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Quando cheguei à Biblioteca Almeida Garrett a fila já ia desde a entrada do auditório, no andar de baixo, até à sala de exposições em cima. Fui para o fim da fila. Um senhor com uma idade muito respeitável andava perdido e perguntou-me onde era saída, indiquei-lha, ainda atarantado com a perspectiva de talvez não conseguir ter lugar, a entrada era livre, mas não foi por isso que estas pessoas que se vêem acorreram em quantidade generosa. Duas horas que os  meus pés suportaram com estoicismo.

Foi declamada poesia, é não encontro outra forma de a apreciar. Poesia escrita é folha morta, é como olhar para uma pauta em silêncio, tem de ser interpretada, declamada, é musical. Caro Vasco Graça Moura, obrigado.

Testamento de VGM (Excertos)

1.
no ano em que sou duplo trintão,
tempo de ver-me sem lisonja
mas sem temor, sem contrição,
tempo de não passar a esponja,
nem de soprar mesmo de longe a
chama em que ardeu o meu estilo,
nem de glosar motes de monja,
nem de guardar de mim sigilo,

[…]

3.
sendo em política incorrecto,
deram-me amor, literatura,
algum suor, algum afecto
e meias-tintas de amargura,
alguma sombra mais escura,
algum mais fundo sentimento,
e achando assim azada a altura,
para fazer um testamento,

[…]

13.
aos inimigos (pura perda
de tempo a ouvi-los rugir-me)
a esses deixo toda a merda
com que quiseram atingir-me
e ao deixá-la digo a rir-me
“comei-a toda agora a cru,
que a digestão vos seja firme
e ao fim lambei o próprio cu”.

[…]

16.
fiz boas, más, neutras acções
e fui leal, mesmo, acreditem,
com muita gente sem colhões.
citei autores, pois que me citem,
ou me distorçam, ou crocitem,
me esburguem todo em fim de festa,
mas acrescento mais um item
e nada deixo a quem não presta.

[…]

20.
pois num país sempre a dormir
porque não hei-de em qualquer canto
deixar-me estar antes de abrir
da doce aurora o róseo manto?
se cada um só quer ver quanto
ressona mais do que o vizinho,
eu sendo assim, não me levanto:
vai portugal por mau caminho.

Daqui.