Tags

, , , ,

E se fosse possível fumar sem remorsos? O tabaco é a principal causa de morte evitável  em países desenvolvidos. Tal facto, por si só, atesta a irracionalidade do bicho-homem para quem o fruto proibido apetece com mais voracidade, e as maleitas que dessa fraqueza se aproveitam, são o risco que tempera.

O cigarro electrónico – a.k.a. e-cigarette ou e-cig – promete revolucionar esta acto banal, redimindo-o da malícia masoquista. Poderá ser este o século do prazer sem consequências? Utopias à parte, os factos são animadores.

Neste dispositivo, ao contrário do cigarro convencional, não existe a combustão e em vez de tabaco, um líquido constituído essencialmente por substâncias usadas na indústria farmacêutica a alimentar, tais como o propilenoglicol, glicerol, nicotina, água, etc. O líquido é aquecido por uma resistência, transformando-se no vapor que é vaporizado pelo fumador.

e-cigarette

O uso dos cigarros electrónicos tem aumentada exponencialmente nos últimos anos. As lojas dedicadas a estes dispositivos, líquidos e respectivos apetrechos, multiplicam-se por todo lado. Não é uma moda, é uma invenção importantíssima, uma das maiores deste início de século, pois pode afectar positivamente a vida de milhões de pessoas.

Os e-cigars são uma clara afronta às indústrias tabaqueiras que já vêem o seu lucro diminuído, por isso, grassa a desinformação e alarmismo. Não acredito em teorias da conspiração, mas pero que las hay, las hay e não são nenhuns anjos como já o provaram no passado, caso da Philip Morris. Espero que a concorrência e instinto de sobrevivência, as motive para desenvolver cigarros electrónicos de qualidade.

Há vários argumentos a favor e contra. Enuncio abaixo alguns argumentos que poderão ser esgrimidos entre ambos os lados da barricada.

Os contras:

Não existem estudos sobre os efeitos a longo-prazo de uma utilização continuada. Este é o argumento principal deste lado da barricada. Os estudos existentes são contraditórios entre si, o que indica que ainda é preciso que a investigação mature.

O manuseamento dos líquidos pode trazer riscos, pois são tóxicos na sua forma líquida. Há pessoas que fazem os seus próprios líquidos, o que pode implicar o uso de nicotina líquida, altamente tóxica se ingerido ou entrar em contacto com a pele.  É um factor associada ao cuidado de cada um, mas a verdade é que o cigarro electrónico necessita de cuidado e higiene. Um tanque de pouca qualidade, poderá não garantir o isolamento do líquido, permitindo a passagem de líquido para a parte que está em contacto com a boca. Isto poderá acontecer quando o cigarro não está numa posição vertical, o que não é garantido em situações mais caóticas, por exemplo, num festival.

A falta de regulação é preocupante porque não garante a qualidade dos líquidos ou dos dispositivos. Não se pode ter a certeza da composição dos líquidos em que haja garantias sólidas de qualidade, ou até dos dispositivos. A qualidade das resistências e do tanque que contém o líquido terá de ser garantida pois o aquecimento pode levar à libertação de substâncias eventualmente perigosas. Não me aprece um problema difícil de contornar. A Comissão Europeia aprovou, em Março, nova legislação para os produtos de tabaco [2]. Assim, “fabricantes e importadores ficam também obrigados a fornecer às autoridades competentes a lista de todos os ingredientes presentes nos dispositivos”. Não poderia ser de outra forma e é essencial.

A multiplicidade de fornecedores. A quantidade marcas e formatos diferentes assemelha-se ao fenómeno das pen drives, onde não há duas iguais. É necessário existir uma marca de confiança, embora nas lojas garantam sempre que as marcas dos seus produtos são as melhores,  existem alguns rankings, mas falta uma marca sólida. Uma legislação sólida favorecerá as boas marcas.

