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O Festival da Canção é um pouco como a Euronews ou a Eurosport, uma bonomia bacoca marcada pela repetição de hipócritas apertos de mãos em frente a locais históricos, desportos na neve e os golos da liga francesa. Uma espécie de terraplanagem da cultura europeia,  um filtro passa-baixo escondendo as indeléveis feridas. Os fantasmas do passado pairam, e as caricaturas nãos o conjuram.

A vitória da Conchita Wurst é um triunfo da tolerância e elevação da cultura europeia acima dos estereótipos sexistas? Não acredito, mas dá um bom panfleto. Trata-se de um safanão cultural, uma pedrada no charco, pois os Europeus parecem-me muito descontentes com o imobilismo frustrante da Europa, amarrada por constrangimentos económicos e muita hipocrisia. O festival é sempre um bom palco para este tipo de manifestações, quer se goste quer não. A piada está, como sempre, na ironia de um homem com vestido de mulher – travesti Jesus como já lhe chamaram – a cantar uma música típica da abertura dos filmes do James Bond, esse bastião da submissão feminina.

Camille Paglia deverá estar ao rubro com este demonstração ctónica da música europeia.

Por parte da Rússia, alguns políticos  agitaram-se com reacções homofóbicas perante esta vitória que atribuíram ao facto da senhora ter barba, em detrimento das gémeas loiras que representavam o seu país.  Penso que a sua indignação é fundamentada, pois na Federação Olímpica da ex-URSS, as lançadoras de peso ostentavam uma pilosidade facial de invejável abundância. Trata-se de um plágio estético indesculpável.  Para além disso, um dupla de loiras não ganhar seja lá o que for é um escândalo.

No seguimento linha de raciocínio, espanta-me é que a Polónia não tenha feito alarido. O esforço que aquela moça empenhou no manuseamento do pilão – aquele instrumento que a rapariga segura, muito usado em África – merecia outra consideração.

Imagem daqui.