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Não é preciso ser-se particularmente cínico para perceber, desde há muito tempo, que seria o Estado a resolver os desmandos de uma banca que insiste na negociata.  Too big to fail, too big to bail. Uma elite, uma casta de poder que nidifica desde os tempos do Eça e de Ramalho Ortigão, uma farpa que nos continua a ferir:

“Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores, poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,—nós, francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas—mais ou menos legitimamente—os usufrutuarios, os administradores officiosos ou officiaes do dinheiro dos outros.

Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma parte que se nos deduz n’aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as purpuras dos nossos reis, as toilettes das nossas dançarinas, os penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d’agua dos nossos parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.” (As Farpas  Tomo VIII, daqui).

O resvalo para a demagogia é tentador; Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e espécimens afins, fazem com que as propostas de Jerónimo de Sousa para a gestão da banca  parecerem razoáveis.    Mas, na minha inocência, também eu um Inundado, como é que depois de tudo que aconteceu com o BPN, não ficou a banca com o garrote a avermelhar-lhe o pescoço?

Na realidade, para a capitalização do BES, o Estado vai recorrer a um fundo da troika para este efeito. O Inundado não é tolo, quanto deste dinheiro não será menos carne na sua sopa? Quanta dessa carne já fora subtraída para pasto nesses almoços  até meio da tarde, rematados com um passa-bem entre compinchas que não dormem enquanto não rasparem o fundo do tacho?

Ah, Inundado! Tu queres ser razoável, torces o nariz às revoluções porque sabes que a gamela apenas muda de mesa, mas na tua o pão continua a ser o de ontem. Tu que trabalhas, e dizem-te que o teu trabalho pouco vale, mas doem-te as costas. Tu que reclamas e que te manifestas, como quem desabafa uma paixão mal resolvida, sabes que nada resolve.

Em que pé ficas, Inundado? Ficarás na mesma, sempre foi assim, e ainda aqui estás para desfrutar o calor matinal na erva molhada de Novembro, resta-te o consolo das pequenas coisas. A felicidade dos mansos.