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“Quero ser tua” é a canção portuguesa vencedora do festival da canção 2014 e candidata ao Festival da Eurovisão. Saudosistas da erudição musical lusitana que em tantos festivais elevou ao pináculo sensorial, a membrana sonora que se estende na cavidade do ouvida e denominamos de tímpano, fizeram circular uma petição para vetar a participação desta canção na referida agremiação.

Verão de 1995, sábado à tarde, tinha eu 13 anos, e a minha bicicleta de  montanha com carretos Shimano galgava o asfalto derretido pelo calor tórrido.  Nesse ano, um homem fez história, ao resgatar do anonimato dos palcos montados em cima de duas carrinhas de tractor, os dois acordes e as passagens de baixo que tomam conta do ouvido, para expo-las ao mundo e, inadvertidamente,  revelar o bolor acumulado na superfície da massa crítica. Esse homem foi Américo Monteiro, de seu nome artístico, Emanuel.

A vergonha da repentina consciência de que a cultura de massas é um terreno estéril para as sementes da elite intelectual, precipitou um rótulo adequado à raiva que tal revelação causou, o pimba. Não vou ser hipócrita e assumir o lado dos pobres e, inspirando fundo o estoicismo que  sempre armadilha a demagogia, partir dessa posição para defender o pimba contra  essa segregação musical, que não é mais do que uma oportunidade para amesquinhar o outro. É música de que não gosto, porque se refugia no imediatismo, mas reconheço-lhe a sinceridade com que o faz. Não gosto da indústria que gravita em torno do fenómeno, aliás, é particularmente execrável se tomarmos como exemplo a fertilidade da Casa dos Segredos de “intérpretes” deste género e afins, com a conivência das televisões que ocupam as tardes com um grotesco playback.

Antes de mais, é fulcral para a solidez da contenda, definir conceptualmente o pimba. Eu proponho a seguinte definição: convocação dos sentidos para que, não perturbando a sua inércia, sejam dispensados de um esforço maior, e apenas reajam ao estímulo. É uma definição suficientemente genérica para conter outro tipo de manifestações culturais passíveis de serem rotuladas da mesma forma. Na literatura, na política, no debate diário,  na retórica do empreendedorismo, pimba é raspar a superfície, é ceder ao ócio de não pensar.

A cultura portuguesa é pimba, com rasgos de génio em alguns autores e apenas esses, após a passagem do tempo limar os ângulos da sua personalidade. Os autores acima da média não tem o reconhecimento e estímulo que os permitiam evoluir, porque o mercado é pequeno e o público não se interessa. As discussões públicas  são medíocres, inquinadas por simpatias pessoais, fugindo ao contraditório sólido, são pimba.

Por isso, tenho dificuldade em perceber a expectativa de um Portugal erudito, certamente será aquele país que Passos diz está melhor. Afinal o que é a música portuguesa? Como se manifesta a alma portuguesa na música?

A propósito da indústria pimba,  o caso do “Rapaz da Bilha”  é  pornografia com toda a perversão da licra cor de pele, as danças homofóbicas e a horripilante extensão da vogal antes do refrão.