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Não escondo a vaidade intelectual de que me prazentearia, caso tivesse o conhecimento suficiente para me aventurar naquele duvidoso empreendimento de traçar paralelos históricos entre acontecimentos contemporâneos, e as páginas da História.

Quando a Rússia pretendia aproximar-se culturalmente à Europa, floresceu naquele país uma elite de músicos e escritores que marcaram indelevelmente as gerações que lhes seguiram. Não pretendo estabelecer uma relação directa de causa-efeito, mas o isolamento da Rússia, entrincheirando-se na ambição imperial, foi-lhe sempre pernicioso.

Os noticiários voltaram a abrir com desfiles de blindados, deslocou-se o palco das areias da Síria para o quintal da Europa, exumando medos que nós, na nossa redoma pacífica, julgávamos serem amareladas páginas da fascinante construção europeia. Invocam-se os tártaros, a geoestratégia do domínio territorial na  Crimeia e o acesso ao Mar Negro, repentinamente, dos relatos de Sebastopol de Tolstói,  erguessem-se  os cavalos extenuados, pintados de negro com fumo dos canhões, o cheiro a pólvora queimada e sangue derramado sobre a lama.

“(…) You enter the great Hall of Assembly. You have but just opened the door when the sight  and smell of forty or fifty seriously wounded men and of those who have undergone amputation —  some in hammocks, the majority upon the floor — suddenly strike you. Trust not to the feeling which detains you upon the threshold of the hall ; be not ashamed of having come to look at the sufferers, be not ashamed to approach and address them : the unfortunates like  to see a sympathizing human face, they like to  tell of their sufferings and to hear words of love and interest. You walk along between the beds and seek a face less stern and suffering, which you decide to approach, with the object of conversing. (…)” (Excerto de Sketeches of Sebastopol de Tolstói)

A invasão da Ucrânia por parte da Rússia, é numa demonstração de força, um desafio aos alicerces da Europa, a paz entre irmãos ressentidos. Recentemente ouvi o professor António Sampaio da Nóvoa a questionar-se  da razão porque as Humanidades não salvaram a Humanidade, eu acredito que os cidadãos da Crimeia conheçam os relatos de Sebastopol, Tolstói poderá já ter escrito o que se passará.

A versão integral de Sebastopol Sketches pode ser encontrada aqui, embora não ser garantida a qualidade da tradução. Mapa daqui. Imagem daqui.