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Assinalou-se, no passado dia 22 de Fevereiro, o Dia Internacional da Língua Materna e confesso que, até ao momento, ter sido um pouco injusto relativamente ao julgamento, no papel de cidadão e falante parcamente munido da palete lexical da língua de Aquilino, do novo Acordo Ortográfico.  A tão mal-afamada unificação da língua lusa é um bálsamo renovador do  léxico português que vem,  e quando julgávamos significar a palavra milagre as bíblicas proezas de Jesus, revelar a harmonia no caos semântico. O milagre económico, Portugal caminha sobre águas e faz ressuscitar uma economia que já descansava no leito eterno. Rejubilem, cordeiros pois chegou a Salvação! Há um desacordo semântico em curso.

“A vida dos portugueses não está melhor, mas não tenho dúvidas que a vida do país está muito melhor.” Luís Montenegro, no congresso do PSD.

Luís Montenegro entoou o tema que inspirou afinadas variações que, no congresso, animou o bailado em salão privado. A toque de caixa correm os indígenas dessa abstracção que é Portugal, país que melhora como um alcoólico ressacado que regurgita pelos aeroportos e lares, os males liquefeitos da festança sem freio. Um escrutínio lexical a esta frase de Luís Montenegro revela outra virtude do AO, a da atribuição de coerência política a estas frases-charneira. O Diabo está nos detalhes, e sabemos nós muito bem, pouca experiência da vida temos mas é o suficiente para descortinar estas subtilezas, que são aquelas qualidades menos evidentes que dotam uma pessoa menos formosa da emanação do perfume da atracção. A quedas das consoantes mudas, primeiramente vítimas de um erro onomástico, representa o empobrecimento generalizado a que nem os actores e os factos foram poupados.

Temos usado letras acima das nossas possibilidades. Receio pelo meu futuro, pois sou ávido utilizador de gramáticas e dicionários – a avaliar pelo que tenho escrito nestes pasquim,  é uma revelação surpreendente -, um dias destes ainda me chega a conta.

Os portugueses são os c’s e os p’s da pátria lexical.

Cartoon de Rodrigo publicado no Humural da História.