuros sobre os ombros desnudados, Gemma, irrompe pela obra e de imediato apaixona pela sua sensibilidade e preocupação com o irmão doente, mais à frente pela sua rebeldia e inequação insinuados num episódio de leitura de uma comédia de Malz.

“Gemma, de facto, lia excelentemente, como uma actriz profissional. Sabia delinear cada personagem e manter as suas características, pondo em acção uma mímica que certamente herdara com o sangue italiano (…) Menos perfeita era a sua leitura dos papéis das jovens raparigas – as chamadas «jeunes premiéres»; não se saía bem, sobretudo nas cenas de amor; ela própria o sentia e, por isso, dava-lhes um ligeiro toque de ironia, como se não acreditasse em todos aqueles juramentos exaltados  e discursos elevados que, aliás, o próprio autor evitava, na medida do possível.” (Pág. 23 e 24)

Herr Karl Kluber, pelo seu estatuto, é o noivo conveniente da rebelde Gemma, um controlador obcecado e de um arrogância exponenciada pelo privilégio da sua condição de aristocrata. Começa a desenhar-se uma animosidade com Sánin que cresce na mesma proporção que o sentimento deste por Gemma.

“Também a voz se reveliu como era de esperar: espessa e convencionalmente suculenta (…) Com tal voz é muito cómodo dar ordens aos subordinados: “Mostre aquele rolo de veludo encarnado de Lyon!” – ou: “Chegue a cadeira a esta senhora!”

“Assim, por exemplo, ao ver um riacho, observou que corria numa linha demasiado direita, em vez de fazer alguns meandros pitorescos; não aprovou também o comportamento  de um pássaro, um tentilhão,  que não produzia suficientes variações no seu trinado.” (Pág. 39)

Esta obra é uma portentosa demonstração de virtuosismo na escrita, Turguénev joga com o tom e com o ritmo envolvendo o leitor na trama, antecipando-lhe-se a qualquer conjectura que possa o fazer relativamente ao andamento da narrativa. Não se confunda esta imprevisibilidade com os “plot twists” que disfarçam a mediocridade da escrita (ou cinema) com a surpresa, trata-se de um homem que é fulminado por sentimentos verosímeis, Sánin é largando à deriva, impulsionado pela  impetuosidade da juventude.

Há um episódio que estabelece uma brusca transição na obra. Durante o almoço num restaurante, após o passeio pelo campo em que Herr Karl faz aquelas hilariantes observações aos dotes vocais do tentilhão, da mesa ao lado dos convivas, ergueu-se um jovem militar bem-apessoado, mas visivelmente ébrio, e faz alguns comentários ousados à beleza de Gemma.  Tais impropérios causam a revolta de Sánin que se eleva em coragem acima de Karl – apenas se mostrou indignado – e propõe um duelo ao vigoroso jovem militar, sem que Gemma o soubesse.

A coragem de Sánin conquista o amor de Gemma, e a novela poderia acabar por aqui, mas mais uma vez  Sánin foi capturado pelas grilhetas da paixão, e o acaso introduz a excêntrica  Mária Nikoláevna e o seu terrível dom de familiaridade. Esta mulher apareceu apenas como uma potencial compradora de uma propriedade de Sánin, para que ele angariasse dinheiro para o casamento com Gemma, mas a sua curta estadia na casa dela depressa se precipita numa angustiante revolução interior.

“(…) e, no entanto, aquela estranha mulher, aquela senhora Pólozova pairava ali constantemente…Não, não pairava, estava especada (…) A senhora estava a fazer dele parvo, sem dúvia, estava a insinuar-se-lhe…para quê?O que pretendia ela? Serria apenas um capricho de uma mulher mimada, rica  e quase de certeza imoral?!”

Há uma transição que se opera no seio da crescente intimidade, de repente, não com Gemma, mas com Mária, o livro ganha uma poderosa força descritiva e um desenlace que se julgava certo, até pelas circunstâncias dramáticas, se tornou passado enquanto corriam a cavalo. A vida pode ser definida por breves momentos em que largámos o freio.

“As forças jovens haviam-se desencadeado. Já não era uma amazona a pôr o cavalo a galope – era um jovem centauro feminino, semi-animal e semi-deus, e deixava em pasmo a terra sisuda e circunspecta, calcada pelos cascos da sua orgia desenfreada!”

Sánin fora caçado, rasgado com as garras do gavião, “Vou para onde tu fores…”, humilhado, trai Gemma, é desprezado por todos, principalmente por si, é uma sombra. A femme fatale vence.

Turguénev espalha pelo livro, não uma insinuação da sua intelectualização revolucionária, mas um render incondicional à paixão. Não é a traição que está em causa, a paixão total não se arroga a convenções, tudo consome, até os sonhos. Tal como em Anna Karénina, Sánin abandona tudo e tudo perde.

Este livro tem, apenas, cento e cinquenta páginas. Tenho a sensação de ter lido mil, é absolutamente deslumbrante. Desde o sarcasmo realista ao inevitável fim trágico do romantismo, é uma profanação da paixão pelo logro, instrumentalizando a juventude ingénua de Sánin. Acaba com esperança, é um fim terno e meigo apesar de tudo, o reencontro renovador.

Que a citação inicial não corrompa com cinismo os votos para este novo ano.