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“Não acredito na inspiração e vejo na escrita poética, basicamente, um exercício técnico, uma aplicação de capacidades oficinais” (Daqui)

Por ignorância minha, há uns anos, tomava Vasco Graça Moura por um conservador, dado ser um cavaquista assumido. Suposições deste calibre são atestados de ignorância que vou coleccionando. Foi no extinto “Câmara Clara” que o ouvi falar sobre livros com uma propriedade que me fez ter orgulho em falar a sua língua. É uma pessoa que gostaria de ter conhecido.

A extensão da sua obra, romances, poemas, crónicas, traduções, ensaios, etc;  é produto de um intelecto impressionante, de um conhecimento enciclopédico sobre literatura e cultura europeia desde o Renascimento à contemporaneidade.

O ano passado dediquei-me à leitura da “Divina Comédia”, traduzida pelo Vasco Graça Moura, e começa assim na sua introdução:

“Traduzir é, antes de mais, uma luta corpo a corpo com dois adversários principais e vários outros, de toda a ordem e de e de importância diversa. Os principais são a própria língua do tradutor, com especial mobilização de recursos que implica para o fim em vista, e a língua do texto original, na específica configuração e concreção literária do texto sobre que se opera. Entre os restantes, conta-se a séria de disciplinas, de fontes e de informação díspares que, muitas vezes, se tornam indispensáveis à interpretação. Nesse corpo a corpo, o autor da tradução tem de conseguir penetrar nas veias do discurso a traduzir, compreender-lhe a lógica e as articulações interiores, encontrar a relação  interactiva de equivalentes que permita se fale em transposição da língua original para a de acolhimento, no conjunto de circunstâncias concretas que, naquela, a tornaram numa específica obra literária e, nesta, aspiram a sê-lo também” (in A Divina Comédia de Dante Alighieri, pág. 9).

A partir daqui, vai desenrolando as suas considerações sobre o acto de traduzir, sobre o enquadramento histórico da obra, a terza rima, etc.   Um trabalho incansável, uma inspiração, uma abrangência universal. Conseguiu o prodígio de me transportar para Florença e caminhar ao lado de Virgílio e o Peregrino sem eu sentir a estranheza do tempo que nos separa.

A sua morte é uma perda irreparável para a cultura portuguesa, um edifício que cessa de crescer. Que cessem os óbitos, este ano.