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Eu padeço de vertigens, não de uma forma patológica, mas sempre que, de um sítio alto, me inclino um pouco e espreito para baixo, a força gravitacional provoca-me uma impressão de medo primitivo, algo que Saramago descreveu como “atracção do abismo”. Cavaco de Silva, nos seus Roteiros, prefaciou o futuro colectivo da Lusitânia. Peço desde já desculpa à primeira personalidade por ter incluído a segunda no mesmo parágrafo, mas impõe-se as conveniências argumentativas que tal contraste provoca.

Os referidos Roteiros estão disponíveis online para consulta, e já ficou bem claro o entusiasmo do nosso presidente por esta coisa das internets, deixando várias ideias claras, mas há uma delas que têm um cariz catastrófico.

Cavaco de Silva pegou na calculadora e concluiu que apenas em 2035, teríamos coisa resolvida, uma dívida pública de 60% em relação ao PIB. 2035 é uma codificação numérica para o 1640 de Paulo Portas, dê-se corda ao relógio, o cuco entrou em hibernação.

“O cumprimento desta regra por parte de Portugal apresenta-se bastante exigente, tendo em conta que se prevê que, em 2014, a dívida pública seja superior a 126 por cento do PIB.”

Circula por aí um manifesto a defender a reestruturação da dívida pública, veio à tona a herança da Inquisição através da irritação de Pedro Passos Coelho. Vigora o delito de opinião. Um pequeno vislumbre da discussão que deveríamos ter, silenciem-se os sound bytes, carregamos pedras ás costas, é grave e para durar.

Orson Wells semeou o pânico nos EUA ao anunciar, através de transmissão radiofónica, uma fictícia invasão alienígena. O anúncio de Cavaco tem pouco de fictício, mas envolve abduções salariais afim de excêntricas experiências na nave da troika.

A título de curiosidade (mórbida), o Expresso tem um simulador que começa coma seguinte piada de economistas: se Marx tivesse nascido em Portugal, não teria escrito “O Capital”, mas sim “A Dívida”. O simulador consiste num formulário, que consiste num conjunto de parâmetros que se podem manipular para que a dívida atinja o objectivo dos 60% do PIB.

Daqui.