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Os temas em debate incluíam a obra do realizador italiano Pasolini e do escritor norte-americano David Foster Wallace. Quem se recorda do ciclo Cinco Noites, Cinco Filmes” da RTP2, havia uma semana no verão  onde eram exibidos filmes deste realizador e doutros com ousadias semelhantes que, marcando indelavelmente uma geração com estímulos cinematográficos que o cinema de Hollywood  não nos tinha habituado. Os protagonistas eram Pedro Mexia,  Salvato Telles de Menezes e o moderador Vasco Telles de Menezes.

Mas este debate estava destinado  a ser protagonizado por uma personagem caricata.  No auditório da Biblioteca Almeida Garrett, as cadeiras da frente estavam marcadas com o sinal de reservado. Naquele momento de expectativa que antecedia a conversa, as pessoas sentavam-se, ouviam-se os telemóveis num último lamúrio melódico imediatamente antes de se desligarem,  o crepitar dos sacos com livros ainda frescos, e um homem de meia-idade, moreno, já calvo apontava para as cadeiras com indignação e leu nomes imaginários:

– Ricardo Salgado, Duarte Lima, Oliveira e Costa, estão aqui todos!

Foi avisado por um dos organizadores que naquelas cadeiras não teria lugar, estavam reservadas. Toda a gente levantou a cabeça perante o estardalhaço, e o Pedro Mexia olhou de soslaio antecipando algum momento “Governo Sombra”, calculo eu. O homem murmurou uns impropérios imperceptíveis e lá se sentou numa das cadeiras imediatamente atrás. Entretanto, o moderador iniciou o debate, saudou o público, em passou a apresentar os autores em debate:

– Pier Paolo Pasolini, cineasta, escritor,…

– Homossexual! – acrescentou o lunático.

– …também… – o moderador aproveitou a deixa com humor.

– Será que vamos conseguir prosseguir com o debate? – questionou o Pedro Mexia perante as constantes interrupções do homem que estava indignado por não haver referências a James Joyce quando se falou de David F. Wallace.

Quando o tem se centrou em Pasolini, o Pedro mexia referiu que um dos seus filmes, Saló, terá sido um dos mais chocantes e que as audiências apenas não abandonaram a pelo choque as petrificar.

– E o Império do Sentidos, viu? Não era muito pior? – comentou o lunático, interrompendo outra vez.

– Não, nem por isso…não. O Império do Sentidos é para meninos, só se for a parte do fim…- ripostou o Pedro Mexia habituado ás altercações com o Ricardo Araújo Pereira e com o João Miguel Tavares.

O homem levantou-se e apontou para o palco:

–  Vocês não percebem nada de literatura! – Lá se foi embora gesticulando com desprezo, trepando velozmente o auditório para espanto da plateia.

Um episódio cinematográfico, mas tolinhos destes são como tremoços por essas terrinhas.