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São mais do que frequentes as manifestações saudosistas de um passado português pré-revolução de 1974, onde reinava o respeito e aquela noção rectilínia de uma moral, exclusiva matriz de uma sociedade pacífica, traduzida com cínica mestria na expressão “povo de brandos costumes”.

Na maioria dos casos, poder-se-à diagnosticar com segurança, uma patologia de ignorância histórica, pois há um aspecto da ditadura que é frequentemente associado à literatura política e a cantigas, naquele tempo, consideradas de subversivas. No entanto, a censura tinha uma mão de largas garras, agarrando qualquer notícia que pudesse abalar a autoridade do estado. Um repulsivo mecanismo de entorpecimento, extremamente eficaz e mais do que repressivo, esculpia ideologias com assinalável precisão.

A censura é para mim o aspecto mais tenebroso da ditadura interrompida em 1974. Digo isto com a autoridade de quem nasceu após a revolução. O que a censura censurava não era essencialmente político. Eram questões de carácter moral, crimes violentos, foram publicados textos de Marx sob o nome de Carlos Marques, os textos de carácter político eram fáceis de enganar. O que verdadeiramente é obra da censura,  são 48 anos de lavagem cerebral, são quase 3 gerações cobertas pelo pano negro da hierarquia rígida.

Eu troco todo o António Nobre por uma só ode de Ricardo Reis, ou seja, o nacionalista saudosista por o pagão Pessoa. A arte sofreu imenso, embora se diga que a repressão possa ser um combustível para a inspiração, é um raciocínio meramente especulativo, pois também na União Soviética se esperava que após a Queda do Muro de Berlim surgissem as obras que durante esse tenebroso século XX russo foram censuradas, mas tal não aconteceu, aliás, a produção artística russa teve a sua era de diamante no século XIX.

Duas pessoas com a mesma informação, chegam à mesma conclusão. Esta é uma frase de Cavaco de Silva, e tomo como exemplo para a ideia de consenso podre, a ausência de conflito que não pode faltar a uma democracia saudável. Várias vezes aqui me insurgi perante a falta de humildade e tirania patológica que grassa na discussão política. Do outro lado da barricada, o PCP vota contra a condenação de crimes do regime da Coreia do Norte. Na minha opinião, devia-se discutir com seriedade, a legitimidade da presença do PCP na Assembleia, sem uma revisão ideológica por parte do mesmo.

Durão Barroso afirmou recentemente que o Estado-Novo promovia uma educação de excelência. Bateu na trave. Talvez para ele e para a elite burguesa que tinham acesso à cultura e melhores escolas fosse verdade, uma educação profundamente exclusiva em que a maioria da população era analfabeta e o canudo era via directa para os cargos de relevo. Se calhar, este é o aspecto mais marcante desse regime, uma grotesca e castradora desigualdade.

Ainda hoje corremos atrás do prejuízo, e faz sentido comemorar o 25 de Abril hoje, olhando em frente, sem folclore. Viva o Novo-Estado.

Adenda

Uma impressionante entrevista de um Ex-PIDE envolvido no assassinato de Humberto Delgado.