Os prós:

Se os cigarros elctrónicos ainda não podem ser considerados como seguros para a saúde, claramente, são mais seguros que o tabaco, pois não contém grande parte dos componentes cancerígenos dos cigarros, tais como monóxido de carbono, o alcatrão, o amoníaco, o cianeto, o chumbo, the list goes on. Este argumento esmaga a balança a favor dos prós. Apesar de conter substâncias que poderão ser prejudiciais, tais como os aditivos para dar sabor, estes são evitáveis. O médico canadiano Gaston Ostiguy do Smoking Cessation Clinic at the Montreal Chest Institute, leva a questão ao extremo de afirmar que “(…)There is a moral and ethical duty to provide these products to addicted smokers.(…)” [3]. Não é o único profissional de saúde a favor dos e-cigarretes.

Substituem o cigarro convencional e poderão levar à desistência de fumar. Este tópico é controverso, mas há imensos testemunhos de pessoas que utilizaram este mecanismo para atingir esse objectivo. Na pior das hipóteses, a substituição é benéfica. Conheci pessoas que atestam uma clara melhoria na sua qualidade de vida a partir do momento em que fizeram essa substituição, nomeadamente, ao nível da resistência física e paladar.

Elimina o fumo, cheiro a tabaco e a cinza. Não é apenas um detalhe, pois o vapor é inodoro, não fica na roupa nem se entranha em casa. Esta característica elimina a ubiquidade que o tabaco conquista na vida dos fumadores. Além disso, é mais ecológico.

É mais económico, excepto o investimento inicial, sai muitíssimo mais barato que a quantidade de maços de tabaco que um fumador consome mensalmente.

Poupará o estado em tratamentos a doenças provocadas pelo tabagismo, compensando o que poderá perder em impostos sobre o tabaco? Uma questão a avaliar.

É uma tecnologia com potencial de evolução, no domínio do dispositivo e dos líquidos.

Pseudo-argumentos e falácias:

A ingestão do líquido por parte das crianças poderá causar acidentes graves. O mesmo se passa com a ingestão lixívia, detergente da loiça, etc. É verdade que os líquidos poderão estar mais expostos, porque serão usados com frequência pelos fumadores, mas é uma questão do domínio da responsabilidade de cada um, nada tem que ver com o produto em si. O espantoso, é que este é um dos argumentos mais utilizados contra o e-cig, o que na minha opinião atesta a sua segurança, por redução ao absurdo.

O uso dos cigarros elctrónicos poderá ser uma porta para o consumo dos cigarros convencionais. A ingestão de uma cerveja poderá ser uma porta o alcoolismo, ou o consumo de um ovo Kinder ser uma porta para a obesidade mórbida.

Conclusão

Titulei este post de revolução silenciosa porque, apesar do seu potencial extraordinário na diminuição de doenças derivadas ao tabaco e do aumento exponencial de popularidade,  o assunto tem pouca visibilidade. Ainda parece um pouco estranho, talvez cómico, ver as pessoas a fumar através de um aparelho eléctrico. Mas essa reacção é apanágio de todas as novidades revolucionárias.  Talvez a implantação dos cigarros elctrónicos seja vítima de uma higienização fundamentalista, que tudo varre por convicções obsessivas e arrogantes.

Não vai ser possível que todas as pessoas tenham hábitos absolutamente saudáveis, nem é desejável eliminar a componente irracional dos homens, o motor de todas as artes, seria o argumento do 1984 de Orson Welles encenado na realidade. Cabe a cada um, na sua preciso liberdade individual, ajustar o nível de negligência dos seus guilty pleasures.

Referências:

[1] Public Health England, Published May 2014, “Electronic cigarettes, A report commissioned by Public Health England”;

[2] Deco Proteste,  18 Junho 2014, Cigarros eletrónicos pouco seguros

[3] The Montreal Gazette, March 24 2014, “It’s time to authorize the sale of electronic cigarettes”.

Outros estudos podem ser encontrados aqui.